O incloroquinável Napoleão de hospício contra o mundo

Crônica

O incloroquinável Napoleão de hospício contra o mundo

por Caco Ishak
23 de Abril de 2020
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Bolsonaro é um genocida. Na era digital, comparável apenas a Mubarak (não à toa, os dois únicos presidentes até hoje censurados pelo Twitter). Um a um, de aperto em aperto de mãos, com ou sem contágio vai exterminando o próprio povo. Vale-se de um vírus para tanto, o mesmo que assola as fronteiras para além de seu umbigo

Ultrapassamos oficialmente duas mil baixas em decorrência da guerra contra a Covid-19 no Brasil. Oficialmente. Nem o ora ex-Ministro da Saúde Mandetta acreditava nos números, ciente das subnotificações. Há, todavia, os que até das duas mil duvidam. A imagem da mulher agredindo um médico após ser comunicada da causa mortis de sua mãe resume bem a ópera. Ninguém está preparado psicologicamente para uma guerra. Negacionismo não ajuda. Numa guerra, porém, o exército não ataca o próprio povo, os próprios soldados. Nem o marechal atira contra o próprio pé.

Impossível não recorrer àquela série por todos bastante conhecida, aquela, tantas vezes citada pelo escritor britânico China Miéville em suas analogias políticas, em que o mundo estava sob ameaça de ser acometido por um exército de mortos-vivos comandado pela morte em pessoa, série cujo um dos motes era “o inverno está chegando”. Pois bem. O outono já deu as caras. E, aqui, Jair Bolsonaro faz as vezes do Rei da Noite. Comporta-se como se numa cruzada contra o mundo em quarentena com um único objetivo: que seu ponto de vista (a morte) prevaleça sobre a face da terra (plana).

A analogia, no entanto, para por aí. Pois, ao contrário da personagem fictícia, cuja frieza é marca característica e os rivais muito bem estabelecidos, nosso Rei da Noite parece delirar com os moinhos de vento de outra história, uma adaptação mal-ajambrada onde todos são inimigos — moinhos, cavalos, Sancho Pança. De seu Ministro da Saúde a um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, passando por seu próprio guru, Steve Bannon. Todos equivocados.

Sem amarras: Bolsonaro é um genocida. Na era digital, comparável apenas a Mubarak (não à toa, os dois únicos presidentes até hoje censurados pelo Twitter). Um a um, de aperto em aperto de mãos, com ou sem contágio vai exterminando o próprio povo. Vale-se de um vírus para tanto, o mesmo que assola as fronteiras para além de seu umbigo. A terceira guerra mundial é biológica. O eixo, dessa vez, afora os coadjuvantes Nicarágua, Bielorrúsia e Turcomenistão, composto pelo tal vírus e, quem diria?, nosso caro genocida canarinho, que sai por aí cumprimentando senhorinhas após assoar o nariz, “para espantar o tédio e o vazio do existir”, pintado por Rogério Skylab — e nós que pensávamos que o louco fosse o artista. Nem imaginávamos em 2018 o estrago que um meme faria.

Já quase isolado no próprio palácio de cartas prestes a ruir, para muito aquém das analogias, não é de se chocar (amadores à parte) que Bolsonaro e seus generais olavistas lidem com a situação como se numa guerra de fato — evidente: contra os comunistas chineses, que ora se aliaram aos comunistas americanos e alemães e franceses, o mundo todo comunista, e em conluio com nossa facção comunista de infiltrados, Dória Caiado Barbalho etc. Não poupa recursos humanos: com idade limite de 60 anos, todos são convocáveis e passíveis de baixa, mulheres e crianças inclusas. O próprio Napoleão de hospício.

Não fosse no Brasil, daria até para pensar que o atraso na renda emergencial foi de propósito como meio de forçar o povo a sair da quarentena e lançar-se ao campo de batalha, de volta ao chão de fábrica desde sempre contaminado, tornar a revolver as engrenagens da economia. Não no Brasil. Não Paulo Guedes. Quanto menos Bolsonaro. Por que um genocida faria isso?

Não satisfeito, nosso capitão promovido a marechal em um despautério do destino segue em plena marcha com suas trapalhadas, mobilizando também recursos materiais e força laboral naquilo que acredita, novamente ao contrário do mundo inteiro, ser a solução. Quanto dos fundos emergenciais foi gasto pelo exército na recente produção ampliada de um milhão de comprimidos de cloroquina? O que fazer com tamanha quantidade de remédios agora que pesquisas começam a demonstrar sua letal ineficácia? Eutanásia? Haja lúpus, artrite e malária.

Perdidos, sem saber se escutam o marechal que renega a doença ao tempo em que oferece por “milão” a suposta cura ou o que dizia o deposto general-de-brigada, aconselhando-os a permanecer em casa até no mínimo o mês de julho, soldados e aldeões se dividem entre os que, intrépidos e confiantes, atendem ao chamado de seu Messias e abarrotam esquinas de verde e amarelo coreografando o próprio enterro na certeza da ressurreição, os que “fogem à luta” no conforto de seus lares assistindo à guerra pela TV, os que não têm outra escolha senão encaminhar-se às trincheiras e os que antes passavam fome em seus barracos e assim continuam.

O que pensar, afinal, quando duas das nações com maior incidência de contaminação e mortes por Covid-19, EUA e Itália, consideram-se mais seguras do que o Brasil a ponto de conclamarem seus cidadãos aqui residindo a deixar o país de imediato? A rigor, é o que Estados fazem em tempos de guerra. A mensagem é clara: seremos incloroquinavelmente bombardeados. O inverno nunca esteve tão próximo.



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