O encontro de Lélia Gonzalez com Candeia
A parceria de Gonzalez e Candeia merece, por si só, ser celebrada, tamanha a beleza desse encontro. Ambos completariam 90 anos em 2025.
Neste ano, Antônio Candeia Filho e Lélia Gonzalez completariam noventa anos de idade. As trajetórias de Gonzalez e Candeia foram ambas marcadas por um profundo interesse pela cultura brasileira e pela denúncia do racismo, culminando na parceria no Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. Fundada em 1975, a Escola reuniu compositores insatisfeitos com os tortuosos caminhos mercadológicos assumidos pelas escolas de samba à época, na tentativa de frear o bonde comercial em prol das comunidades e da sabedoria que delas brotam.

Para o enredo de 1978, intitulado Noventa anos de abolição, Candeia bebeu na fonte também da produção de Gonzalez, tendo o manuscrito original contado com rabiscos da professora [1]. No mesmo ano, a pedido do compositor, Gonzalez representou a GRANES Quilombo no ato de lançamento nacional do Movimento Negro Unificado. A militante, por sua vez, não poupou alusões às escolas de samba em suas comunicações mundo afora, conferindo à sua teorização uma escrita tão firme quanto envolvente, carregada de original brilhantismo em se tratando dos apontamentos para uma psicanálise desejosa de extrair as devidas consequências do território em que é praticada.
Em outubro de 1980, no Simpósio Psicanálise e Política, realizado no Rio de Janeiro, a estudiosa apresentou pela primeira vez o trabalho Racismo e sexismo na cultura brasileira [2], texto basilar sobre a formação da cultura brasileira e a crítica do mito da democracia racial. A tese é precisa ao rasgar o véu da fábula da convivência racial harmoniosa no Brasil, mito atualizado também no desfile das escolas de samba, raro momento de exaltação pela branquitude da mulher negra como rainha, segundo Gonzalez.
O episódio momesco é paradigmático no que diz respeito ao elogio do berço afrodiaspórico da cultura brasileira, embora também revele uma apropriação “por parte da indústria turística (…) e, além do lucro, se traduz em uma imagem internacional favorável para a ‘democracia racial brasileira’”[3]. A intervenção da pesquisadora no Simpósio não parece ter tido grande repercussão entre os presentes, restando praticamente à margem das elaborações de psicanalistas até bem pouco tempo atrás. Dez anos antes do episódio, em 1970, coube a Candeia a composição de Dia de graça, tradução da crítica do mito da democracia racial em uma belíssima canção que adquire feições de hino, ainda hoje, quando executada em rodas de samba:
Hoje é manhã de carnaval
As escolas vão desfilar
E aquela gente de cor com a imponência de um rei
Vai pisar na passarela
Vamos esquecer os desenganos
E ver alegria que sonhamos
E damos o nosso coração
Alegria e amor a todos sem distinção de cor
Mas depois da ilusão, coitado
Negro volta ao humilde barracão
A parceria da dupla merece, por si só, ser celebrada, tamanha a beleza desse encontro. Além disso, coloca em cena a importância das coalizões entre a intelectualidade brasileira e os saberes gestados no barro de nosso chão. Que a interlocução do campo psicanalítico com a cultura dita popular não seja mais um recurso a sustentar a democracia racial enquanto mito, mas forneça pistas certeiras a uma psicanálise que samba e sabe adentrar no miudinho essa avenida, em reverência às formas de cuidado de que lançam mão as comunidades do samba.
Fernanda Canavêz é Doutora em Teoria Psicanalítica, professora da UFRJ e coordenadora do marginália – Laboratório de Psicanálise e Estudos sobre o Contemporâneo.
[1] Gonzalez, L. (2024). Festas populares no Brasil. São Paulo: Boitempo.
[2] Gonzalez, L. (1981). Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Clínica Social de Psicanálise Anna Kattrin Kemper. Simpósio Psicanálise e Política. Rio de Janeiro: Bloch Editores.
[3] Gonzalez, L. (2020). Cultura, etnicidade e trabalho: efeitos linguísticos e políticos da exploração da mulher. In: L. Gonzalez; F. Rios (Org.) & M. Lima (Org.). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 44.

