O CASO DE KARIN ARANHA

O grito desesperado de uma “mãe de Sharia”

O caso de Karin Aranha exemplifica o drama das chamadas “Mães de Sharia”. Após trabalhar no exterior para sustentar a família, ela retornou ao Brasil e descobriu que o marido havia fugido com o filho para o Egito, levando também suas economias. Desde então, Karin enfrenta uma longa e difícil batalha judicial internacional para tentar reaver a guarda da criança e garantir o direito de exercer a maternidade 

“Mãe de Sharia é uma expressão utilizada para se referir às mães que perderam ou que tiveram o acesso restringido aos seus filhos, menores de idade, após se separarem de seus maridos muçulmanos estrangeiros. Em diversas ocasiões, crianças e adolescentes brasileiros são levadas para países onde a lei islâmica (Sharia), frequentemente, destina a guarda dos filhos aos pais. O que torna praticamente impossível para essas mães ter de volta o acesso e a guarda de seus filhos. 

A situação torna-se ainda pior, quando essas crianças são levadas à países que não seguem a Convenção de Haia. Esse é exatamente o caso de países como o Líbano, a Síria e o Egito.  

A Convenção de Haia é um tratado internacional que visa retornar os filhos menores de idade, removidos indevidamente de sua residência habitual, por parte de um dos genitores. Nesse caso, o juiz poderá decretar a busca e a apreensão da criança.  

Karin Aranha é o nome de uma mulher brasileira e “Mãe de Sharia”. Atualmente divorciada de um homem egípcio e cidadão brasileiro, “Ahmed”, que raptou o seu filho menor, o Adam, quando ele tinha apenas 3 anos de idade.   

O casal permaneceu casados por um período de 5 anos. O casamento ocorreu no Brasil, sob a legislação brasileira. Durante o matrimônio, Karin e “Ahmed” viviam juntos em uma cidade do interior de São Paulo até nascer Adam, o segundo filho de Karin e o primeiro com o seu então marido egípcio, o “Ahmed”.   

Nesse meio tempo, mais precisamente em 2020, o mundo se surpreendeu com a pandemia mortal de COVID-19. Imediatamente foi instaurado o lockdown em muitas cidades e, consequentemente, muitas pessoas perderam seus empregos. Com eles não foi diferente. A angústia de estarem sem seus respectivos empregos e com um filho pequeno motivou Karin a aceitar trabalhar como faxineira em Londres. A ideia partiu da família de seu marido, pois sabiam que o serviço lhe renderia uma boa remuneração em um período de crise. Na Inglaterra esse serviço é pago por hora. Portanto, quanto mais horas trabalhadas, maior a remuneração.  

A família de “Ahmed” enviou o dinheiro das passagens aéreas e do visto e, Karin embarcou. Passou cerca de 11 meses longe de casa, trabalhando muito, limpando muitas casas, muitos estabelecimentos. Depositava dinheiro semanalmente na conta de seu marido no Brasil para as despesas básicas da casa e do Adam. Além disso, poupava, mensalmente, uma quantia para aplicar em um conta poupança.  

Todos os dias, no fim de um longo expediente, tinha disposição para conversar, em vídeochamada, com o seu marido e, assim, aproveitava para ver os seus filhos. Estava tudo bem, até o dia de voltar ao Brasil.  

No mesmo dia que viajaria de volta pra casa, o seu marido egípcio disse, em vídeochamada, que a aguardaria no aeroporto e lhe desejou “boa viagem”.  

Assim que Karin desembarcou no aeroporto de Guarulhos não encontrou ninguém lhe esperando. Preocupada, pensou que, talvez, Ahmed estivesse atrasado por conta de algum imprevisto. Esperou e esperou muito sozinha com uma bagagem pesada, recheada de presentes para ele e para os seus dois filhos. Decidiu ligar para o seu filho mais velho para saber se tinha notícias de seu marido, já que esperava há quase uma hora no aeroporto. Tempo depois, o seu filho mais velho liga para ela e envia fotos de seu apartamento. As fotos revelavam cômodos sujos, utensílios quebrados e tudo revirado. Em seguida, perguntou por uma pasta, com documentos pessoais e o passaporte do Adam, que guardava no armário de seu quarto. A pasta havia sumido. 

Karin Aranha
Crédito: Record R7

Do aeroporto, Karin, imediatamente, solicitou um taxi por aplicativo. Assim que chegou em casa, havia muita sujeira e bagunça, muita embalagem de comida pronta, louças e roupas sujas espalhada pela casa. Transtornada com a cena, em um insight, Karin consulta a sua conta bancária, mais precisamente a conta-poupança com o dinheiro de 11 meses de trabalho no exterior. Não havia nada.  

“Ahmed” havia roubado e levado o pequeno Adam, sem a sua autorização. Na mesma noite decide ir à delegacia, prestar queixa do desaparecimento de seu filho menor. Sem dinheiro algum para o transporte, foi a delegacia a pé, depois de enfrentar um voo de mais de 12 horas.  

Na delegacia de polícia, o delegado de plantão buscou o nome de seu então marido e foi, naquele exato momento que Karim descobriu que durante o período que esteve fora do Brasil, Ahmed conseguiu obter a cidadania brasileira, já tinha passaporte e carteira de motorista. O casamento de 5 anos fazia parte de um golpe, o chamado “golpe do passaporte” ou “golpe do amor”.  

Na mesma noite que Karim desembarcou no Brasil, Ahmed subtraiu o dinheiro da conta-poupança e fugiu com o Adam pela fronteira terrestre entre Brasil e o Paraguai, a conhecida “Ponte da Amizade”. Após a travessar a fronteira, Ahmed teria embarcado em um voo com destino ao Cairo, no Egito.  

Desde então, Karin não tem mais contato com o seu próprio filho, o pequeno Adam.  

A vida de Karin Aranha mudou drasticamente desde então. Ela passou a se dedicar integralmente ao resgate do Adam. No entanto, diferentemente de outros casos de “Mães de Sharia”, o caso de Karin Aranha se trata de um crime cometido por um cidadão brasileiro no Brasil. Ademais, foi constatado falhas na fiscalização das fronteiras terrestres. Uma criança brasileira jamais poderia sair do Brasil sem a autorização formal da mãe. Todas essas revelações, inclusive, passaram a fazer parte da linha de defesa de Karin no Egito.  

Karin Aranha passou a fazer campanhas de financiamento coletivo nas redes sociais, no Youtube e no Instagram, para conseguir arcar com o preço de um processo internacional. Os custos são muito altos, passagens aéreas, estadia, documentos oficiais, advogados e tradutores no Egito. Graças à difusão desse caso nas redes sociais brasileiras, Karin conseguiu obter recursos necessário para passar longas estadias no Cairo a fim de estar presente em todos as audiências agendadas. Na maioria delas, sem o réu estar presente.  

Toda vez que retorna do tribunal, costuma relatar aos seus seguidores todos os tipos de abusos cometidos. O ostensivo corpo de magistrados masculinos refletia a pouca relevância dos direitos das mulheres naquela região. Apesar de a mãe no Islã ser reverenciada e considerada sagrada, para os juízes e demais autoridades egípcias, Karin não passava de uma mulher estrangeira que reivindicava a guarda de um filho de um homem egípcio e muçulmano.  

Frente a violência judicial, Karin passou a ter de solicitar uma presença masculina para ser devidamente ouvida no Tribunal. Ainda assim, foram muitas as audiências, que geraram muitas expectativas, ansiedade e sofrimento. Ao longo da espera percebeu que estar amparada por um corpo de advogados egípcios e pelos representantes do consulado e da embaixada do Brasil no Egito não seria suficiente. Era preciso uma intervenção política eficiente, afinal não se trata apenas de uma disputa por guarda, mas de um sequestro de uma criança por um cidadão brasileiro que, inclusive, está na lista da Interpol 

Em 2026, Karin Aranha, finalmente, conseguiu a custódia de Adam em um Tribunal de Sharia. Contudo, a execução de sentença não tem um prazo definido. A primeira tentativa de busca e apreensão foi considerada desastrosa, pois ainda é notado uma grande resistência institucional em entregar uma criança egípcia e muçulmana para uma mãe brasileira.  

O descaso contínuo das autoridades egípcias em cumprir com a execução de sentença, gera uma grande expectativa de que o governo brasileiro, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores, interceda nesta situação de flagrante violação de direitos humanos, mais precisamente dos direitos de uma mãe exercer, efetivamente, o direito de ser mãe.  

O egípcio “Ahmed” não apenas sequestrou o Adam, ele privou uma mãe, um irmão e um avô de ter contato com filho, com o irmão e com o neto. Ele foi responsável por alterar a rotina da Karin que, atualmente, vive de doações de suas seguidoras para poder estar em um outro país. Além de ter destruído a sua casa e roubado o seu dinheiro, “Ahmed” humilhou e tripudiou do sofrimento de uma mulher e de uma mãe há mais de 3 anos.  

O apelo é para que o governo brasileiro interceda pela Karin Aranha. E que as chamadas “Mães de Sharia” não permaneçam em uma luta solitária, à mercê da violência e da misoginia de seus parceiros em Estados estrangeiros que os beneficiam. As mulheres brasileiras precisam ser protegidas.  

(Os fatos narrados neste texto não são totalmente precisos) 

 

Luciana Garcia de Oliveira é mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais (DLO-USP). Doutoranda no Programa de Letras Estrangeiras e Tradução da USP. Contato: [email protected] 

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