O Estado abandonado. - Le Monde Diplomatique

JAPÃO

O Estado abandonado.

por Hana Jaber
1 de abril de 2011
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Desde os anos 50 os japoneses estão sujeitos a uma ordem política que prega as virtudes do trabalho e da disciplina. Mas a incapacidade das autoridades de tomar decisões p/ informar, ajudar e tranquilizar pode pôr em xeque o sistema de identicação entre soberania popular e autoridade política pacientemente construído.Hana Jaber

O Japão tradicional considerava uma incúria das classes dirigentes os fenômenos naturais como a seca, as epidemias, as erupções vulcânicas ou a chuva de estrelas cadentes, mas também a chegada de estrangeiros. Como a ordem social se baseava na natureza, que ela tentava imitar, toda e qualquer perturbação era vista como um aviso, um sinal de alerta de catástrofes mais graves, elas mesmas prenúncio da queda do regime no poder. Quando os dirigentes são maus, ocorrem as catástrofes naturais, explicava com fatalismo uma velha moradora de Tóquio, no The New York Times de 20 de março. Seu comentário ilustra uma visão ancestral da sabedoria em política.

Ao anunciar que o desastre simultâneo de 11 de março era o maior já sofrido pelo Japão desde a capitulação de 1945, o primeiro-ministro, Kan Naoto, fez questão de ressaltar: o traumatismo sofrido pelo Japão remete ao da Segunda Guerra Mundial. Isso apesar de a história recente do país ser marcada por inúmeros episódios funestos: o terremoto e os incêndios que destruíram Tóquio em 1923, matando 140 mil pessoas, ou ainda o cisma de Kobe, em 1995, que fez 6 mil vítimas e causou perdas materiais consideráveis, também estão gravados na memória. Aliás, os filósofos japoneses consideram a recorrência dos terremotos como sendo um dos fatores constitutivos da resiliência que caracteriza a identidade nacional japonesa.1

 

“VINGANÇA CELESTE”

Por ocasião de um pronunciamento público, o governador de Tóquio, Ishihara Shintaro, relacionou o terremoto e o maremoto a uma “vingança celeste” (tenbatsu). E os entendeu como um julgamento divino que veio punir “o individualismo crescente”, “omaterialismo”e “o culto do dinheiro”, dinheiro que será agora utilizado para “varrer” esse modo de vida desregrado e colocar o povo japonês novamente no bom caminho.2 Esse tipo de argumentação já havia sido desenvolvido quando do terremoto de 1923 e retomado por Hirohito em 1946, quando, ameaçado de ser julgado por crimes de guerra,3 o imperador classificou a guerra como “a consequência moral de um povo seduzido pelo materialismo epelo consumismo”.Do mesmo modo, a diatribe do governador Ishihara exonera oportunamente a classe política de suas responsabilidades, jogando a culpa na população. Aquilatadas em relação ao desastre, o número de vítimas, o destino de milhares de sobreviventes passando por um sofrimento moral difícil de imaginar, vagando entre os escombros à procura de entes queridos, ou de pequenos trechos de suas vidas perdidas, essas declarações se destacam de modo singular pela falta de sensibilidade e propósito.

 

A CRISTALIZAÇÃO de TODAS AS PREOCUPAÇÕES

Além do custo humano ainda não estabelecido, e do desafio maior de se responsabilizar por 400 mil pessoas desabrigadas, a usina nuclear em Fukushima I cristaliza todas as preocupações. As descargas de efluentes radioativos na atmosfera prenunciam o pior. Em seu discurso à nação, o presidente da empresa Tokyo Electric Power Company (Tepco), que opera o conjunto, se desfez em lágrimas diante das câmeras de televisão. Expressando ao mesmo tempo contrição e compaixão pelas vítimas, de modo surpreendente ele fez comentários que sugeriram que a empresa não sabia muito bem o que estava fazendo. Já em 2007, uma usina nuclear localizada a noroeste do arquipélago, e também administrada pela Tepco, sofreu danos após um terremoto de magnitude 6,8 graus na escala Richter (ver quadro).

Felizmente, as consequências do acidente foram mínimas, apesar de o dispositivo de segurança não ter sido projetado para lidar com um choque de tal força. Mais recentemente, foram feitas acusações contra os dirigentes da empresa, por eles terem assumido riscos desnecessários ao decidir atrasar um processo de resfriamento, a fim de preservar os reatores de uma eventual destruição.4

Que o grupo Tepco seja o único a ter o direito de fazer cortes de energia que afetam todo o país revela o não dito que tem presidido, até agora, as relações entre os interesses das empresas privadas e as instituições públicas: uma parceria confortável. Criticada há muito tempo por associações de consumidores, no caso nuclear ela assume uma dimensão particular. Pois nessa matéria, quer se trate de minimizar os perigos ou ignorar os recentes incidentes, tanto em uma quanto em outra vertente a empresa tem demonstrado reiteradamente uma negação quase criminosa. É verdade que a perda de confiança no Estado, na administração e nas empresas não é nova, mas esses acontecimentos podem acelerar um processo de insatisfação já bem avançado.

A decisão conjunta do governo e da Tepco, de implantar instalações nucleares no Norte, atendeu a um desejo de promover o crescimento de uma região que, por razões históricas que remontam ao século XIX, acusava um atraso do desenvolvimento econômico. A fixação das populações deve também conter a migração para regiões mais prósperas do Sul da ilha principal. Mas enquanto a economia regional está prejudicada, os efeitos devastadores do cataclismo ganham o país e se estendem à economia global, a opinião pública questiona a pertinência de se implantar uma rede de usinas nucleares ao longo de uma faixa litorânea, notoriamente propensa a maremotos – em particular a costa de Sanriku.

Apesar da falta de informações sobre as áreas afetadas, há evidências de que as pessoas estão preocupadas com a falta de resposta do governo. A lentidão na chegada de ajuda e equipamento ao local lembra as consequências do terremoto de Kobe. Na época, as autoridades precisaram de vários dias para reconhecer a gravidade do desastre e quase uma semana para lançar operações de salvamento; um episódio que prenunciava a lenta e inadequada reação de Washington à devastação causada pelo furacão Katrina, no sul dos Estados Unidos, dez anos depois.

Enquanto se impõe a urgência de socorro às populações deslocadas, o medo de contaminação radioativa assombra todos os japoneses. Mas o perigo nuclear ameaça minar o conjunto da classe política no poder há mais de 60 anos, mesmo que seja a primeira vez que o Partido Democrata Japonês presida o destino do país. Enquanto o Estado continuava a lembrar à população os riscos da energia nuclear, ele próprio contribuía para aumentar esse perigo. Desde os anos 1950 os japoneses estão sujeitos a uma ordem política que prega as virtudes do trabalho e da disciplina, defendendo o espírito de sacrifício, o conformismo, a estabilidade, a lealdade e a resignação. Paradoxalmente, isso acabou por produzir um corpo social perfeitamente indiferente à inércia de uma democracia bipartidária, na qual a maioria das mudanças não leva a mudanças políticas. O que não impede que o corpo social seja extremamente crítico em relação aos seus líderes – e que, às vezes, até se revolte.

A controvérsia que começa a emergir revela uma profunda angústia coletiva frente aos riscos de contaminação radioativa, embora o governo faça declarações tranquilizadoras, em particular em áreas fora do perímetro de segurança estabelecido ao redor da central de Fukushima I.5 Todos os que têm recursos estão deixando a região, seja por via aérea ou terrestre, de trem ou de ônibus, a exemplo do que fazem os cidadãos chineses, franceses ou britânicos. As imagens de longas filas nos postos de gasolina, de trens lotados, e de milhares de passageiros de partida nas estações e aeroportos, dizem mais sobre o país real que as lágrimas dos dirigentes da Tepco e mais que a excepcional aparição do imperador Akihito na televisão.

Pedindo aos súditos que mantenham a calma e confiem na solidariedade nacional, o imperador recordou a fala de seu pai, o imperador Hirohito, transmitida por rádio em 1945, anunciando o fim da guerra e pedindo à nação que “suportasse o insuportável”. Ao contrário de seu antecessor, no entanto, o atual imperador não tem a pretensão de ter uma essência divina: ele encarna a nação. Essa aparição na televisão com o objetivo de incitar a calma, a paciência e a esperança faz eco às instruções de paciência e dedicação dadas pelo governo.

 

O IMPERADOR NA SOCIEDADE JAPONESA

O recurso à sua figura tutelar ressalta o lugar ainda hoje ocupado pelo imperador na sociedade japonesa. Ao mesmo tempo que reforça a ideia de retaliação divina invocada por Ishihara, ela legitima a intenção de jogar a responsabilidade da catástrofe sobre os ombros do povo japonês, em vez de sobre seus dirigentes.

E, apesar de a maioria dos japoneses considerar a instituição obsoleta, ainda assim eles são extremamente ligados à pessoa do imperador e à perpetuação da dinastia. É essa contradição que permite que o governo do século XXI instrumentalize seu discurso, de modo a evitar eventuais perturbações da ordem pública. O imperador continua em posição de pedir à população que aceite o regime político vigente, em total contradição com o espírito e com o texto da Constituição, que estipula que o povo é soberano. Trata-se de transferir o sentimento de lealdade presente nos indivíduos, relativamente a sua comunidade étnica e social, a uma entidade política. A identificação de um grupo com as formas políticas de governança é reforçada pelo princípio patriarcal, com o imperador no papel de pai da nação.

Dessa forma, o poder manifesta seu desejo de controlar a cólera, de canalizar as frustrações e proteger o sistema contra uma reprovação arrasadora, ao mesmo tempo que se livra do fardo da responsabilidade. Todavia, a evidente incapacidade das autoridades de tomar decisões, de modo a informar, ajudar e tranquilizar a população, pode colocar em xeque o sistema de identificação entre soberania popular e autoridade política pacientemente construído em meio século.

Uma longa série de erros e também a inércia frente às crises e às implicações decisivas do mundo contemporâneo são um mau prenúncio da reconstrução vindoura. A se levar em conta o desmonte do aparelho estatal, poderão os dirigentes japoneses obter um sucesso digno dos conseguidos no passado – a reconstrução de Tóquio nos anos 1920 e a criação de uma nova nação após a Segunda Guerra Mundial?

 

Acionistas e energia nuclear.

Será que a empresa Tokyo Electric Power (Tepco),1 que administra a central nuclear de Fukushima I, fez realmente tudo o que podia para inspirar confiança aos japoneses? Em setembro de 2002, a população do arquipélago descobriu que desde o final dos anos 1980 a empresa tinha falsificado 29 relatórios enviados à agência de segurança nuclear. E ficou também sabendo que as autoridades japonesas tinham essa informação desde 2000, mas não julgaram necessário intervir antes.

“Os documentos não mencionavam os problemas encontrados em oito reatores nucleares distintos”, relata o semanário The Economist.2 Dentre tais problemas, “fissuras na caixa de aço que envelopa o centro dos reatores, garantindo sua segurança”.A revelação provocou a demissão de Nobuya Minami, presidente da companhia, e de Hiroshi Araki, presidente do conselho de administração. Sem falar da demissão do presidente do comitê de ética da maior organização patronal japonesa, a Japan Business Federation.

Em julho de 2007, um terremoto obrigou a Tepco a fechar a central nuclear de Kashiwazaki-Kariwa, que tinha sido afetada. Os ganhos da empresa diminuíram 75%, e os dividendos que cabem aos acionistas, 7%, apesar de ainda assim estes serem superiores ao nível atingido entre março de 2003 e março de 2007.

Três anos depois, Masataka Shimizu (novo presidente da empresa) garantiu “ter aprendido [com o terremoto de 2007] e fazer todo o possível para que as nossas centrais, não só as nucleares, sejam realmente resistentes”.3 Mas ainda assim as práticas da empresa não romperam totalmente com o passado. A Tepco acaba de admitir que, entre 2001 e 2011, não considerou ser preciso fazer os controles obrigatórios de segurança das instalações. Controles que só foram retomados no final de fevereiro de 2011. O acúmulo de barras de urânio usadas nas piscinas de estocagem – em quantidade três vezes superior aos limites autorizados – também não parece ter preocupado a empresa.4 Até o dia do terremoto.

A operação tinha a vantagem de se integrar à estratégia de estímulo de lucros por meio da redução de “esforços constantes”, inclusive na esfera das inspeções.5

Teria essa lógica motivado a decisão do grupo, de aumentar em dez anos a vida útil de um dos seis reatores do local, com o assentimento das autoridades japonesas? Explicaria ela as hesitações do grupo em molhar os reatores de Fukushima com água do mar, uma medida que condenaria as instalações, apesar de resfriá-las? Os japoneses questionam. (H.H.)

Hana Jaber é Pesquisadora associada da Catédra de História Contemporânea do Mundo Árabe, Collége de France, Paris.



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