O impossível acontece - Le Monde Diplomatique

MUNDO ÁRABE

O impossível acontece

1 de fevereiro de 2011
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Sem remeter necessariamente à Revolução Francesa, o ciclo histórico que vive a Tunísia parece familiar. Um movimento espontâneo estende-se, reunindo as mais diversas camadas sociais; o absolutismo balança.

Os políticos adoram invocar a “complexidade” das coisas para explicar que seria loucura querer transformá-las. Mas, em certas circunstâncias, tudo se torna muito simples. Por exemplo, quando o ex-presidente George W. Bush ordenou a todos, após o 11 de Setembro, que escolhessem “entre nós e os terroristas”. Em Túnis, a escolha deveria ser entre um ditador amigo e “um regime de caráter talibã no Norte da África1”. Esse tipo de alternativa conforta os protagonistas: o ditador proclama-se o único baluarte contra os islamistas; os islamistas, os únicos inimigos do ditador.

Mas basta que um movimento social ou democrático faça surgir atores que recusem uma coreografia definida para toda a eternidade, e o balé desanda. Então, o poder desesperado começa a sondar o menor traço de “subversão” nos protestos populares. Se ela existe, ele se aproveita; caso contrário, basta inventá-la.

Foi assim no dia 13 de janeiro, véspera da fuga do presidente Zine al-Abidine Ben Ali. Diante de Mezri Haddad, embaixador da Tunísia na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Nejib Chebbi, oponente laico da ditadura, fazia acusações contra “um modelo de desenvolvimento que utiliza os baixos salários como única vantagem comparativa na competição internacional2”. Ele criticou “a exposição provocativa de riquezas ilícitas nas grandes cidades”, destacando que “toda uma população repudia esse regime”. Haddad perdeu a compostura: “Logo, logo eles virão saquear seu palácio em La Marsa, pois essa é a lógica de todas as sociedades que não têm mais medo da polícia. […] Ben Ali salvou a Tunísia, em 1987, das hordas de fanáticos e fundamentalistas. […] Ele deve permanecer no poder, aconteça o que acontecer, pois o país está ameaçado por hordas de fanáticos e neobolcheviques que são seus aliados estratégicos”. No entanto, algumas horas depois, Haddad reclamava a partida do “salvador da Tunísia”. E, no dia 16 de janeiro, Chebbi tornou-se ministro do desenvolvimento regional de seu país…

Os povos árabes não fazem a revolução todo dia, mas são rápidos em fazê-la. Menos de um mês se passou entre a imolação de Mohammed Bouazizi, as queixas de bacharéis desempregados, a tomada dos palácios de Cartago da família Trabelsi e a libertação dos detidos, e os camponeses já estavam em Túnis exigindo a abolição de privilégios.

Sem remeter necessariamente à Revolução Francesa, o ciclo histórico que vive a Tunísia parece familiar. Um movimento espontâneo estende-se, reunindo as mais diversas camadas sociais; o absolutismo balança. De uma hora para outra, é preciso fazer a escolha: sair do jogo e recolher os ganhos, ou dobrar a aposta. Nesse momento, uma fração da sociedade (a burguesia liberal) age para que o rio retome seu curso; outra (camponeses, empregados sem futuro, trabalhadores sem emprego e estudantes) aposta que a maré de protestos irá varrer mais que uma autocracia envelhecida e um clã monopolista. Além disso, as classes populares, especialmente os jovens, não querem arriscar a vida para que outros – menos destemidos, porém mais bemcolocados – fiquem em uma posição confortável. E perpetuem o mesmo sistema social, mas livre das distorções da polícia e da máfia.

Essa hipótese, que veria o combate contra a ditadura personalizada da família Ben Ali estender-se à dominação econômica de uma oligarquia, não agrada nem aos operadores de turismo, nem aos mercados financeiros, nem ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Eles só gostam da liberdade aplicada aos turistas, às zonas francas e aos movimentos de capitais. No dia 19 de janeiro, a agência de classificação de risco Moody’s baixou a nota tunisiana, alegando “a instabilidade do país, devido à recente mudança inesperada de regime”.

O mesmo descontentamento está presente em Argel, Trípoli, Pequim e nas embaixadas ocidentais. No momento em que a multidão, de maioria muçulmana, exigia liberdade e igualdade, a França esclarecia, à sua maneira, o “debate” sobre a compatibilidade entre democracia e Islã, oferecendo ao cambaleante regime de Ben Ali “o know-how de nossas forças de segurança”… Muçulmanas, laicas ou cristãs, as oligarquias no poder uniram-se assim que sua população despertou. O ex-presidente tunisiano proclamou-se um pilar da laicidade e dos direitos das mulheres contra os fundamentalistas; ele presidia um partido-membro da Internacional Socialista e foi encontrar refúgio na… Arábia Saudita!

Imaginemos que nos últimos meses, em Teerã ou em Caracas, amontoaram-se corpos de centenas de manifestantes abatidos por disparos da polícia… Há mais de 30 anos, em um artigo decisivo, uma professora universitária estadunidense, Jeane Kirkpatrick, então democrata, já refutara tal comparação3. Segundo ela, os regimes “autoritários” pró-ocidentais sempre seriam preferíveis (e, pensava ela, mais facilmente reformáveis) que os regimes “totalitários” que poderiam sucedê-los.

Publicada em novembro de 1979, sua análise entusiasmou o candidato Ronald Reagan a tal ponto que, depois de eleito, ele a nomeou embaixadora junto às Nações Unidas. Kirkpatrick estudou dois problemas estratégicos sofridos no mesmo ano por Washington: a revolução iraniana e a revolução sandinista na Nicarágua. Argumentava que, em ambos os casos, na tentativa de promover a democracia, os Estados Unidos do presidente Jimmy Carter “cooperaram ativamente com a substituição de autocratas moderados e amigáveis com os interesses estadunidenses [o Xá do Irã e Augusto Somoza] por autocratas extremistas menos amigáveis para conosco.”

Naturalmente, os dois regimes derrubados não deixaram de sofrer suas críticas: “eles eram dirigidos por homens que não foram eleitos, […] que chegaram a recorrer à lei marcial para deter, prender, exilar e, até, segundo se diz [sic], torturar seus adversários.” Sim, mas – ponderava Kirkpatrick –, “eles ao menos eram amigáveis em relação aos Estados Unidos: enviavam seus filhos para nossas universidades, votavam conosco na ONU, apoiavam regularmente os interesses estadunidenses, mesmo em situações em que isso lhes custou alguma coisa. As embaixadas de ambos os governos receberam estadunidenses influentes. O Xá e Somoza eram bem-vindos aqui, onde tinham muitos amigos”.

E, em seguida, “prisioneiro de uma versão contemporânea da ideia de progresso que traumatizou o imaginário ocidental desde o Iluminismo”, o governo Carter encorajou uma mudança de regime. Erro fatal: “Washington superestimou a diversidade política da oposição – especialmente o poder de ‘moderados’ e ‘democratas’ –, subestimou a intransigência dos radicais no movimento e a influência dos Estados Unidos sobre o governo e a oposição.” O resultado foi a teocracia dos aiatolás e os sandinistas.

Podemos ver que não é de hoje a ideia de uma “ditadura do mal menor” – pró-ocidental e suscetível de ser um dia reformada (desde que até lá se lhe conceda a eternidade) – e o medo de descobrir fundamentalistas (outrora comunistas) disfarçados de manifestantes democratas. Mas parece que nas últimas semanas o fantasma de Jeane Kirkpatrick andou assombrando mais Paris do que Washington. Isso porque o papel apagado dos islamistas no levante tunisiano – que incentivou a constituição de uma ampla frente social e política contra Ben Ali – tranquilizou os Estados Unidos. O WikiLeaks revelou os sentimentos do Departamento de Estado americano em relação à “quase máfia” e ao “regime esclerosado” do clã no poder; a Casa Branca os abandonou à própria sorte, confiando em um levante liberal e burguês.

Mas a revolta tunisiana repercute para além do mundo árabe. Há muitos detonadores espalhados por aí: crescimento desigual, alto desemprego, protestos reprimidos por pesados aparelhos policiais, juventude educada, mas sem oportunidades, burguesias parasitárias que vivem como turistas em seu país. Os tunisianos não resolverão todos esses males de uma vez, mas eles romperam o jugo do destino. “Não há alternativa”, era a ladainha que se repetia para eles. E veio a resposta: “Às vezes, o impossível acontece”4



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