O eterno retorno do trabalho do domingo - Le Monde Diplomatique

FRANÇA

O eterno retorno do trabalho do domingo

por Gilles Balbastre
Janeiro 23, 2014
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Em duas décadas, os argumentos que justificam a abertura dominical das lojas não evoluíram em nada, e o debate tomou a forma de uma serpente marinha aparecendo em intervalos regulares nas telas do jornal televisivoGilles Balbastre

Há vinte anos, no programa “L’heure de vérité” [“A hora da verdade”] (rádio Antenne 2, 22 de dezembro de 1991), um especialista mais chegado aos cenáculos patronais do que às lutas sociais manifestava seu apoio à abertura dominical da loja Virgin Megastore dos Champs-Elysées, em Paris, apesar de uma considerável sanção financeira. “Eu, quando sair daqui, vou comprar um disco na Virgin Megastore, para contribuir com o financiamento da multa”, se entusiasmava Alain Minc. “É evidente que não abrir no domingo é ser arcaico.”

No dia 1º de outubro de 2013, Minc ocupou dessa vez o palco de i-Télé quando o jornalista perguntou: “Na Alemanha se trabalha aos domingos? Porque este é o grande debate do momento na França…” Como os alemães descansam neste dia, o especialista – longe de se desconcertar – explicou rapidamente: “É preciso ter em mente que os alemães possuem mais meios para serem arcaicos do que nós.” A cadeia de lojas Virgin fechou em 2012. E no entanto, ela tinha obtido a autorização para que seus funcionários trabalhassem durante o sétimo dia da semana…

Em duas décadas, os argumentos que justificam a abertura dominical das lojas não evoluíram em nada, e o debate tomou a forma de uma serpente marinha aparecendo em intervalos regulares nas telas do jornal televisivo (JT). Como observa Karl Ghazi, secretário da federação do comércio parisiense da Confederação Geral do Trabalho (CGT), este período foi ritmado por uma “valsa de três tempos regularmente e metodicamente marcados pelo patronato da distribuição”. E pelas mídias.

No primeiro tempo da valsa, grandes nomes da distribuição violaram deliberadamente a legislação em vigor, abrindo as lojas aos domingos sem autorização: Le Printemps, Ikea e Virgin no final dos anos 1980, Vuitton, Usine Center e o centro comercial do Plan de Campagne (na região de Bouches-du-Rhône) no meio dos anos 2000, Castorama e Leroy Merlin em setembro de 2013.

Segundo tempo: abertura da frente judiciaria. Pouco importa se as marcas perdem sistematicamente as batalhas que iniciam: trata-se principalmente de impor o “debate” – e uma certa maneira de vê-lo – no espaço público e na imprensa. Esta, sentindo geralmente apenas um desejo moderado de proteger o código do trabalho, entra no jogo sem dificuldade. Ingênuo, o apresentador do horário matinal da rádio Europe 1, Thomas Sotto, observava assim durante seu programa de notícias de 30 de setembro de 2013: “Para as lojas de materiais de construção que decidiram enfrentar a lei e acolher seus clientes ontem, o golpe de marketing deu certo.”

Em matéria de comunicação, o setor da grande distribuição não está despreparado. Em 1991, a ofensiva patronal foi acompanhada por uma campanha elaborada pelo publicitário Jacques Séguéla: “Senhor ministro do comércio, se o senhor tem boas razões para proibir os comerciantes de abrir livremente aos domingos, então é porque o senhor com certeza tem boas razões para proibir os franceses de viver livremente seus domingos.” Sua associação Liberdade aos domingos, discretamente financiada pela Ikea e pela Virgin Megastore, se beneficiou então de uma grande cobertura midiática. “Quando é que este país vai acordar? Quando é que vamos avançar? Faz trinta anos que nos Estados Unidos todas as lojas abrem aos domingos!” se irritava Séguéla no JT das 13 horas na rádio Antenne 2 (1). Em 2013, uma outra agência de comunicação, Les Ateliers Corporate, deu continuidade aos objetivos dos empreendedores do material de construção. Descobriu-se que os funcionários de Castorama e Leroy Merlin reunidos no coletivo dos “Construtores do domingo”, tão dispostos a apoiar sua direção, tinham recebido alguns cursos de treinamento financiados por seus empregadores.

Dessa forma, reaparece regularmente a figura prototípica do funcionário voluntário, “refém” do código do trabalho. De preferência uma jovem mulher para quem estudar seria impossível sem este trabalho extra. Em 1989: “Foi o que me permitiu continuar meus estudos, e além do mais, eu tenho dois filhos e assim eu posso cuidar deles tranquilamente durante a semana (2).” Em 2007: “Eu comecei a trabalhar quando era estudante. Tinha aula a semana toda, e poder trabalhar no final de semana era realmente uma liberdade (3).” Em 2013: “O objetivo é pagar um apartamento perto da minha escola. Então eu trabalho aos sábados e domingos aqui. É verdade que somos muito bem pagos. Nos pagam o dobro (4).”

É mais raro que se popularizem as conclusões de estudos como o de Magali Beffy, Denis Fougère e Arnaud Maurel sobre o impacto escolar do trabalho assalariado. No entanto, descobrimos nele que “a ocupação de um emprego regular reduz significativamente a probabilidade de sucesso no final do ano universitário. Se eles não trabalhassem, os estudantes assalariados teriam 43 pontos a mais de probabilidade [porcentagem] de passar de ano (5)”. Verifica-se, justamente, que os estudantes de cursos preparatórios [equivalente do cursinho para testes de admissão em faculdades concorridas, como a Escola de Medicina por exemplo – n.t.] ou das grandes escolas raramente trabalham aos finais de semana…

Inteira disponibilidade para ser entrevistado, elocução calibrada: os funcionários modelos prontos a sacrificar seus finais de semana agradam claramente mais às vedetes das mídias – editorialistas, apresentadores, especialistas televisivos que apoiam amplamente à desregulamentação do código do trabalho pregada pelo patronato – do que os outros, coagidos por seus superiores a ficar no supermercado aos domingos. “Muitas funcionárias do caixa de origem estrangeira, por exemplo, que dominam mal a língua francesa, têm medo de represálias se falarem sobre suas condições de trabalho. Elas não são interessantes para os jornalistas”, nota Ghazi.

Fernando Malverde, repórter do canal France 3 Ile-de-France, acrescenta: “O jornalista padrão do JT, hoje, trabalha num ambiente cada vez mais coercitivo. A pauta não é escolhida por ele, mas cada vez mais pelas agências de comunicação. Ele é obrigado a trabalhar numa velocidade de execução e num formato cada vez mais curtos. Os funcionários de Castorama e Leroy Merlin respondem perfeitamente às novas exigências do trabalho.” Ele mesmo sofreu as consequências disso, alguns dias depois do golpe dos gigantes do material de construção e mobiliário: “Os supermercados Monoprix aproveitaram esta ocasião para anunciar, na terça-feira de 1º de outubro às 20 horas, que eram obrigados a fechar as lojas às 21 horas por causa de um recurso da CGT. No dia seguinte pela manhã, eu tive que fazer uma reportagem sobre este assunto para o jornal do meio-dia. Tive meia hora para filmar.”

O quadro de uma França improvável, cheia de funcionários felizes, aparece então como que por magia dos pinceis das mídias, apesar de algumas manchas anti-sindicais que procuram estragar a bela paisagem.

Dia 30 de setembro de 2013. Wendy Bouchard, apresentadora do programa “Europe 1 midi” [Europe 1 meio-dia], recebeu Ghazi, cujo sindicato obteve mais de 52% de vozes no caso do Monoprix. Logo no início, ela o submeteu à leitura de uma salva de tweets. Mickael: “Desde quando o objetivo dos sindicatos é impedir as pessoas de trabalhar?”, Frédéric: “Graças à CGT o trabalho será em breve abolido na França!”. No dia seguinte, a estação de Arnaud Lagardère estampou no seu site na internet a “pesquisa do dia”: “Você acha normal que uma loja seja obrigada por um sindicato a não abrir mais depois das 21 horas?”

A história de Habib Hamdoud não foi manchete nem do site da Europe 1, nem do jornal diário Les Echos (propriedade do homem mais rico da França, Bernard Arnault, assim como a rede Sephora, que anunciou sua intenção de abrir sua loja dos Champs-Elysées durante a noite). Empregado depois de mais de cinquenta contratos de duração determinada (CDD – contrato temporário, n.t.) em diferentes lojas do grupo, Hamdoud trabalhou em um supermercado Auchan City, de Tourcoing, no Norte. Este supermercado criado há três anos acabou com as preocupações de seus oitenta e três funcionários sobre como ocupar da melhor forma suas noites e seus domingos. Nele, trabalha-se regularmente até as 21 horas durante a semana e das 9 horas às 13 horas no “dia do Senhor”. Sem nenhum aumento: “Temos uma direção que cobra muito, mas dá pouco”, precisa Hamdoud, cujos colegas chegam a trabalhar até dez dias seguidos.

Um dia, Hamdoud se cansou. Com a ajuda da União local CGT de Tourcoing, ele montou uma seção sindical, resistiu aos seus superiores e obteve as eleições que a direção recusava. Em junho de 2013, 72% dos seus colegas votaram em favor da CGT. Uma outra França, diferente da que se retrata nos tweets da Europe 1…

Enfim, o terceiro tempo da valsa, o mais importante. Trata-se de obter um apoio político suficiente para desmanchar a lei e os textos de proteção dos assalariados. Em 1993, a mobilização parlamentar gerou a lei Giraud-Balladur. Em 2009, a lei Mallié-Sarkozy (6). E em 2013?

Para Ghazi, a questão é importante: “Atualmente, o contrato coletivo ainda se impõe frente ao contrato individual. O voluntariado é um conceito muito perigoso. Ele tem por objetivo explodir o contrato coletivo e normalizar a concorrência entre funcionários.” Mas os vinte últimos anos nos sugerem que, neste assunto, a batalha travada pelo patronato da distribuição nem sempre foi coroada de sucessos. Pois os funcionários resistem: parece que eles preferem ser reféns do código do trabalho do que de seu patrão… Uma surpresa? Segundo o economista Frédéric Lordon, não: “Queremos converter um corpo social em uma nova espécie de vida coletiva, uma nova espécie de vida econômica e social. E este corpo social, fundamentalmente, não quer isso, por bons motivos. É que ele tem tudo a perder. Então, pela resistência incialmente antecipada, depois constatada, foi necessário empregar um esforço de convencimento ou persuasão na mesma proporção (7).”

Nessas condições, o trabalho de “pedagogia” de Minc parece estar longe de terminar…

Gilles Balbastre é jornalista e codiretor, com Yannick Kergoat, do documentário Les Nouveaux Chiens de Garde [Os Novos Cães de Guarda], (Jem produções, 2012).



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