O espelho encoberto - Le Monde Diplomatique

CULTURA

O espelho encoberto

por Gérard Mordillat
22 de agosto de 2013
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Ascensão de uma civilização da imagem com a onipresença da televisão, retorno da escrita com a emergência do e-mail e da internet… E se, ao considerar como rivais esses dois meios de comunicação – o texto e a imagem –, terminássemos por perder de vista suas naturezas gêmeas e sua intimidade primordial?Gérard Mordillat

Na Idade Média, os peregrinos penduravam em seus chapéus minúsculos espelhos, convencidos de que quando se prostrassem diante da santa relíquia, ao final de seu périplo, a imagem desta persistiria no amuleto. Persistência da imagem piedosa que os protegeria dos perigos, das doenças, do mal, do diabo e de seus demônios. Esses pequenos espelhos baratos eram feitos de chumbo polido. Essa indústria, esse comércio, foi a primeira atividade de Johannes Gutenberg, que tinha feito seu aprendizado como ourives e dominava não apenas o trabalho dos metais mas também suas ligas. Ele fabricou e vendeu esses pequenos espelhos aos peregrinos até que a prática fosse esquecida, perdida, ou que ele se tivesse cansado. Liberto de uma atividade tão medíocre, ele se lançou na fabricação de letras de imprensa móveis, resistentes e reprodutíveis.

É sem dúvida exagerado afirmar que Gutenberg inventou a imprensa. Por outro lado, é certo que foi ele quem sintetizou os elementos conhecidos, mas dispersos, que iriam levar ao seu aperfeiçoamento moderno e a seu desenvolvimento. Ele foi, então, merecidamente considerado como “o primeiro a imprimir um livro digno deste nome” (uma Bíblia), mesmo se, dentre as primeiras tentativas, encontramos – um belo símbolo – cartas de indulgência. Cartas de trinta linhas que eram amplamente comercializadas pela Igreja e que garantiam anos no paraíso a seus compradores.

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero fixou sobre as portas do castelo de Wittenberg suas “95 teses” contra as indulgências, indignando-se que se pudesse vender o céu para financiar Albert de Brandebourg (1490-1568), que ambicionava o cargo de arcebispo de Mayence – a cidade de Gutenberg! Seus alunos o recopiaram e mandaram imprimir. Essas palavras em letras de chumbo foram as primeiras armas dos monges-soldados que conduziram à Reforma…

O espelho de chumbo que conservava o reflexo do objeto observado (imagem santa ou vulgar) e o chumbo da palavra impressa (religiosa ou profana) são, portanto, dois elos de uma corrente que ninguém seria capaz de separar. Existe uma ligação tangível entre a persistência da imagem no espelho e a da palavra sobre a página impressa, entre a literatura e a imagem. A palavra e a imagem se tornaram perfeitos sinônimos. Assim, é impossível limitar o termo “imagem” à sua dimensão pictural ou fotográfica, assim como a palavra não pode ser reduzida a seu sentido aparente. Entre ambas, há uma irresistível atração, uma condensação extrema de sentido, precipitada de emoções, fissão nuclear de expressões num corpo infinitamente pequeno cuja explosão produzirá a obra. Para significá-lo com força, talvez fosse necessário forjar um ideograma, que, num único signo, diria: letra-palavra/imagem-reflexo.

Palavra/imagem: dois espelhos face a face, irmãos siameses nascidos de um mesmo ovo. O ovo de chumbo de Gutenberg.

A partir da sua invenção, duas bíblias se fundiram numa só: a impressa (a Bíblia para ser lida) e a para ser vista, a imensa iconografia cristã, considerada como a “Bíblia dos analfabetos”.

 

***

Nos tempos antigos, quando uma morte atingia uma casa, parava-se o pêndulo dos relógios, os ponteiros dos relógios de pulso. Depois, nesse tempo suspenso, como numa tela pintada, cobriam-se os espelhos com um pano opaco. Os espelhos não deviam refletir a imagem do morto para que esta não viesse substituir a do vivo.

Os antigos eram prudentes: esse reflexo do espelho é o olhar impossível de manter; é o olhar da morte que encara o vivo se nenhum véu o impedir. Aí está o perigo, a ameaça. Num set de filmagem, num cenário onde existem diversos espelhos, para determinar a posição exata da câmera, há uma regra que se expressa numa frase infantil: “Você não me vê, mas eu te vejo”. Em outras palavras, se o espelho vê a câmera, a câmera se verá no espelho, e com ela todos os técnicos que a rodeiam. Então é imprescindível encontrar um lugar num ângulo tal que a câmera escape a esse reflexo mortal para o filme.

O costume de cobrir os espelhos na casa de um morto desapareceu, mas a ideia de um poder mágico do reflexo persiste sob outras formas. Nem que fosse apenas pelas imagens que penduramos nas paredes de nossas casas, nos livros que mantemos à vista. Esses objetos nos parecem opacos, inofensivos como espelhos encobertos. Grave erro: para nossa felicidade ou infelicidade, as telas, os escritos (estes espelhos sem reflexo) têm efeitos. O espelho apresenta uma imagem invertida àquele que se olha nele, assim como a palavra, feita de letras de chumbo, se escreve invertida na caixa onde é composta. Talvez seja por isso que o reflexo – seja ele figura ou escrita, arte em todo caso – sempre desafia a morte; sempre desafia esse inverso da vida que, livro após livro, filme após filme, tela após tela, nós procuramos distinguir na escuridão que nos envolve. Qualquer que seja o assunto – sem que seja necessário colocar em cena ossos ou um crânio –, uma Bíblia, um texto, uma tela, um filme, uma fotografia é uma vaidade cuja finalidade é relembrar a cada um que é mortal. Lembrança sem indulgência, essas imagens livrescas ou picturais só existem enquanto reflexos de nós mesmos. Mas somos muito facilmente leitores, espectadores distraídos… Não sabemos ver, não sabemos ler por causa do véu que frequentemente é colocado sobre nossos olhos. As imagens, como numa definição de palavras cruzadas, ocultam, como uma tela: “dá a ver e impede de ver”. Lê-las, apesar de tudo, analisá-las, compreendê-las, nada é além de tentar ler a si mesmo, se analisar, se compreender para além do véu, apenas sob o olhar da morte.

Como então não se interrogar de novo e sempre sobre esse confronto, não para saber o que significa, mas, muito mais dolorosamente, para que ele serve; para que ele nos serve? Para que serve o véu que nos cega, o reflexo que nos deslumbra? Como responder às questões que nos são dirigidas pelas imagens, sejam elas pintadas, fotografadas, cinematografadas, sonoras ou nascidas do livro sempre lido e relido, palavra por palavra, letra por letra? Como mergulhar na tinta da palavra mais simples, a mais tênue, para descobrir a noite dentro dela, tão vasta que uma vida inteira nunca será suficiente para explorá-la?

Em As meninas de Diego Velasquez, o reflexo do rei e da rainha no espelho do fundo não é importante. É uma armadilha, uma brincadeira do artista. O único reflexo que vale, é a tela onde o próprio Velasquez encara o espectador. Quando um pintor, um fotografo, um escritor realiza um retrato – ou até um autorretrato –, o que ele pinta, fotografa ou escreve, é o retrato do espectador ou do leitor. O retrato deste ou desta que, diante da obra, busca desesperadamente se reconhecer nos traços que lhe são estranhos; que busca se ver no espelho de um outro sem entender que ele olha, sem véu, a morte de frente.

O caráter enigmático das imagens – ainda uma vez, de todas as imagens, incluindo as palavras consideradas como imagens! – é intrínseco; seja Velasquez, a pintura abstrata, uma imagem de São Sulpício, uma plaquinha de escrita cuneiforme, hebraico, latim, ou o retrato de um pequeno branco norte-americano por Walker Evans, cada imagem levanta uma questão precisa. Ainda mais necessário entender que para além da armadilha da representação ou da narrativa, o que nós vemos, o que nós lemos, somos nós. Mais de uma vez, o pintor Francis Bacon expôs suas telas atrás de um vidro, para ter certeza de que os espectadores “se veriam”; e eles se viam! E o que eles viam era imediatamente da ordem do trágico. Era dessas “verdades amargas ocultas até hoje” das quais falava São Justino.

Eram eles, terrivelmente eles, em Bacon.

As imagens nos penetram pelo olho, pela orelha, por todos os poros da nossa pele. Sejam as paisagens que atravessamos, aqueles que somos de dia como de noite, pintura, cinema, fotografia, televisão, palavras escritas, palavras ouvidas nos irrigam de imagens e fazem bater nosso coração. É por isso que as letras de chumbo como os pequenos espelhos de Gutenberg nos assustam tanto quanto nos fascinam. Nosso corpo é um corpo de imagens que o sono exalta nos sonhos. E é a pele dos sonhos que nomeamos “obras de arte” para respeitá-las, quer dizer para ao mesmo tempo mantê-las à distância e admirá-las.

Gérard Mordillat é Escritor e cineasta. Última obra publicada: Rouge dans la brume [Vermelho na bruma], Calmann-Lévy, Paris, 2011.



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