O festival dos infernos - Le Monde Diplomatique

NORUEGA

O festival dos infernos

por Evelyne Pieiller
3 de julho de 2012
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O intrépido Hellfest, “festival de música metal extrema”, criado em 2006 em Clisson, na França, é um grande ajuntamento no qual, durante três dias, se apresentam grupos que propõem o essencial do metal em toda sua diversidadeEvelyne Pieiller

O massacre ocorrido na Noruega em 22 de julho de 2011 gerou um choque ainda mais violento porque o país parecia ter encontrado a chave da harmonia política e social: transparência, proximidade e convivência, sobre um fundo de consenso onipresente e de debates unicamente “sobre o melhor meio de atingir objetivos que levem a um acordo entre a direita e a esquerda”, para citar o autor de romances noirs Jo Nesbø.1

No entanto, nessa democracia-modelo, capaz de ultrapassar o estágio do conflito, manifestou-se uma extrema direita, completamente não complexada, que não poderíamos reduzir à herança do nacionalista Vidkun Quisling – dirigente de um governo pró-nazista na Noruega ocupada. Essa expansão não se observa apenas na Noruega e não se contenta apenas com o âmbito político: mais intimista, mais facilmente considerada como inofensiva, desenvolve-se nas artes, no entretenimento, no imaginário.

Entre 1991 e 1993, na Noruega, alguns jovens de famílias abastadas alimentaram com perseverança a crônica das notícias populares: o cantor (sueco) do grupo (norueguês) Mayhem (em inglês, “baderna”, “desordem”) se suicidou. Euronymous, o fundador do grupo, compositor e guitarrista, fotografou o corpo para ilustrar o encarte de seu próximo disco. Em 1992, igrejas foram incendiadas; uma delas foi para a capa do álbum seguinte. Samoth, do grupo Emperor, foi condenado por incêndio criminoso, e o baterista do mesmo grupo, pelo assassinato de um homossexual. Em 1993, o baixista do Mayhem matou Euronymous. Ele cumpriu dezesseis anos de prisão, saindo em 2009.

 

Metal paralisante

Delinquentes e assassinos, esses jovens inventavam ao mesmo tempo uma música e um mundo, radicalizando o metal descendente do hard rock para algo bem paralisante. Grunhidos e gritos estridentes, bateria implacável, canto obsessivo numa única nota, guitarras distorcidas: o clima do black metal é o de uma missa negra, de uma encantação guerreira – rock “catedral”, que leva ao transe, ao mal-estar, que não se canta, que se estabelece, impõe seu furor frio.

Toda a Escandinávia viu nascer grupos desse movimento, assim como Polônia, Rússia e França. O imaginário é gótico, neomedieval, satânico-pagão, sobre um fundo de cruzes diversas, florestas, crânios e esqueletos. Os músicos são maquiados normalmente de preto e branco, cadavéricos, amedrontadores – ou horrivelmente macabros, segundo o olhar do espectador.

Nada, nas letras, leva explicitamente a um pensamento político. Pende-se mais para o lado de um niilismo sepulcral (“I can see the wreckage floating ashore of the dying culture”,2 ouvimos no álbum View from Nihil, de Mayhem), de uma fascinação pela destruição, o apocalipse, a morte (“This is war, I lie wounded on wintery ground with hundred of corps around”,3 no álbum War, de Burzum). Não há “nazismo” articulado, mas um conjunto de valores e sentimentos que expressam a rejeição ao nosso mundo, a nostalgia da pureza perdida, aquela dos tempos antigos, da natureza eterna, que acompanha a glorificação de um paganismo vago e a acolhida de uma violência final em que o sangue se faz purificador. O cerimonial black metal conduz para a exaltação da força – reservada aos eleitos capazes do grande desespero engendrado pela lucidez – e da coragem reclamada pela guerra necessária contra os agentes da corrupção do homem.

Evidentemente, podemos considerar que seus celebrantes não são mais do que uma pequena seita de fanáticos perturbados. Podemos rir de seus pseudônimos, de suas encenações, mesmo se for mais difícil permanecer indiferente à sua música. No entanto, eles são como uma exasperação, uma caricatura, um desvio ou uma realização final, à escolha, da cena metal cujo brilho não pode ser negligenciado.

 

Manifestações de extremismo

O intrépido Hellfest, “festival de música metal extrema”, criado em 2006 em Clisson, na França, é um grande ajuntamento no qual, durante três dias, se apresentam grupos que propõem o essencial do metal em toda sua diversidade. Nessa ocasião, alguns se aventuram às vezes a levantar um cartaz em que se diz “NSBM” (“nacional-socialismo black metal”) ou outro que propõe um refrão espantoso, “Hitler was a sensitive man”4 – antes de retirá-los, claro, mas ainda assim…

O Hellfest é regularmente atacado por grupos de pressão políticos e religiosos, classificados à direita da direita, a quem o “diabolismo” dos cabeludos choca.5 Ele acolhe também, frequentemente, em palcos reservados a outras “músicas extremas” além do metal, artistas engajados à esquerda, como Jello Biafra, o cantor dos Dead Kennedys – interpretando um memorável “Californiaüberalles” ou “Holidays in Cambodia” –, ou o grupo punk inglês 999.

Podemos, então, nos perguntar se não haveria uma diminuição dos engajamentos, uma espécie de negação dos propósitos e das escolhas vindos da “extrema direita” em favor de sua diluição nas formas artísticas − o que confirmam as resenhas críticas, que ressaltam com regularidade que o ouvinte se afasta das ideias do grupo, mas a música…

Se considerarmos, por exemplo, o assassino de Euronymous, Varg Vikernes, o clichê é completo. Fanático simplista, expõe seu ponto de vista em seu site: “Tornamo-nos fracos, fomos quebrados e arruinados”, pois “sacrificamos a liberdade para comprar nossa segurança”. A culpa recai sobre os judeus e os maçons, que utilizam os muçulmanos para destruir as nações; aliás, ir “para a Chechênia, Afeganistão e Iraque com um fuzil e munições” lhe parece muito bom. Quanto ao fato de ele ser extremo, não há dúvidas: lamenta que Anders Behring Breivik, o autor do massacre de Oslo, tenha em seu testemunho lançado mão de um nacionalismo sem antissemitismo.

 

“Totalitarismo democrático”

É o escritor Maurice G. Dantec quem, a propósito do voto suíço sobre os minaretes, se expressa, em 2009, no site Ring (“Anel”) – o “melhor site de informação”, segundo seu amigo Michel Houellebecq. Dantec afirmava: “Os cúmplices desse totalitarismo democrático são blocos de países, partidos políticos oficiais, comissões de direitos humanos, juízes, dirigentes sindicais, organizações humanitárias ‘não governamentais’ etc.”. Para “refundar o projeto civilizador que guiou a humanidade durante 3 mil anos”, projeto único nascido “do encontro entre três entidades fundadoras: as nações celtas, a cultura greco-romana e as confederações germânicas”, é preciso “romper a ditadura democrática mundial”, continua.

Dantec leu muito (principalmente Peter Sloterdmik, autor da expressão “o Parque Humano”, mas também Léon Bloy e Philip Dick); ele é brilhante, nervoso, espetacular e de um romantismo elétrico. Seus romances, entre o policial, a ficção científica e o ensaio, são desenvolvimentos de sua visão do mundo. Suas vendas subiram, em 2009, para mais de 2 milhões de exemplares. E ele é definitivamente “cult” – mesmo que (ou principalmente que) esse “católico futurista” e roqueiro tenha conseguido, às vezes, provocar constrangimento.

Richard Millet, membro do comitê de leitura da editora Gallimard, ligado à publicação de As benevolentes, de Jonathan Littell, já laureado com o prêmio de ensaio concedido pela Academia Francesa, autor de umas cinquenta obras, faz eco a Dantec. É partidário da “velha sabedoria que consiste em amar as raças pelo que são e em seus territórios respectivos”.6 E procura “saber o que advém do sentido de nação e de sua identidade diante de uma imigração extraeuropeia que a contesta como valor e que, vamos falar claramente, só pode destruí-la […] porque a falta de limites de seu número e seu assentimento aos ditames do liberalismo internacional provocam essa terrível fadiga dos sentidos que afeta os europeus genuínos”.7

Dantec e Millet não evitam ser considerados arautos da verdade devidamente estigmatizada. Mas são figuras celebradas do establishment literário, versão dândi-profeta. É o caso de Dantec, autoproclamado “combatente cristão e sionista”, como guardião da tradição do estilo clássico; é o caso de Millet, voluntário na comunidade cristã durante a guerra do Líbano.

 

Pureza a ser preservada

Do black metal marginal mais teimoso a certa literatura chique e instalada, da qual encontraríamos diversos outros exemplos, essa direita tão orgulhosa de ser “extrema” estampa assim algumas grandes obsessões comuns, que poderiam se resumir em uma fixação: a da força a ser reconquistada, contra a fraqueza instaurada como valor por uma sociedade uniformizadora que nivela por baixo, ou – mas é a mesma linha de pensamento – a da pureza a ser preservada ou reencontrada, contra a corrupção infiltrada por agentes tóxicos externos.

Esse imaginário é precisamente o de diversos best-sellers que colocam em cena o apocalipse, assinalando o fim do Homo occidentalis – e talvez seu renascimento –, ou a manipulação oculta de nosso mundo, que apenas alguns seres excepcionais poderão evitar. Basta lembrar o sucesso de Matrix, ou o fenômeno do Código Da Vinci, com 86 milhões de exemplares vendidos em 2010. A teoria do complô não para de florescer.

Ainda mais espantoso é o triunfo da fantasia, que geralmente coloca em cena tensões de uma sensibilidade um pouco paranoica e intensamente nostálgica de um tempo em que, numa sociedade organizada segundo uma ordem clara, cada um devia se pôr à prova: a alma mais forte, a mais heroica, a mais capaz de sacrifício e coragem dominaria então o homem da tropa, segundo as próprias leis da natureza. A fantasiaque eclipsou a ficção científica, iniciativa de decifrar os futuros possíveis, combina frequentemente os charmes de uma Idade Média lendária, guerreira e baseada nos sortilégios, com uma espiritualidade confusa, centrada no confronto contra o Mal. A razão não tem mais sua proeminência (enfraquecedora) sobre o instinto; a técnica voltou a ser magia; e o Eleito se realiza nas provas que são também ritos de iniciação, de purificação. O único conflito que importa acontece em torno do poder, objetivo da luta contra as Trevas: O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, parcialmente inspirado nas sagas nórdicas e que tem por motor a busca do anel único que governa o mundo – mesmo se para destruí-lo –, é um dos grandes modelos. E bem depois de sua publicação inicial, em 1954, se tornou um imenso sucesso, vendendo 200 milhões de exemplares.

A fantasiabrilha amplamente para além dos romances. Inspira profundamente o metal, mas também diversos videogames, RPGs, filmes de grande público. Tem seus códigos, um espírito que celebra a antimodernidade, o anti-igualitarismo, a ligação entre o indivíduo e sua tribo, as virtudes do mundo fechado, a audácia e a solidão do chefe, propondo novos heróis, o bárbaro ou o feiticeiro, num fundo sobrenatural ou violento – os sonhos que oferece não são exatamente orientados para a emancipação coletiva. Esse passado fantasioso que inventa masmorras e dragões designa como paraíso perdido um universo arcaico, obscurantista, onde o social e o político se reabsorvem no lento triunfo de um indivíduo superior. O que assim se murmura no ar do tempo é que a história não teria mais sentido, assim como o progresso ou a democracia, e que apenas o retorno a uma hierarquia e uma ordem ancestrais, inscritas na natureza, poderia estar em acordo com a verdade do homem.

Evelyne Pieiller é jornalista.



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