O futuro sorri para o Estado Islâmico - Le Monde Diplomatique

FILIPINAS

O futuro sorri para o Estado Islâmico

por Antoine Hasday e Nicolas Quénel
1 de abril de 2020
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Em 23 de maio de 2017, centenas de combatentes do Estado Islâmico tomaram a cidade de Marawi. O Exército filipino precisou de cinco meses de cerco e bombardeio intensivo para reavê-la. Embora a população ainda culpe o Estado Islâmico pela destruição da cidade, a desconfiança e o ressentimento em relação às autoridades também têm aumentado

Dois anos após a sangrenta Batalha de Marawi, as máquinas ainda trabalham para limpar os escombros, em uma paisagem apocalíptica. Por causa da escala da destruição, essa área, a mais duramente atingida pelos confrontos, passou a ser chamada pelos moradores de “Marco Zero”. Em 23 de maio de 2017, centenas de combatentes da Organização do Estado Islâmico tomaram a cidade. O Exército filipino precisou de cinco meses de cerco e bombardeio intensivo para tomá-la de volta e retirar a bandeira negra.

O conflito causou o deslocamento de mais de 300 mil pessoas, 70 mil das quais ainda esperam para poder voltar para casa. A maioria delas está vivendo em campos para desabrigados, em barracas ou, para quem tem mais sorte, em alojamentos improvisados. Embora a população ainda culpe o Estado Islâmico pela destruição da cidade, a desconfiança e o ressentimento em relação às autoridades também têm aumentado.

Para quem perdeu tudo, é sempre difícil imaginar o futuro. Os desabrigados sobrevivem na mais alta precariedade, expostos ao calor tropical, às chuvas torrenciais e às doenças. A lentidão da burocracia faz a comida e a assistência médica demorarem muito a chegar – isso quando não desaparecem no caminho por causa da corrupção. “Não posso ir para minha casa, pois ela foi requisitada. Estamos com raiva, mas o que podemos fazer?”, lamenta Alaissa – de 31 anos, cabelo preso em um rabo de cavalo e vestindo camiseta do Los Angeles Lakers –, que vive em uma barraca no campo de desabrigados de Sarimanok com o marido e os cinco filhos.

Alguns dias antes do segundo aniversário da libertação de Marawi, em 23 de outubro, a atenção das autoridades estava em outro lugar. No centro do “Marco Zero”, entre prédios destruídos e mesquitas arruinadas, os desarmadores de minas trabalhavam debaixo de chuva. “Encontraremos bombas durante dez anos”, diz um deles. Hoje, eles estão desenterrando uma munição não detonada de 118 kg que foi enterrada a 5 metros de profundidade, junto a um edifício devastado. Ela será detonada diante da imprensa em algumas semanas. É preciso cuidar da comunicação.

O sultão Abdul Hamidullah Atar, chefe tradicional, não está com humor para festas. “Eles falam sobre libertação, mas que libertação?”, fulmina. “Libertação significa liberdade, direito à informação e à justiça. Onde está a justiça quando 7 mil casas e 27 mesquitas estão destruídas e centenas de milhares de pessoas não têm nada?” Oficialmente, os cinco meses de cerco deixaram 920 mortos entre os jihadistas, 168 nas Forças Armadas e 47 entre os civis. Mas, para nosso interlocutor, esse último grupo é o que conta o maior número de vítimas. Apenas trezentos jihadistas teriam sido mortos, e a maioria teria conseguido fugir antes do final da batalha.

A poucos quilômetros da cidade, um terreno baldio foi convertido em cemitério improvisado. Mais de duzentos corpos não identificados estariam nesse lote abandonado, já coberto pelo mato. Nas placas, a maioria das inscrições desapareceu, levada pela chuva. Apenas uma estela de pedra desafia os elementos e torna possível identificar o local: “Aqui jazem aqueles que caíram durante a batalha de Marawi. Nós lembramos. Nunca esqueceremos!”. Como um lembrete do profundo ressentimento de parte da população. “Nós temos provas de violações do direito internacional humanitário durante a batalha, mas precisamos esperar até o fim da lei marcial para levar o caso à justiça”, diz Atar. A lei marcial acaba de ser renovada pelo terceiro ano consecutivo.

Há muito tempo, a corrupção, a precariedade imposta a grande parte da população – que se aprofundou desde a batalha – e a desconfiança histórica da população muçulmana de Mindanao em relação a Manila constituem um terreno fértil para grupos armados. Incluindo o grupo que chegou mais recentemente, o Estado Islâmico, nascido da união de vários grupos islâmicos locais ou de suas facções mais radicais: Maute, Abu Sayyaf, Bangsamoro Islamic Freedom Fighters (Biff) e Ansar Khalifa Philippines (AKP). Seus ativistas juraram lealdade ao “califa” Abu Bakr al-Baghdadi em 2014 e renovaram os votos em 2019, como mostram muitos vídeos divulgados pela organização terrorista. Para encontrar voluntários, eles contam com o tesouro de guerra acumulado durante o saque de Marawi.

Dinheiro, exatamente: Ernesto1 afirma que essa foi sua principal motivação. O homem de 30 anos e silhueta esbelta juntou-se à organização Abu Sayyaf em 2011. “Recebemos uma arma e quase 50 mil pesos [cerca de R$ 5 mil, uma quantia muito significativa na região]”, explica enquanto ajeita nervosamente o boné. De origem camponesa, desempregado e pai de sete filhos, ele foi uma presa fácil para o recrutador, que soube muito bem explorar o ressentimento de grande parte da população em relação ao poder central. “Ele me disse que devemos ficar bravos com o governo das Filipinas, que oprimia os muçulmanos”. Ernesto fazia parte da facção de Isnilon Hapilon, o número dois da Abu Sayyaf, que jurou lealdade ao Estado Islâmico em 2014 e foi morto em Marawi. Durante a batalha, Ernesto fugiu após duas semanas, “quando as bombas começaram a cair”. Encurralado, sabendo-se caçado, ele decidiu se render ao Exército.

Imelda, que esconde o rosto e o de seu bebê debaixo do niqab preto, também participou da batalha. A mulher de 35 anos, mãe de oito crianças, conta que foi com o marido para o Estado Islâmico. A pedido dele, deixou a cidade no início dos combates, para proteger a família. Ela conseguiu fugir na companhia de outros seis combatentes e daquele que era então o emir da organização terrorista, Owaydah Marohombsar, conhecido como Abu Dar. Rejeitada por seus parentes e com poucas opções, ela se entregou às autoridades. Imelda reconhece abertamente ter apoiado o estabelecimento de um califado islâmico. “Estávamos brigando pelo Alcorão, pelos hadiths”, diz ela calmamente, enquanto sua filha de 4 anos mastiga a camiseta rosa da Hello Kitty.

Ambos dizem que lamentam suas ações e que desistiram da ideia de jihad armado. Mas somente o futuro dirá se esses “arrependidos” voltarão a pegar em armas. O coronel José Maria Cuerpo, comandante da 103ª Brigada de Infantaria, tenta parecer tranquilizador: “Desde que eliminamos seu emir, Abu Dar, há alguns meses, os islamistas têm tido dificuldades para atrair voluntários e mobilizar suas tropas”, afirma. O pesquisador independente Paweł Wójcik não compartilha da mesma visão. Segundo ele, a organização está ativa: “Lenta mas seguramente, ela está recuperando o poder que tinha em 2017 e conta com várias centenas de membros”. O coronel garante que não restam mais do que “vinte militantes jihadistas” na província de Lanao, onde fica Marawi.

Embora seja verdade que o Estado Islâmico tenha sofrido muitos reveses militares nos últimos meses, essa estimativa parece pouco provável. Bastam algumas mensagens pelo celular para conseguir fotografias de membros das células dormentes, que estariam escondidas em Marawi mesmo. Em 7 de outubro de 2019, a organização anunciou seu retorno, assumindo o assassinato de um soldado nos arredores da cidade. Mas, para além do número de voluntários recrutados, são sobretudo suas habilidades que preocupam o coronel: “O retorno daqueles que partiram para a zona sírio-iraquiana e o influxo de combatentes estrangeiros mudaram profundamente sua maneira de lutar”. Prova disso é o crescente uso de dispositivos explosivos improvisados e o aparecimento de atentados suicidas.

Apesar de décadas de conflito no sul das Filipinas, o arquipélago, ao contrário da vizinha Indonésia, nunca havia sofrido ataques suicidas, mas desde 2018 já foram pelo menos quatro. O primeiro foi realizado em 31 de julho de 2018 por um marroquino cujo nome de guerra era Abu Khatir al-Maghribi. Ele explodiu um veículo em um posto de controle do Exército em Basilan, matando dez pessoas, entre elas uma mãe e seu filho. Em seguida veio o ataque à catedral de Jolo, em 27 de janeiro de 2019, por um casal de indonésios: vinte mortos e 111 feridos. Seis meses depois, em 28 de junho de 2019, dois homens, um deles filipino, realizaram um ataque suicida a bomba tentando entrar em um acampamento do Exército em Indanan. Pelo menos sete pessoas foram mortas. Por último, em 8 de setembro de 2019, uma mulher detonou um colete explosivo no posto de controle do Exército. Ela foi a única vítima.

Esses eventos levantam dúvidas sobre a narrativa sustentada pelo governo das Filipinas. Especialista em movimentos de insurgência e terrorismo no Sudeste Asiático, o professor Zachary Abuza, do National War College de Washington, chega a pensar que Mindanao “se tornará o principal destino dos combatentes estrangeiros na região”. A ilha sempre foi um importante ponto de encontro, mas o fenômeno poderia acentuar-se com a perda do domínio territorial do Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Foto: REUTERS/Erik De Castro

“Já existem redes logísticas no Kalimantan oriental e na região de Poso [na Indonésia] e Sabah [na Malásia]”, detalha o pesquisador. São antigas “rotas do jihad” que os membros da organização terrorista continuam usando, apesar da cooperação reforçada entre os países da região. Em 2018, o cientista político filipino Rommel Banlaoi indicava a presença de uma centena de jihadistas estrangeiros em seu país – número contestado pelas autoridades, mas considerado crível por diversos especialistas. “Eles vêm principalmente de países vizinhos, mas também do Oriente Médio, do Magreb e da Europa, como mostra a prisão de um sueco próximo ao general Santos [Cotabato do Sul] no final de setembro”, resume o pesquisador independente Robert Postings. “O problema é que não são necessários muitos combatentes estrangeiros para fazer a diferença no terreno”, explica Abuza. O coronel Cuerpo confirma: “Eles trazem novas habilidades, como a fabricação e o manuseio de dispositivos explosivos, e contribuem para o treinamento de militantes locais em combate urbano”. Nos próximos meses, a ameaça poderá aumentar. Cerca de cinquenta combatentes indonésios detidos na Síria, juntamente com suas famílias, teriam escapado em outubro, durante a ofensiva turca contra as forças democráticas sírias.

Para lidar com isso, o governo de Manila também conta com a principal guerrilha separatista muçulmana de Mindanao, a Frente Moro de Libertação Islâmica (FMLI), com a qual fechou um acordo de paz após décadas de conflito. O acordo deve culminar, em 2022, na criação de uma região autônoma e de um parlamento local, cuja missão será administrar a região e tirá-la da pobreza (ler artigo virando a página). O governo prevê ainda uma cooperação entre a FMLI e o Exército na luta contra o Estado Islâmico. Porém, em uma região onde a cultura tribal prevalece sobre o respeito às instituições, é difícil imaginar que os membros da organização denunciarão indivíduos que, em geral, são oriundos da mesma família ou da mesma vila que eles. “O simples fato de haver um novo governo local, resultante do processo de paz, é uma coisa importante. Ele representa a luta do povo moro pela igualdade e impedirá os extremistas de instrumentalizarem a injustiça social, mesmo que os desafios sejam consideráveis”, acredita Zia Alonto Adiong, membro da autoridade de transição de Bangsamoro, que garante o estabelecimento da futura administração autônoma.

No entanto, se a velha guarda da FMLI está ligada ao processo de paz, a geração jovem se mostra mais radical e não exclui inteiramente a retomada da luta armada. “As autoridades criaram uma catástrofe social. O presidente [Rodrigo] Duterte precisa agir, ou a população acabará se voltando contra ele”, adverte Noor Lucman, escritor e ex-candidato legislativo, que ajudou setenta pessoas – a maioria delas cristã –, escondendo-as em casa durante o cerco. Se isso acontecer, o Estado Islâmico só precisará recolher seu prêmio.

 

*Antoine Hasday e Nicolas Quénel são jornalistas.

 

1 Os entrevistados identificados apenas pelo primeiro nome preferem manter o anonimato.



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