O genocídio não está só na favela: eles precisam nos matar por dentro
Entre microagressões e exclusões institucionais, a violência racial cotidiana impõe desgaste contínuo e questiona a permanência de pessoas negras em espaços institucionais
O genocídio não se manifesta apenas no corpo tombado pela bala. Ele também se instala na alma, lentamente, por meio de um processo cotidiano de corrosão. Não é apenas a morte física que sustenta a engrenagem do racismo; é a tentativa persistente de nos esvaziar por dentro, de nos convencer de que não pertencemos, de que somos excesso, ruído, intrusão.
A discriminação racial indireta, prevista no Decreto nº 10.932/2022, aquela que se esconde sob critérios aparentemente neutros, mas produz desvantagens sistemáticas, opera como um mecanismo sofisticado de asfixia. Não grita; sussurra. Não expulsa formalmente; dificulta, fragmenta, descredibiliza.
Cada questionamento sobre competência, cada olhar de surpresa diante da qualificação, cada silêncio estratégico numa reunião em que nossa voz deveria ter peso compõe uma pedagogia da inferiorização. O racismo aprende a ser elegante. Aprende a usar o vocabulário da meritocracia para justificar exclusões previamente decididas, não foi assim que fomos barrados no ingresso ao magistério superior nas universidades federais?
No mercado de trabalho, a violência não precisa ser explícita para ser devastadora, vimos isto em cada uma das vagas que nos foram tiradas pelos homens e mulheres de ciência na implementação da Lei nº 12.990/2014.
Pessoas negras acumulam títulos, produzem conhecimento, lideram projetos e ainda assim precisam provar, repetidamente, que são legítimas. A régua se move. O erro não é permitido. A excelência nunca é presumida. A suspeição é permanente. A mensagem é sutil e constante: “Você chegou aqui por exceção”.

Esse processo não é episódico, é cumulativo. Cada microagressão se soma à anterior, formando um estoque de desgaste que não aparece nos relatórios institucionais e nos baremas da produção acadêmica.
Nos espaços de maior qualificação, a dor ganha outra camada. Quanto mais sofisticada é a compreensão das engrenagens institucionais, mais nítido se torna o desenho da exclusão. Sabemos identificar o fracionamento estratégico das oportunidades, o silêncio como técnica de isolamento, a desqualificação travestida de rigor acadêmico. A lucidez não nos protege, ela aprofunda a ferida. É a consciência de estar diante de um sistema que opera com método, ainda que se apresente como neutro.
Esse é o cansaço que não aparece nas estatísticas: a fadiga de batalha racial. A necessidade constante de vigiar o ambiente, antecipar hostilidades, calcular palavras, medir reações. A ansiedade que antecede cada avaliação. A sensação persistente de não pertencimento, mesmo quando o currículo é incontestável. O corpo responde: insônia, tensão, exaustão. A mente responde: dúvida, autoquestionamento e hiper desempenho como mecanismo de sobrevivência.
E, no entanto, quando o sofrimento emerge, ele é individualizado. Dizem que é sensibilidade excessiva. Dizem que é incapacidade de lidar com críticas. Transformam violência estrutural em fragilidade pessoal. O sistema fere e depois acusa a vítima de não suportar o impacto.
Esse massacre não é espetáculo, é rotina. Não produz manchetes, produz desgaste. Mas ele é real. E ele se acumula, na direção oposta as vantagens dos pesquisadores brancos. Ao longo de anos, a soma dessas pequenas violências constrói uma montanha invisível de sofrimento. Não se trata de fragilidade, mas de resistência sob pressão contínua.
O genocídio, portanto, não está apenas na favela. Ele também se manifesta na tentativa de nos matar por dentro, de silenciar nossa voz, de restringir nossos horizontes, de nos convencer de que não somos dignos dos espaços que ocupamos. Resistir, nesse contexto, não é apenas sobreviver. É recusar a morte íntima que nos foi programada. Sabemos que para o CNPq e os pesquisadores e pesquisadoras das Comissões de Avaliação isto não consta em seus cálculos de fomento à ciência.
Edmilson Santos dos Santos é professor doutor na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Pesquisador da Associação Opará.

