Terraplanismo, crise da ciência e pós-modernismo

Racionalidade

Terraplanismo, crise da ciência e pós-modernismo

por Bruno Mäder Lins
12 de março de 2020
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O que a filosofia tem a nos dizer sobre os dilemas que vivemos hoje

Vivemos em tempos em que falam-se mentiras em nome do fato, em que a ciência é ignorada em nome da ciência, em que massas são formadas pelo argumento da liberdade do indivíduo. Tempos em que as soluções fazem parte do problema, em que é urgente agir, mas a ação parece somente aumentar o obstáculo. Tempos de terraplanismo.

A cortina parece estar caindo a nossa frente e o que era sério começa a se apresentar como uma peça de tragicomédia. Mudanças lentas para a nossa perspectiva individual, mas rápida perante à história? Infelizmente hoje nem mais o cotidiano parece conseguir escapar do caos histórico que bate à porta.

O sujeito crítico se vê à frente de um dilema: seguir a vida cotidiana é o mesmo que caminhar em direção ao abismo, a crítica irresponsável, porém, está mais próxima de um movimento anti-iluminista. Como pensar a audácia dentro de tamanha crise simbólica?

A história e a filosofia podem nos servir de guia

Do renascimento à revolução iluminista, a valorização da razão ou da ciência precisou categorizar por exclusão o seu contrário, ou seja, aquilo que não é racional ou científico. E para o filósofo atento às relações de poder, a dualidade razão e loucura nunca foi simples: quanto mais valor é dado à razão e à ciência, mais interessa ao poder dominar tais ferramentas.

Motivo pelo qual importante papel da filosofia nos tempos modernos é lembrar ao sujeito crítico que a ciência também está subjugada ao poder. Que mera defesa precipitada sobre a ciência pode acarretar num enorme erro, pois o louco pode muito bem estar certo.

Em outras palavras, para a filosofia, a ciência pode até supor agir com a melhor das intenções, como tudo, porém, não deixa de estar subjugada ao ditado “de boas intenções o inferno está cheio”. Pensemos, assim, um pouco sobre esse antigo dilema da filosofia: a “crise da razão” e o famoso debate entre modernos e pós-modernos.

A racionalidade por detrás da loucura

O dilema não é novo, já em diversas peças de Shakespeare a figura do louco é aquela que expressa a verdade. Nietzsche também não estaria surpreso, a razão enquanto guia da civilização não foi sempre a maior farsa vendida pela modernidade?

Para o filósofo Adorno reviravoltas também sempre estiveram na esquina ao lado. Não à toa na obra “As estrelas descem à Terra” (1948) afirmou à maioria que comemorava os tempos modernos que as mitologias existentes – como a astrologia – provavelmente falassem mais sobre a ciência do que o contrário.

Questiona Adorno: que mundo é esse tão confiante de seu desencantamento da mitologia, no qual, porém, massas se identificam tão facilmente com supostos sinais de astros?

Foucault mais adiante radicaliza a inversão periferia e centro de análise, explica a própria razão e ciência a partir da história da loucura. Avancemos aos principais paradigmas: Kant, Hegel e Nietzsche, para abarcar o contexto do debate.

Pensadores modernos: de Kant a Hegel [o idealismo alemão]

Para a filosofia, Kant é considerado a expressão mais bem acabada do pensamento da modernidade, uma vez que este formulou essa razão teoricamente capaz de afirmar um parâmetro de julgamento universal.

Kant foi quem, na modernidade, defendeu a atitude de se colocar no lugar do outro. De maneira simples, o conceito do imperativo categórico entende que a razão é capaz de levar o homem a não fazer ao outro aquilo que não gostaria que fizesse com ele mesmo.

O primeiro abalo às propostas de Kant foi formulado por Hegel, quem posteriormente afirma ser impossível fundamentar as categorias da razão e do julgar, pois ambos só existem em seu contexto histórico. Para ele, não há como argumentar, portanto, uma moral universal e perene, mas apenas contextual.

Tanto a verdade como o ato de julgar só podem ser entendidos nas suas específicas mutações históricas, uma vez que são a personificação de um conflito que guia o homem no tempo. Ou seja, é o próprio conflito que antes formula e reformula as categorias da razão.

Nesse sentido, o imperativo categórico kantiano acaba sendo, segundo Hegel, um conceito que esconde uma violência ao universalizar um específico e histórico parâmetro de julgamento – como se fosse justo comparar as decisões de alguém que nasceu na periferia da cidade do Recife com alguém que nasceu em Zurique.

Para Hegel, portanto, a razão não deve questionar uma moral universal, mas compreender como a nossa própria análise – e a tentativa de universalizar o nosso julgar particular – já é resultado do conflito histórico, tanto quanto atua na reprodução dele.

O avanço para fora da modernidade: Nietzsche e Foucault

Se Kant é expressão da filosofia moderna, o avanço da crítica a Kant é o que fundamenta o grupo classificado hoje como pós-modernos. Os quais, como Hegel, estigmatizam qualquer moral universal pela máxima: a mesma régua não pode julgar diferentes realidades, mas que, diferentemente de Hegel, não dão mais nenhum caráter de emancipação à razão.

Em poucas palavras, os pós-modernos não são mais modernos, pois não acreditam que seja possível avançar pela categoria da razão, uma vez que que a razão pressupõe a formulação de uma moral universal – tal como explicita o imperativo categórico kantiano.

Na visão pós-moderna, o modernismo pode ter convencido a maioria da sua bondade, por debaixo de seu bonito discurso, porém, esconde o sujeito que se auto coroa rei. A razão já carregaria o germe da violência por definição, posto que a universalização de uma moral particular sempre aniquilará as diferenças.

Nietzsche é a expressão mais bem acabada da crítica pós-moderna, recentemente atualizada por Foucault. Não coincidentemente, em ambos o tema da moral e da razão passam a ser totalmente reduzidos à expressão da vontade do poder.

Em suma, nesse afastamento de Kant, tanto Hegel (moderno) quanto Nietzsche (pós-moderno) concordam que a principal lição da história é que o poder define a regra do jogo e do julgar. A diferença se dá quando Hegel, diferentemente, ainda vê emancipação na razão – caso ela atenda ao divã da auto-análise histórica. Enquanto Nietzsche, ao contrário, não encontra mais saída por ela.

Para Nietzsche, é preciso superar radicalmente a própria razão e o tema da moral. Para os hegelianos, é preciso desenvolver uma racionalidade atenta ao conflito que opera dialeticamente, formando as históricas contradições, e aprender a reconhecer o universal que subjuga os particulares no tempo. Devido a importância dada à racionalidade, Hegel continua sendo moderno.

O que atualmente respondem os autores [que se identificam como] modernos aos pós-modernos?

Os modernos, em própria defesa, afirmam que a recente relativização expressa por Nietzsche e atualizada por Foucault nos levou ao seguinte problema: a análise pós-moderna, ao negar toda forma de totalidade, acabou por legitimar uma sociedade cada vez mais dividida.

Mais especificamente, afirmam que focar sempre nas diferenças permitiu a atual divisão dos grupos explorados os quais, sem categoria sociológica de unificação, encontram-se incapazes de reagir adequadamente.

Para os modernos é urgente a união entre aqueles que estão na parte de baixo da pirâmide social, capaz de fazer oposição à recente e forte reação – universalização – dos de cima. A negação de toda forma de totalidade na prática apenas inibiu a resposta dos de baixo, já que os de cima nunca deixaram de atuar coletivamente.

Em outras palavras, os pós-modernos teriam feito uma abstrata negação da totalidade que terminou por dar ao poder um passe livre no plano real, legitimando seu formato maquiavélico: dividir para conquistar. O pós-modernismo seria, assim, expressão do avanço da individualização neoliberal na parcela de baixo da pirâmide social.

A dialética hegeliana continua sendo a nossa melhor arma

Faço aqui uma defesa de Habermas sobre o debate, a principal lição que temos a levar de uma análise sobre o discurso filosófico da modernidade e a crise da ciência, exemplificada hoje pelo tema do terraplanismo, é a atualidade de Hegel.

A dialética é o trabalho de reconhecer as contradições de cada argumento, contradições que geram as mudanças das ferramentas interpretativas do homem no tempo. Ou seja, que nos incentiva a entender a própria história a partir do movimento desse conflito, e o outro – aquele que entendemos como o nosso contrário ou inimigo – como alguém que também fala muito sobre nós.

Diferentemente do pós-moderno, o sujeito dialético não permite a redução do mundo político ao “é tudo poder”, posto que reconhece a contradição por detrás dessa generalização: não seria a interpretação que reduz tudo ao poder mais uma problemática universalização de um conceito particular?

Mantém, portanto, seu olhar aguçado às particularidades sociológicas, econômicas e políticas que constroem as totalidades, a partir da qual é possível pensar a “realpolitik”. Como os autores pós-modernos, reconhece a relevância do tema “poder”, sem porém esquecer da importância de se posicionar e pensar coletivamente.

O Pensador, de Auguste Rondin (Crédito bianca Pyl)
O Pensador, de Auguste Rondin (Crédito Bianca Pyl)
A racionalidade por detrás do terraplanismo

De Hegel fica a lição para que em momentos como o nosso, antes de apenas julgar, tentemos buscar interpretar esse outro e as contradições de cada posição, inclusive a nossa. No caso, importante é o esforço de entender a racionalidade por detrás do terraplanismo, e a irracionalidade por detrás da ciência.

O comentário pode incomodar o mundo científico, mas o negacionismo científico que fundamenta o movimento terraplanista expressa a parcela da sociedade que reconhece a falha da ciência como projeto emancipatório – tema que o cientista social Vinícius Mendes apresenta mais aprofundadamente em artigo publicado em paralelo a esse*.

Obviamente, não pretendo aqui defender o absurdo de uma terra plana, mas apenas reconhecer as falhas das ciências como já haviam previsto, por exemplo, os autores da primeira geração da Escola de Frankfurt – ou Teoria Crítica.

Num mundo onde várias ciências comprovam fatos diferentes, muitas vezes até contrários, ficou a questão: para onde vai uma sociedade em que cada um sabe apenas interpretar aquilo que está sob o seu pequeno escopo? Como já adiantou a Escola de Frankfurt, a modernidade ao matar a filosofia jogou fora a possibilidade de questionarmos a direção a qual nos leva o piloto.

As contradições do reducionismo científico

Inaugurada em 1923, a Escola de Frankfurt entendia que uma efetiva crítica à nossa realidade contraditória requer um combate duplo. Compreender (i) as particularidades científicas, sem esquecer de (ii) analisar a totalidade, papel que pertenceria, segundo à escola, à filosofia.

Para os autores, seria necessário:
(i) um questionamento da totalidade que estivesse fundamentado a partir da intersecção das particularidades científicas. Mais especificamente, que as ciências não apenas reproduzissem os típicos reducionismos analíticos: limitando-se aos temas de suas próprias áreas. Que ao avançarem na questão da totalidade, porém, não universalizassem interpretação particular.

(ii) trazer de volta à modernidade o que sempre fora essencial à filosofia grega, a questão da moral. Ou seja, lembrar à modernidade que a ciência e sua maravilhosa eficiência não pode se ausentar da questão do “porquê?” Caso contrário a ciência não emanciparia, mas participaria ativamente da alienação social.

O projeto da Escola de Frankfurt não avançou como deveria, pelo contrário, os escolares precisaram fugir da Alemanha com a ascensão do nazismo. Não surpreendetemente, as contradições do reducionismo científico e do sepultar da filosofia terminaram por se desenvolver historicamente: ciências foram dividas e pragmaticamente utilizadas por diversas construções de poder.

Nada de estranho, portanto, se hoje parcela da população se decepciona com esse processo. A ciência que nos apresentou a tecnologia do telefone móvel é a mesma que produziu armas, manicômios e o aumento da desigualdade. O passado nos relembra novamente aqui, portanto, como a história se repete, continuamos com o dilema da primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa, resta à razão em algum momento aprender com o passado.

Bruno Mäder Lins é cientista social formado na USP e mestrando em Política Econômica na Universidade de Genebra.

*Ambos os artigos foram produzidos em conjunto.



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