O governo cibernético de Salvador Allende - Le Monde Diplomatique

MÁQUINAS POLÍTICAS

O governo cibernético de Salvador Allende

por Philippe Rivière
1 de julho de 2010
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Em 1971, o pesquisador inglês Stafford Beer expôs a Allende o projeto Cyber-Syn, que pretendia ligar sob a forma de uma rede de informações todas as empresas nacionalizadas pelo governo, com o objetivo de enfrentar em tempo real as inevitáveis crises da economia. Cientista, o presidente apaixonou-se pela ideiaPhilippe Rivière

Desde 1948, a hipótese do controle das máquinas assombra os espíritos modernos. Naquele ano, enquanto Georges Orwell escrevia 1984, o matemático Norbert Wiener definia a cibernética como “o controle e a comunicação entre o animal e a máquina1”. E John von Neumann acabava de inventar a teoria dos jogos, transferindo para algoritmos a decisão de lançar a bomba nuclear.

 

Especialista em história social da ciência, Andrew Pickering acaba de dedicar um livro à escola britânica de cibernética2. Retomando seus primórdios, ele traz à luz as invenções de cientistas como William Grey Walter, que entre 1948 e 1950 criou um pequeno robô parecido com uma tartaruga, capaz de aprender a se dirigir para a luz evitando os obstáculos. Pouco depois surgiria o homeostato de Ross Ashby, um circuito eletrônico que procura manter um equilíbrio interno dado e interagir com seu ambiente. Pesquisadores, médicos e psicólogos envolvidos com essas pesquisas dedicaram-se também aos estudos dos efeitos das luzes estroboscópicas sobre o cérebro, permitindo avanços no campo da epilepsia, e mantiveram trocas criativas com os poetas beatniks ou com músicos como John Cage, Brian Eno e Alvin Lucier, cuja obra Music for Solo Performer (1965) foi pilotada por um eletroencefalograma.

 

A primeira experiência real do poder da máquina nasceu do encontro de um desses ciberneticistas britânicos com o socialismo democrático chileno. O pesquisador inglês Stafford Beer já trabalhava há duas décadas num “modelo de sistema viável” com cinco níveis de controle, que ele aplicou tanto à célula biológica e ao cérebro quanto às organizações sociais e políticas. No dia 12 de novembro de 1971 ele foi ao palácio presidencial do Chile e expôs a Salvador Allende o projeto CyberSyn, que acabava de iniciar a convite de Fernando Flores3, engenheiro e diretor técnico da Corfo – sociedade que controlava as empresas nacionalizadas pelo governo da Unidade Popular. Tratava-se de ligar essas empresas sob forma de uma rede de informações, com o objetivo de enfrentar em tempo real as inevitáveis crises da economia. Cientista por formação, Allende apaixonou-se pelo assunto, dedicando várias horas a reuniões com Beer, que mais tarde relataria como o presidente insistia, a todo momento, em reforçar os aspectos “descentralizadores, antiburocráticos e que permitissem a participação dos trabalhadores4”. Quando Beer mostrou a Allende o lugar central do dispositivo, este exclamou: “Enfin: el pueblo!”

 

Composta por cientistas de diversas disciplinas, a equipe do projeto Synco recuperou telexes inutilizados e os enviou para as empresas nacionalizadas em todo o país. Começou a conceber o protótipo de uma sala de controle tipo Star Strek. Muito rapidamente as informações econômicas (produção diária, utilização de energia e trabalho) circulavam pelo país por meio do telex, para serem examinadas cotidianamente por uma das raras calculadoras que existiam em todo o Chile, uma IBM 360/50. Entre as variáveis analisadas figurava o absentismo, indicador do “mal-estar social”.

 

A partir do momento em que um dos números saía de seu padrão estatístico, um aviso era emitido, oferecendo ao responsável pelo local certo tempo para remediar o problema, antes que o sinal chegasse a um nível superior. Beer estava convencido: “oferecia às empresas chilenas um controle quase total de suas operações, permitindo também uma intervenção externa em caso de um problema sério. Esse equilíbrio entre os controles descentralizado e centralizado podia ser otimizado escolhendo-se uma boa duração de resiliência concedida a cada empresa antes que o alerta fosse dado no nível hierárquico superior5”.

 

Contenção de danos

 

Em 21 de março de 1972, o programa produziu seu primeiro relatório. No mês de outubro, diante das greves organizadas pelos grêmios (sindicatos patronais) e pela oposição, a equipe do projeto Synco abriu uma seção de crise para analisar os 2 mil telexes diários provenientes de todo o país. Armado desses dados, o governo destinou seus recursos para limitar os estragos provocados pelas greves. Organizou os 200 caminhoneiros que permaneceram fiéis (contra 40 mil grevistas) para garantir os transportes vitais e sobreviver à crise! Desde então, o projeto ganhou respeito; Flores foi nomeado ministro da economia e, em Londres, The Bristish Observer dava a manchete: “O Chile governado por computadores” (7 de janeiro de 1973). Em 8 de setembro de 1973, o presidente ordenou a transferência da sala de operações para o palácio presidencial. Mas no dia 11, os aviões de caça do exército lançaram seus mísseis sobre o La Moneda, e Salvador Allende foi deposto e morto.

 

“A história chilena”, escreve Eden Medina, “oferece um exemplo de como um contexto geográfico e político diferente pode provocar uma nova articulação de ideias cibernéticas e usos inovadores das tecnologias em informática.” Ela ilustra a tese de Pickering, para quem a cibernética é uma disciplina mal-amada porque é malcompreendida. Designada às vezes de “ciência militarista”, às vezes “associada à automatização no pós-guerra da produção”, ela seria, ao contrário, uma “ciência nômade, em eterna errância”, opondo-se às “ciências reais”. Os ciberneticistas ingleses da primeira geração, como Walter e Ashby encontravam-se, à margem da instituição, e trabalhavam nesses projetos em seu tempo livre.

 

 “Os ciberneticistas, e sobretudo Stafford Beer, lutaram contra a condenação moral e política de sua ciência”, insiste Pickering; o sentido da palavra “controle” é múltiplo e se “o controle como dominação, a redução dos indivíduos a autômatos” provocam uma rejeição, a noção cibernética de controle não é esta. Assim como a psiquiatria de Laing pôde, às vezes, ser descrita como a antipsiquiatria, os ciberneticistas britânicos seriam definidos como especialistas do anticontrole”.

 

E hoje, a cibernética ainda é necessária? Quando a ação reforça a informação que a desencadeou, o retorno é considerado positivo, e o sistema tende a divergir – o que chamamos trivialmente de “balão” ou “círculo vicioso”, segundo a direção que ele toma. Sendo negativo, o sistema se adapta, se estabiliza, resiste aos ataques e procura soluções para se preservar em um ambiente em transformação. A crise econômica que atinge hoje a Europa é um ótimo exemplo disso: quando as agências de avaliação de risco rebaixam um país, este corta suas despesas públicas, acarretando mecanicamente uma baixa da atividade econômica, que conduzirá as agências a rebaixá-lo novamente. Inversamente, políticas ditas contra cíclicas, que incentivam o poder público a investir quando a atividade diminui, ilustram um feedback negativo às virtudes estabilizadoras.



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