O feminismo na Copa das Mobilizações - Le Monde Diplomatique

MULHERES EM LUTA

O feminismo na Copa das Mobilizações

por Maria Luiza da Costa e Tica Moreno
29 de maio de 2014
compartilhar
visualização

Entre junho e julho, será montado um território “de exceção”, estruturado para atender às exigências da elite da sociedade e do futebol nacional e internacional. Embora não esteja presente no título e na série de materiais produzidos para esse evento, todo mundo sabe que esta é uma competição de homens para homens.Maria Luiza da Costa e Tica Moreno

A Copa do Mundo é baseada e justificada no futebol de alto nível internacional, mas sua experiência vai muito além das partidas. Entre o 12 de junho e o 13 de julho de 2014, será montado um território “de exceção”, estruturado para atender às exigências da elite da sociedade e do futebol nacional e internacional. Embora não esteja presente no título e na série de materiais produzidos para esse evento, todo mundo sabe que esta é uma competição de homens para homens.

Qual é o lugar das mulheres do futebol?

Isso não quer dizer que, no Brasil, as mulheres não gostem ou não pratiquem futebol, ao contrário, a primeira partida de futebol feminino no Brasil ocorreu em 1921 e o primeiro time de futebol feminino iniciou suas atividades em 1958.[1]

A prática do futebol feminino no Brasil começou com muitas dificuldades, pois historicamente as mulheres eram vistas como um ser frágil e dependente, cuja principal função era a maternidade. Em 1964, o Conselho Nacional de Desportos (CND) proibiu o futebol feminino de ser praticadoe deliberou que as entidades desportivas deveriam seguir a seguinte norma em relação às mulheres: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. As mulheres eram proibidas de praticar futebol porque podiam levar uma bolada na região abdominal, e isso poderia impedi-las de engravidar. Essa decisão só foi anulada em 1981, mas as mulheres não poderiam se profissionalizar.

No começo, o futebol masculino era praticado pela elite branca. Com as mulheres ocorreu o oposto: o futebol feminino já começou sendo praticado nos setores populares. As relações com os jogares homens eram estabelecidas de forma tensa, pois as meninas apresentavam comportamentos repudiados pela elite, comportamentos marginalizados. E, além de pobres, eram mulheres. Logo, as jogadoras passaram a ser chamadas de “machorras”, “paraíbas”, etc .[2]

A primeira seleção Brasileira de futebol feminino, convocada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 1988, venceu o “Women’s Cup of Spain”, derrotando seleções como Portugal, França e Espanha. Foi nosso primeiro título internacional. Em 1996, o futebol feminino foi incluído na lista dos esportes olímpicose o Brasil conquistou o 4° lugar, o que ajudou a impulsionar o esporte no país.

A Seleção Brasileira feminina vem ganhando cada vez mais espaço e prestígio, isso tem atraído meninas interessadas em praticar a modalidade. Mas o futebol não é uma ilha isolada dos preconceitos enfrentados pelas mulheres em outros setores da sociedade, ao contrário, é onde o machismo aparece em todas as suas dimensões. Os salários pagos aos jogadores são incontáveis vezes superiores ao das jogadoras. Há poucas escolinhas de futebol onde as meninas que gostam do esporte possam praticá-lo. Nas escolas, são frequentes os relatos das meninas que precisam disputar com os meninos e a diretoria o para garantir o direito de jogar bola no recreio.

As mulheres no futebol, e no esporte em geral, não são consideradas por seu desempenho ou conquista profissional. Os comentários sobre as jogadoras ou até mesmo sobre as árbitras as julgam por sua beleza e sexualidade. Em algumas situações os uniformes são pensados para realçar seus corpos e não para melhorar o desempenho enquanto atletas.  Quando a mídia retrata, “o jogo bonito de se ver” não está falando do jogo em si, mas do aspecto estético e do padrão de beleza feminina que se considera ideal. Falta, ainda, o investimento de recursos para garantir que as jogadoras permaneçam jogando no país.

Um exemplo da discriminação das mulheres no futebol é o pouco espaço dedicado pela imprensa esportiva e os grandes meios de comunicação em geral à Marta, jogadora da Seleção Feminina de Futebol, considerada, por cinco vezes consecutivas, a melhor jogadora do mundo. Não é possível afirmar que as dificuldades iniciais foram vencidas. Pertencer ao sexo feminino é um empecilho usado para impedir a participação das mulheres nos esportes. A sociedade discrimina a mulher que mostra um interesse por essa modalidade. E incentiva a manutenção dos preconceitos quando, por exemplo, uma menina ganha boneca, e o menino uma bola.[3]

O corpo das mulheres na copa dos homens

Não é novidade, e não é só no Brasil, que a Copa do Mundo está relacionada com o aumento do turismo sexual e o crescimento da indústria do sexo. O acesso aos corpos das mulheres faz parte do mercado do futebol e é incentivado por todo mundo que ganha dinheiro com a Copa, ainda que a Fifa alegue não ter nada a ver com isso.

A propaganda do corpo e da sexualidade das mulheres brasileiras como disponíveis para os homens torcedores já começou faz tempo. A Adidas, patrocinadora oficial da Copa, lançou duas camisetas com esse “conceito”. Em uma, ao simbolizar o “Eu amo o Brasil”, o coração se confunde com uma bunda verde e amarela. Em outra, uma mulher de biquíni e a paisagem do Rio de Janeiro dizem tudo.

As casas de prostituição, mesmo sendo proibidas da legislação brasileira, anunciam seus serviços em out-doores em Fortaleza e em São Paulo, nos jornais em Florianópolis e em toda a internet. Vale dizer que há uma tentativa de regulamentação das casas de prostituição no Brasil. O projeto de lei apresentado pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL) não visa assegurar direitos para as mulheres nem formas de transformar sua realidade. Com apenas seis artigos, o projeto de lei, ao separar a prostituição da exploração sexual, o serviço sexual livre do serviço sexual forçado, tem como objetivo legitimar a prostituição como um serviço que pode ser comercializado, e o discurso da profissão do sexo passa a ser um disfarce para despenalização da cafetinagem. A mesma cafetinagem que estrutura não apenas a prostituição, mas todo o esquema de tráfico de mulheres para a indústria do sexo.

Com a proximidade da Copa do Mundo, está colocado o desafio de posicionar este debate não apenas a partir da constatação de que, por ser um período com muitos turistas homens, haverá uma demanda maior pela prostituição. Este é um fato, mas, muitas vezes, é justamente o argumento para se regulamentar a prostituição, para que se realize em espaços seguros. Mas essa segurança está  voltada aos clientes.

Um dos caminhos que o feminismo tem percorrido para enfrentar a questão do turismo sexual no contexto da Copa do Mundo é o de visibilizar os circuitos estabelecidos da prostituição, de modo a explicitar que o funcionamento do turismo no Brasil tem a prostituição como um pressuposto e uma base de movimentação de bilhões de reais. Legitimar esta prática, sem questionar o papel dos homens, do capital e do Estado, é uma armadilha cuja consequência é o reforço da opressão das mulheres.

Vemos no território brasileiro um grande aumento da prostituição nas áreas de mineração, da construção de usinas hidrelétricas ou nas obras da Copa do Mundo. Em uma lógica desenvolvimentista que reduz o desenvolvimento ao crescimento ilimitado, o corpo das mulheres amortece os impactos da superexploração do trabalho e da destruição do território.

Machismo padrão FIFA

A inauguração do primeiro estádio pronto para a Copa do Mundo, o Castelão, em Fortaleza (CE), foi marcada pelas denúncias da exploração sexual de menores, em um contexto de extrema pobreza. Reportagens relataram casos de programas em troca de um prato de comida ou 10 reais e, ainda, em troca de acesso à drogas, como o crack. A rede da prostituição e do tráfico de drogas caminham juntas, e o poder público que investiu bilhões para a construção do estádio, não investe o suficiente no combate à exploração sexual e na garantia de condições de vida dignas para a população do entorno, que não tem o direito a saúde, moradia, alimentação e educação assegurados. A mesma realidade foi constatada no entorno do Itaquerão, em São Paulo.

A realidade no entorno do Castelão mostra um retrato muito diferente do que se quer traçar para a realização da Copa do Mundo, que se baseia na glamourização da prostituição. Somada à situação de desigualdade e pobreza, as meninas pobres viram alvo fácil das redes de aliciadores. Mas, não é apenas a pobreza que leva a essa circunstância. Chama a atenção o fato de que muitas meninas afirmam ter no horizonte a expectativa de conhecer um homem estrangeiro que as tirem de sua realidade. Isso demonstra, por um lado, que a realidade da vida destas meninas não é satisfatória e por isso querem ir para longe e, por outro lado, que não figura no horizonte delas a perspectiva de construir suas vidas com base na autonomia, reforçando um modelo de mulheres dependentes dos homens.

As mulheres que estão na indústria do sexo se tornam um fator crucial para impulsionar a indústria do entretenimento e do turismo, gerando lucros para as empresas e divisas para os governos. Estas conexões são estruturais e não apenas um efeito colateral da lógica dos grandes eventos e dos mega-empreendimentos.

Quando os corpos das mulheres estão à venda como mercadorias no mercado capitalista, se reafirma mais uma vez, e publicamente, a força do patriarcado. Isso porque há um reconhecimento dos homens como senhores sexuais das mulheres, todos os homens sobre todas as mulheres – e é isso que está errado com a prostituição.

No neoliberalismo, a banalização da prostituição foi ampliada.  A lógica consumista invadiu todas as esferas da nossa vida, e até o sexo mercantilizado tornou-se um dado indiscutível da economia moderna. Em uma lógica individualista, as relações de dominação são negadas e excluídas das formas de violência contra as mulheres. Além disso, a diversidade cada vez maior das pessoas em prostituídas por vezes oculta este lugar da instituição prostituição na sociedade patriarcal que privilegia os homens. Estes, seguem sendo a maioria esmagadora dos clientes, mesmo quando se trata da prostituição de rapazes ou de travestis.

Temos que nos desafiar a pensar um outro mundo possível, sem começar a fazer concessões no caminho. O debate é extremante difícil, mas não podemos escolher o caminho mais fácil, não podemos incorporar e reproduzir o discurso que prevalece na mídia só porque na aparência ele se mostre libertário.

Esta é a agenda apresentada pelo feminismo na Copa das Mobilizações. O desafio é que o conjunto dos movimentos que estão nas ruas questionando o Estado de Exceção instalado pela Fifa em nosso território incorpore em sua agenda a denúncia do controle e da exploração do trabalho, dos corpos e da sexualidade das mulheres.

Maria Luiza da Costa é licenciada em Ciências Sociais e atualmente trabalha como assessora na Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT.

Tica Moreno é integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e militante da Marcha Mundial das Mulheres.



Artigos Relacionados

Junho de 2022: o plano Biden para a América do Sul

Online | América Latina
por Luciana Wietchikoski e Lívia Peres Milani
PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

A reta final da Constituinte chilena

Online | Chile
por David Ribeiro
ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud

Para automatizar a censura, clique aqui

Online | Europa
EMPREENDIMENTOS DE DESPOLUIÇÃO

Música e greenwashing

Edição 180 | Mundo
por Éric Delhaye