“O evangélico é o novo nordestino?”
O denominador comum dos dois preconceitos não é a região nem a religião: é a recusa das elites letradas, à direita e à esquerda, de reconhecer a agência política dos pobres. Quando o pobre vota na esquerda, foi comprado pelo programa social; quando vota na direita, foi manipulado pelo pastor. Em nenhum dos casos ele decidiu
Há uma frase que reaparece nas redes a cada apuração presidencial desde 2006: o nordestino “não sabe votar”. Em 2026, a acusação parece ter trocado de endereço. Agora é o evangélico quem, aos olhos de parte da opinião pública progressista, vota contra os próprios interesses, deixa-se conduzir pelo pastor e entrega à direita o dobro dos votos que concede à esquerda. A pergunta que intitula este artigo é deliberadamente provocativa: teria o evangélico se tornado o novo nordestino da política brasileira?
A tese aqui sustentada é a de que a analogia procede no plano do mecanismo simbólico e falha no plano da estrutura social. Nos dois casos, um segmento social cujo “comportamento eleitoral” contraria as preferências de uma elite letrada no qual se converte em problema cognitivo ou moral, quando deveria ser tratado como objeto de explicação sociológica. A desqualificação do eleitor substitui a pergunta sobre as razões do voto. Contudo, o nordestino é estigmatizado por uma origem regional atravessada por séculos de subalternização econômica e racial, ao passo que o evangélico é estigmatizado por uma adesão religiosa que, no Brasil contemporâneo, também se tornou instrumento de poder institucional, com bancada parlamentar, redes de mídia e projeto político próprio. Reconhecer o preconceito não equivale, portanto, a dissolver a crítica; equivale a deslocá-la do fiel para as estruturas que organizam sua representação.
O argumento se desenvolve em cinco movimentos: a genealogia do estigma do “nordestino que não sabe votar”; os números do voto religioso em 2026; a trajetória histórica que levou o eleitorado evangélico à direita, lida à luz da “guerra dos deuses”, de Michael Löwy; o diagnóstico do preconceito intelectual formulado por Juliano Spyer; e, por fim, os limites da comparação.

O nordestino que “não sabe votar”: genealogia de um preconceito eleitoral
O estigma tem data de nascimento pública. Na noite de 31 de outubro de 2010, logo após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff sobre José Serra, uma estudante de Direito paulista publicou no Twitter uma mensagem que atribuía o resultado aos nordestinos e incitava o afogamento deles. O caso se tornou emblemático porque foi judicializado: a OAB de Pernambuco representou criminalmente contra a autora, e a 9ª Vara Federal Criminal de São Paulo a condenou, em 2012, a um ano, cinco meses e quinze dias de reclusão, pena convertida em serviços comunitários e multa (Jornal da Paraíba, 2012; CartaCapital, 2012). Em 2014, a cena se repetiu em escala maior, a ponto de surgirem perfis dedicados a catalogar as manifestações de ódio antinordestino nas redes, entre elas a sugestão de que a eleição deveria ocorrer apenas no Sul e no Sudeste (Global Voices, 2014).
A virulência daquelas mensagens, contudo, é apenas a face caricata de um raciocínio mais difundido e mais respeitável. Sua versão de salão sustenta que o eleitor nordestino vota no Partido dos Trabalhadores porque depende do Bolsa Família, porque é pouco escolarizado ou porque troca o voto por benefício imediato. O voto do pobre é lido como voto comprado, e a racionalidade do eleitor é substituída pela hipótese da manipulação. Trata-se de um juízo que dispensa a pergunta sociológica elementar: por que esse grupo vota dessa maneira, com essa coesão, ao longo de duas décadas?
A resposta mais robusta foi dada por André Singer em Os sentidos do lulismo (2012). Singer identifica, em 2006, um realinhamento eleitoral: o subproletariado, sobretudo nordestino, deslocou-se para Lula em função de uma combinação de redução da pobreza, valorização do salário mínimo e expansão do crédito, sem ruptura com a ordem. O voto nordestino seria, portanto, um voto de interesse material racional, ancorado na experiência concreta de melhoria das condições de vida. Durval Muniz de Albuquerque Júnior, em A invenção do Nordeste e outras artes, havia mostrado antes que a própria ideia de “Nordeste” é uma construção discursiva forjada no início do século XX em torno da seca, do atraso e da miséria. O preconceito eleitoral pós-2006 apenas atualiza esse repertório: o nordestino que “não sabe votar” é o herdeiro do retirante que não sabe viver.
O padrão se manteve em 2026. Na reta final, a pesquisa BTG/Nexus registrava Lula com 61% das intenções de voto no Nordeste, contra 32% de Flávio Bolsonaro, a maior vantagem regional do petista (DGABC, 2026). Na apuração parcial do primeiro turno, Lula superava 62% dos votos válidos na Bahia, em Pernambuco e no Ceará (Diário do Pará, 2026). O ponto relevante para este artigo é que a acusação de que alguém “não sabe votar” não recai sobre o eleitorado que vota de forma direcionada no campo vencedor entre as elites letradas. Ela recai sempre sobre o grupo cuja coesão contraria esse setor. É exatamente aqui que o evangélico entra na comparação.
Os números de 2026: o voto evangélico em perspectiva
O dado central da eleição é inequívoco: os evangélicos foram o único segmento religioso em que Flávio Bolsonaro liderou, e com mais do dobro das intenções de voto de Lula. O agregador do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp, que reúne levantamentos de cerca de uma dezena de institutos, entre eles Datafolha, Quaest, AtlasIntel e BTG/Nexus, indicava média nacional de 46% para Lula e 48% para Flávio no total, ou 49% contra 51% em votos válidos; Lula, porém, liderava entre católicos, sem religião e adeptos de outras religiosidades, conforme sistematizado pelo demógrafo José Eustáquio Diniz Alves (ALVES, 2026b).

Os institutos convergem. Na última semana de campanha, a Quaest registrava 60% para Flávio e 28% para Lula entre evangélicos (PRADO, 2026). O Datafolha de 15 de outubro apontava 62% contra 29% no segmento; na rodada anterior, a distância chegara a 69% contra 25% (Tribuna do Sertão, 2026; Jornal de Brasília, 2026). A proporção de dois para um à direita repete o padrão de 2018 e 2022, quando o candidato era Jair Bolsonaro, o que indica que a lealdade se deslocou do líder para outro setor político. É justamente essa coesão, medida em dois dígitos e sustentada por três eleições, que alimenta a leitura do evangélico como eleitor previsível e, por extensão, como eleitor que “não sabe votar”. Os números escondem, contudo, fissuras relevantes de gênero e de conjuntura, examinadas adiante.
Alves (2026b) leva o exercício adiante. Aplicando o perfil médio das amostras (cerca de 50% de católicos, 30% de evangélicos, 12% de sem religião e 8% de outras religiões) aos 124,1 milhões de votos válidos do segundo turno, o agregador projetava vitória de Flávio por 63,4 milhões contra 60,7 milhões. A vantagem estimada do senador entre evangélicos, de aproximadamente 13 milhões de votos, compensaria com folga as vantagens de Lula entre católicos (5,9 milhões), sem religião (3,3 milhões) e outras religiões (1,5 milhão). As urnas inverteram o placar: 64,3 milhões para Lula e 59,8 milhões para Flávio. A hipótese de Alves para a discrepância é o aumento do comparecimento entre os turnos, de 125,3 para 128,2 milhões de eleitores, com a abstenção recuando de 21,08% para 19,22%, puxado pela mobilização de jovens, idosos e nordestinos, segmentos com maior proporção de católicos e de pessoas sem religião. Se a hipótese se confirmar, a ironia é completa: a eleição foi decidida pelo eleitor que “não sabe votar” contra o eleitor que, na versão atualizada do preconceito, tampouco saberia.
A geografia confirma que os dois estigmas são, em larga medida, imagens especulares. Segundo a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do ISER, em parceria com a Quaest, o país tinha em 2026, 50% de católicos, 29% de evangélicos, 14% de pessoas sem religião e 7% de adeptos de outras tradições religiosas. Cruzando a razão entre evangélicos e católicos de cada unidade da federação com a razão entre os votos de Flávio e de Lula no primeiro turno, Alves (2026a) encontrou associação positiva, com coeficiente de determinação de 27,6%. Roraima, com 175 evangélicos para cada 100 católicos, deu a Flávio 3,1 votos para cada voto em Lula; o Piauí, com cerca de um evangélico para cada quatro católicos, deu ao petista sua maior vitória. O Nordeste acusado de votar na esquerda é a região mais católica do país; a religião acusada de votar na direita é mais fraca justamente ali. O próprio autor adverte, contudo, que a religião não esgota a explicação: os estados do Sul, de alta proporção católica, também deram vitória a Flávio.
Da guerra dos deuses ao antipetismo pentecostal
Michael Löwy, em A guerra dos deuses: religião e política na América Latina (2000), recusa a leitura que reduz a religião a ópio do povo. Para ele, o universo religioso latino-americano é um terreno de disputa, no qual a mesma tradição cristã pôde produzir tanto a legitimação da ordem quanto o que denominou “cristianismo da libertação”, movimento social que ultrapassa a teologia propriamente dita e se enraizou nas comunidades eclesiais de base. A guerra dos deuses é, portanto, uma guerra pela direção política do sagrado. A contribuição decisiva dessa chave analítica para o presente argumento é dupla: ela impede que se trate a adesão religiosa como variável inerte e mostra que a orientação política de um campo religioso é historicamente construída, e por isso reversível.
O Brasil das últimas quatro décadas pode ser lido como o capítulo pentecostal dessa guerra. Enquanto o catolicismo progressista perdia terreno institucional, o pentecostalismo crescia exatamente nas periferias que as comunidades de base haviam disputado. A entrada organizada na política data da Constituinte de 1986, quando o lema “irmão vota em irmão” inaugurou a representação corporativa das denominações, processo documentado por Paul Freston (1993). Por mais de uma década, essa representação foi pragmática e transitou entre governos de orientações diversas. O lulismo não foi exceção: a aliança com o Partido Liberal, em 2002, e a incorporação de lideranças evangélicas à base governista demonstram que o casamento entre evangélicos e direita não era destino. Fabio Py (2020) observa, inclusive, que a Frente Parlamentar Evangélica ganhou musculatura justamente durante as alianças promovidas pelo lulismo, beneficiando-se da ascensão demográfica do segmento.
A ruptura se processou entre 2010 e 2018, em camadas sucessivas: a controvérsia sobre o aborto na campanha de Dilma Rousseff em 2010, as disputas em torno da agenda de direitos LGBT, a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara por um pastor em 2013, o impeachment de 2016 e, por fim, a candidatura de Jair Bolsonaro. Ronaldo de Almeida (2019) descreveu esse percurso como a convergência entre conservadorismo moral, evangelismo e crise política. Juliano Spyer, em trabalho de campo na Bahia, acompanhou evangélicos que em 2013 eram petistas ou simpatizantes de Marina Silva e que, mesmo beneficiados por políticas federais, tornaram-se bolsonaristas com o tempo.
O literato Victor Araújo deu a esse fenômeno o nome de “antipetismo pentecostal” e o mediu. Em A religião distrai os pobres? (2022), demonstra que a probabilidade de um pentecostal votar em partidos de esquerda é substancialmente menor que a de católicos e protestantes históricos, mesmo quando controladas renda e escolaridade, e que, nos municípios onde a proporção de pentecostais cresce, a votação da esquerda recua (Centro de Estudos da Metrópole/USP). O achado é crucial para a comparação com o Nordeste: o voto evangélico à direita não é um voto contra o próprio interesse por ignorância, mas um voto em que a clivagem moral passou a pesar mais que a clivagem distributiva. Py (2020) leva o diagnóstico adiante ao recuperar, da teóloga Dorothee Sölle, a categoria de “cristofascismo” para nomear a teologia política de governo que se consolidou no bolsonarismo. Convém sublinhar, porém, que o conceito de Py se dirige às corporações eclesiásticas, à Frente Parlamentar Evangélica e às lideranças que instrumentalizam a fé, e não ao fiel comum. Essa distinção entre a estrutura de poder e o crente será decisiva adiante.
Charlatão ou coitadinho: o preconceito da esquerda intelectual
Às vésperas do segundo turno, o antropólogo Juliano Spyer formulou o diagnóstico com precisão incômoda: para parte da esquerda intelectual brasileira, o evangélico é ou charlatão ou coitadinho, alguém mal-intencionado ou alguém que estudou pouco (PRADO, 2026). A fórmula reproduz, quase termo a termo, a estrutura do preconceito antinordestino. O “coitadinho” é o eleitor manipulado, incapaz de discernir o próprio interesse, cuja escolha se explica pela ação de terceiros: o coronel ontem, o pastor hoje. O “charlatão” é a liderança que lucra com essa suposta incapacidade. Em ambos os casos, a agência política do sujeito desaparece.
Spyer identifica sinais dessa incompatibilidade na própria campanha de 2026. Menciona o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula, no início do ano, cuja ala intitulada “Família em Conserva” teria ampliado a percepção de antagonismo entre identidade religiosa e posição política. Avalia que as cartas aos evangélicos divulgadas a cada ciclo eleitoral soam oportunistas e relata a imagem que ouviu de um pastor, para quem a estratégia equivale a tratar um tumor com aspirina. Contrapõe a isso a presença semanal de Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas em cultos, citando versículos de memória, enquanto o Partido dos Trabalhadores se lembraria do segmento apenas de quatro em quatro anos. O erro de linguagem, como dizer “rezar” em vez de “orar”, é sintoma de uma distância que não é apenas retórica, mas epistemológica: a aspiração de uma mãe evangélica de que a filha alcance o céu, antes de uma roupa melhor, não cabe nas categorias com que a esquerda costuma ler o interesse popular.
Fabio Py chegou a conclusão convergente por outro caminho, ao interpretar a adesão evangélica ao bolsonarismo como uma espécie de pagamento pela falta de diálogo: a esquerda e os grupos de reflexão crítica teriam, quase sempre, desprezado a religião e, sobretudo, os setores evangélicos (Diário do Centro do Mundo). Aqui reside a ironia histórica que a leitura de Löwy torna visível. A tradição intelectual que produziu a teologia da libertação, isto é, que soube ler o potencial emancipatório do sagrado entre os pobres, tornou-se incapaz de reconhecer esse mesmo potencial quando ele se apresenta sob forma pentecostal.
Nada disso autoriza converter o diagnóstico em absolvição. O próprio Spyer reconhece a ambivalência: as igrejas oferecem proteção em momentos de crise, combatem o alcoolismo, estimulam a leitura e a alfabetização de adultos, mas também aconselham mulheres a permanecer em casamentos abusivos e ensinam a adolescentes que a homossexualidade conduz à condenação. A saída que propõe não é a renúncia programática, mas a tradução: falar de temas complexos também no idioma bíblico, como fazem, segundo ele, a pastora Helena Raquel ao orientar mulheres vítimas de violência a procurar a delegacia, o deputado Pastor Henrique Vieira e a deputada Tabata Amaral. A pesquisa Quaest citada na entrevista reforça que essa ponte é possível: oito em cada dez brasileiros rejeitam a política dentro da igreja, e o fiel frequentemente ouve a indicação do pastor e vota em outro candidato no segredo da urna.
Os limites da analogia
Se o mecanismo de desqualificação é o mesmo, as posições estruturais não o são, e a honestidade analítica exige marcar ao menos três assimetrias.
A primeira é de natureza do vínculo. Ninguém escolhe nascer no Nordeste; a pertença regional é atribuída, carrega marcas raciais e de classe acumuladas desde a colonização e não dispõe de aparato institucional próprio que fale em seu nome. A pertença religiosa, ao contrário, é adesão, e o campo evangélico brasileiro possui bancada parlamentar, redes de rádio e televisão, partidos com os quais mantém relações orgânicas e lideranças que negociam diretamente com o Estado. Criticar a Frente Parlamentar Evangélica ou o uso eleitoral do púlpito não é preconceito; é escrutínio democrático de um ator de poder. O preconceito começa quando a crítica à estrutura é transferida ao fiel, quando a diarista da Assembleia de Deus passa a responder pelos atos do pastor televisivo. A categoria de cristofascismo, em Py, é útil exatamente porque mira a estrutura e não o crente.
A segunda assimetria é de homogeneidade. O voto nordestino em Lula tem se mostrado estável há duas décadas. O voto evangélico, embora majoritário à direita, é atravessado por fissuras de gênero e conjuntura. As mulheres são 55% dos evangélicos e, entre as evangélicas, Flávio registrava 46% das intenções de voto contra 26% de Lula, segundo o Datafolha, embora as eleitoras em geral se mostrassem menos influenciadas que os homens por cônjuges, filhos e lideranças religiosas e o senador concentrasse entre elas sua maior rejeição (SALDAÑA; BILÓ, 2026). A mesma reportagem registra, com base em pesquisa anual do ISER, que valores identificados como cristãos, sobretudo a oposição ao aborto, orientam o voto dessas mulheres, mas também que, em 2025, 63% das evangélicas passaram a considerar possível ser cristã e feminista. Lívia Reis, coordenadora do ISER, descreve um alinhamento moral com o discurso bolsonarista e uma modulação recente à direita, ancorada numa ideia de proteção da família que devolve à esfera privada o cuidado, ao mesmo tempo em que adverte que a religião só pode ser lida em conjunto com renda, raça e escolaridade. A historiadora Heloisa Starling, ouvida na mesma série, inscreve o projeto Alicerça Brasil, de Michelle Bolsonaro, que converte células domésticas de oração em células políticas, numa linhagem de mobilização feminina conservadora que remonta às “blusas verdes” do integralismo e à mobilização civil-religiosa de 1964.
A conjuntura também pesou. Em setembro, após a divulgação do áudio de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, as intenções de voto do senador entre evangélicos chegaram a recuar de 61% para 52% em um mês, segundo levantamento noticiado à época (Vermelho, 2026). Spyer atribui a recomposição posterior à reação contra os ataques ao ministro André Mendonça, nas proximidades do 7 de Setembro, quando a disputa voltou a ser enquadrada como guerra do bem contra o mal. O voto evangélico é, portanto, disputável, e a recomposição só foi possível porque alguém o disputou.
A página da própria reportagem da Folha oferece uma ilustração involuntária do argumento deste artigo. Na seção de comentários, leitores descreveram as evangélicas como mulheres enganadas pelos maridos, alheias à política e reduzidas à condição de capachos, e um deles invocou Nossa Senhora Aparecida para agradecer que a maioria do país ainda fosse católica. É o “coitadinho” de Spyer em estado puro: a eleitora que decide desaparece, e em seu lugar surge a esposa tutelada. A estrutura retórica é idêntica à do ataque antinordestino de 2010, apenas com o sinal ideológico invertido.
A terceira assimetria inverte a comparação e revela o seu núcleo. Os evangélicos brasileiros são, em sua maioria, pobres, mulheres, negros e moradores de periferia, perfil sociológico que coincide em larga medida com o da base lulista. O que se tem, então, não é um grupo social oposto ao nordestino, mas frações das mesmas classes populares que votam em direções distintas. Visto desse ângulo, o denominador comum dos dois preconceitos não é a região nem a religião: é a recusa das elites letradas, à direita e à esquerda, de reconhecer a agência política dos pobres. Quando o pobre vota na esquerda, foi comprado pelo programa social; quando vota na direita, foi manipulado pelo pastor. Em nenhum dos casos ele decidiu.
Conclusão
“O evangélico é o novo nordestino?”
Sim, no sentido preciso de que ocupa hoje, no imaginário de parte da opinião pública progressista, o lugar que o nordestino ocupa no imaginário da direita: o do eleitor coeso que “vota errado” e cuja escolha se explica pela manipulação, nunca pela razão.
Não, no sentido de que a analogia não pode apagar a diferença entre uma identidade regional subalternizada, sem aparato próprio, e um campo religioso que dispõe de estruturas de poder legítimas de criticar.
O resultado de 25 de outubro confirma que o desprezo é também mau cálculo. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, revertendo a desvantagem do primeiro turno (Migalhas, 2026). Venceu, como em 2022, com católicos, sem religião e adeptos de outras religiosidades, perdendo por ampla margem entre evangélicos e, segundo a hipótese de Alves (2026b), impulsionado pela maior mobilização de nordestinos, jovens e idosos no segundo turno. No dia seguinte, a Folha noticiava que lideranças evangélicas que haviam apoiado Flávio adotavam tom resignado, com um bispo admitindo que Lula soube jogar. Uma vitória construída à revelia de mais de um quarto do eleitorado é uma vitória que deixa a guerra dos deuses em aberto. Se Löwy tem razão em que a direção política do sagrado é disputada e não dada, a pergunta que resta à esquerda não é por que os evangélicos votam na direita, mas por que deixou de disputá-los. Tratar o fiel como coitadinho é a maneira mais segura de entregá-lo, mais uma vez, a quem o trata como irmão.
Marcio Ferreira é doutorando em Sociologia Política pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP/IUPERJ – UCAM), jornalista e pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID). E-mail: [email protected]
Fabio Py é professor no PPGSP (IUPERJ/UCAM), Doutor em História pela UERJ, em Teologia pela PUC-RIO e lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID).
Referências
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ALMEIDA, Ronaldo de. Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 38, n. 1, p. 185-213, jan./abr. 2019.
ALVES, José Eustáquio Diniz. Influência da religião sobre os votos de Lula e Flávio no Brasil e nos estados. Projeto #Colabora, Rio de Janeiro, 5 out. 2026a.
ALVES, José Eustáquio Diniz. Lula venceu com maior apoio de católicos, sem religião e outras religiosidades. Projeto #Colabora, Rio de Janeiro, 26 out. 2026b. Disponível em: https://projetocolabora.com.br/ods16/lula-venceu-com-maior-apoio-de-catolicos-sem-religiao-e-outras-religiosidades/. Acesso em: 26 out. 2026.
ARAÚJO, Victor. A religião distrai os pobres? O voto econômico de joelhos para a moral e os bons costumes. São Paulo: Edições 70, 2022.
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INSTITUTO DE ESTUDOS DA RELIGIÃO (ISER); QUAEST. Religião e vida pública no Brasil: dados iniciais. Rio de Janeiro: ISER, set. 2026.
LÖWY, Michael. A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000.
PRADO, Thiago. “Evangélico continua tratado como charlatão ou coitadinho pela esquerda intelectual”, diz Spyer. O Globo, Rio de Janeiro, newsletter Jogo Político, out. 2026.
PY, Fabio. Pandemia cristofascista. São Paulo: Recriar, 2020.
SALDAÑA, Paulo; BILÓ, Gabriela. Fé une mulheres, e 46% das evangélicas preferem Flávio Bolsonaro, enquanto 26% votam em Lula. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 set. 2026. Série Voto das Mulheres. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/fe-une-mulheres-e-46-das-evangelicas-preferem-flavio-bolsonaro-enquanto-26-votam-em-lula.shtml. Acesso em: 26 out. 2026.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SPYER, Juliano. Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020.
SPYER, Juliano. O Brasil dos evangélicos: o que o crescimento pentecostal significa para o país. São Paulo: Planeta, 2026. 192 p.
Fontes jornalísticas e dados eleitorais consultados
Projeto #Colabora (agregador LAR/Unicamp):
https://projetocolabora.com.br/ods16/lula-venceu-com-maior-apoio-de-catolicos-sem-religiao-e-outras-religiosidades/
Folha de S.Paulo:
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/fe-une-mulheres-e-46-das-evangelicas-preferem-flavio-bolsonaro-enquanto-26-votam-em-lula.shtml
Tribuna do Sertão:
https://tribunadosertao.com.br/politica/2026/10/15/998309-datafolha-lula-tem-vantagem-entre-catolicos-e-flavio-entre-evangelicos
Jornal de Brasília:
https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/datafolha-lula-tem-vantagem-entre-catolicos-e-flavio-entre-evangelicos/
Migalhas:
https://www.migalhas.com.br/quentes/467197/lula-e-reeleito-e-conquista-quarto-mandato-na-presidencia
DGABC:
https://www.dgabc.com.br/Noticia/4352445/btg-nexus-lula-tem-61-no-nordeste-e-flavio-32-senador-tem-51-no-sudeste-e-lula-41
Vermelho:
https://vermelho.org.br/2026/09/17/pesquisa-revela-nuances-nas-escolhas-politicas-das-mulheres-evangelicas/
CartaCapital:
https://www.cartacapital.com.br/?p=39884
Global Voices:
https://globalvoices.org/2014/10/09/tumblr-account-shames-online-hate-directed-at-brazils-north/
Centro de Estudos da Metrópole/USP:
https://centrodametropole.fflch.usp.br/en/news/influence-pentecostal-religion-votes-poorest
Diário do Centro do Mundo:
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/cristofascismo-a-uniao-entre-o-bolsonarismo-e-o-maquinario-politico-socio-religioso/

