O feminismo camponês - Le Monde Diplomatique

Mulheres de luta

O feminismo camponês

por Isaura Isabel Conte
8 de novembro de 2007
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A perspectiva do MMC é ajudar as mulheres camponesas a sair da condição de vítimas e a se reapropriar do poder que lhes foi “roubado”. Para que, junto com os homens, elas possam marchar pela transformação integral da sociedade

O Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) é, simultaneamente, classista e feminista. Constituído em março de 2004, por ocasião de seu primeiro congresso nacional, em alguns estados do Brasil contudo sua caminhada vem desde a primeira metade da década de 80.

O MMC nasceu como movimento autônomo, com atuação específica junto às mulheres da roça. Isso porque, ao menos nos últimos 10 mil anos, a sociedade patriarcal relegou às mulheres lugares e papéis tidos como secundários, cabendo-lhes “ser menos”1, se comparadas aos homens. E as mulheres camponesas são ainda mais excluídas — seja do acesso ao estudo e ao conhecimento, seja de seus próprios direitos sociais como cidadãs. Pesquisa realizada pelo MMC na região Missões I, no Rio Grande do Sul, mostrou que 80% das mulheres pesquisadas, militantes do MMC, possuíam somente até cinco anos de escolarização. Destas, 92% tiveram de deixar de estudar porque precisavam trabalhar para contribuir no sustento da família2.

Muitas mulheres camponesas assumem jornada dupla ou até tripla de trabalho. Fazem aquilo que é necessário e indispensável para a sobrevivência da população. Esse trabalho, considerado “serviço”, lhes é atribuído automaticamente, como se fosse inerente à condição feminina. É um trabalho não valorizado nem valorado financeiramente. Um trabalho que impõe uma sobrecarga, em geral repetitiva, exigente e de muita responsabilidade. Um trabalho que faz com que as mulheres vivam infelizes, fiquem depressivas e adoeçam. Um trabalho que é uma forma de violência e que a sociedade, como um todo, costuma não perceber ou ignorar.

A esse trabalho extra acrescentam-se todas as formas de proibição impostas às mulheres camponesas — desde aquelas decorrentes do moralismo até os impedimentos de saírem do espaço privado devido às responsabilidades com filhos, idosos, animais domésticos, casa etc. Tudo isso contribui para lhes tolher as possibilidades de avançar nos debates mais gerais e na participação na sociedade. E a falta de condições para denunciar as violências sofridas é ainda mais acentuada do que no meio urbano.

É a partir de espaços específicos das mulheres que o MMC afirma ser necessário fazer uma reapropriação do “poder roubado”3. Isso significa bulir em algo enraizado, discutir o “ser mulher” e o “ser homem”, questionar os papéis dos gêneros na história, saber por que se chegou a um tipo de relação no qual as mulheres são excluídas dos espaços de decisão e levadas à obediência e à submissão.

Daí a missão que se atribui o MMC: “A libertação das mulheres trabalhadoras de qualquer tipo de opressão e discriminação”. Isso se concretiza na organização, formação e implementação de experiências de resistência popular nas quais as mulheres sejam protagonistas de sua história. Nossa luta é pela construção de uma sociedade baseada em novas relações sociais entre os seres humanos, e destes com a natureza.

Imposição de padrões de beleza

No atual momento histórico, a missão do movimento se traduz na luta direta contra o capital, que ameaça o campesinato por meio do agronegócio. Este toma o território, impossibilita a produção de alimentos saudáveis e inviabiliza a própria sobrevivência das pessoas. Adversário dos camponeses em geral, o capital é ainda mais perverso para sua ala feminina, porque traz a marca do patriarcalismo e faz com que as mulheres pobres sintam culpa de sua condição ou sejam consumistas daquilo que o mercado impõe. A imposição de padrões de beleza e de consumo descartável inferioriza as mulheres do campo ou as leva a trabalhar ainda mais.

Diante de tudo isso, a diretriz do MMC no tratamento da questão de gênero é o cuidado4 compartilhado entre homens e mulheres e o “empoderamento” das mulheres na construção do novo. Novo no qual mulheres e homens possam ser livres e não haja opressão de classe, gênero, etnia ou orientação sexual.

O socialismo que queremos não será apenas alteração do modelo econômico. Até porque não haverá socialismo pleno enquanto existir, dentro da mesma classe, opressão das mulheres pelos homens. Enquanto nós, mulheres, não tivermos voz e vez, prevalecerá ainda a relação opressor-oprimido5: opressão de homens sobre outros homens e destes sobre as mulheres, as crianças e a natureza.

Assim, o MMC propõe:

• Promover discussões e estudos permanentes com mulheres dos grupos de base e das comunidades (não negando o espaço amplo da sociedade com o qual nos articulamos) para nos darmos conta das ações do patriarcado capitalista e machista no cotidiano. O cuidado compartilhado entre mulheres e homens que propomos não pode significar tolhimento do prazer das mulheres nem que a carga de responsabilidade caia nos ombros delas somente. O saber cuidar deverá proporcionar relações que não sejam de descarte nem de uso do outro como objeto. Consideramos que há muito por construir e que a construção se dá no momento em que as mulheres assumem que são exploradas pelo sistema, mas que há possibilidade de mudança, na qual os homens podem e devem ser companheiros.

• Construir espaços autônomos de mulheres, nos quais possam falar e debater sobre assuntos que lhes dizem respeito: suas vidas e reapropriação do poder que lhes foi roubado. Por isso, nem todos os debates devem e podem ser feitos junto com os companheiros homens, pois há uma relação de poder desigual há milhares de anos. O papel do MMC é contribuir para que sejam possíveis novas ações de não aceitação da inferioridade por parte das mulheres. Elas necessitam também de reeducação para a superação da condição de “vítima”. Precisam saber do seu valor para exigir valorização de si mesmas, da palavra que dizem, do trabalho que fazem, de sua condição de ser humano.

• Manter a indignação contra a discriminação e buscar espaço de igualdade nas relações sociais de poder. Para tanto, deverá haver compartilhamento das tarefas e trabalhos entre mulheres e homens; perda do medo que elas têm de falar e questionar, da culpa que sentem em dizer suas vontades e seus sonhos.

• Trabalhar para que as mulheres e suas famílias possam ir acumulando práticas e debates sobre o projeto de agricultura camponesa que nega e resiste ao agronegócio e à ação do capital e das grandes empresas tran­sna­cionais.

• Construir o feminismo como forma de relação equilibrada de poder e de responsabilidades entre as pessoas para se contrapor ao machismo e todas as formas de violência. Compreendemos que é necessário companheirismo e solidariedade entre as mulheres do MMC e destas com outras e outros nas relações que estabelecem, seja nos movimentos populares, seja em outros espaços.

• Participar das lutas populares de enfrentamento na perspectiva de destruir o patriarcado e o capital, que exploram e destroem os seres humanos e o planeta.

A intenção do MMC, em todo e qualquer espaço de atuação, é levar as mulheres a serem sujeitos. Por isso, potencializamos a formação de crianças, jovens, educandas, mulheres camponesas e urbanas, e também, em muitos momentos, debatemos com os companheiros. Não somos contra os homens, mas, sim, contra o poder centralizado que oprime especialmente as mulheres — pelo fato da negação —, mas oprime também os homens. O poder centralizado, verticalizado, comandado pelo capital, põe os homens contra as mulheres e contra a natureza e, daí, a crise de civilização e planetária. É por isso que as mulheres do MMC têm buscado formas de construir a sociedade feminista e socialista.

*Isaura Isabel Conte é dirigente do Movimento de Mulheres Camponesas do Rio Grande do Sul (MMC-RS)

 



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