O intocável diretor-executivo - Le Monde Diplomatique

França

O intocável diretor-executivo

15 de agosto de 2013
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Na imprensa, Maurice Lévy é intocável. Ele sabe que pode contar com um conjunto de amigos bastante profundos. Le Monde Diplomatique, já publicou vários artigos críticos ao diretor da Publics (3° maior grupo publicitário do mundo), deve a seus leitores e assinantes a liberdade de perseguir este trabalho irreverente

No dia 14 de abril de 2012, o programa “Journal inattendu” [Jornal inesperado], na rádio RTL, recebia Maurice Lévy. De acordo com o princípio do programa, que confia a seu convidado o papel de redator-chefe, o diretor-executivo da Publicis apresentou o jornal informativo juntamente com Marie Drucker, jornalista da RTL e do canal televisivo France 2 e filha de Jean Drucker, dono fundador do canal de televisão M6.

Quando chegou o momento de interrogar este “redator-chefe” especial sobre seu bônus de 16,2 milhões de euros, o maior jamais concedido a um dirigente de empresa francesa, a jovem apresentadora se encheu de coragem: “Vale lembrar que o senhor não usurpou sua remuneração: o senhor transformou a Publicis num grupo de comunicação mundial, o senhor criou milhares de empregos… Ninguém contesta o que o senhor fez pela Publicis, [nem] que o senhor seja um bom patrão, mas eu gostaria de retomar uma contradição pessoal, talvez…” Ao longo de quase uma hora de programa, o espectador ficou sabendo pela boca da jornalista que o patrão com o melhor desempenho do CAC 40 – segundo a classificação de 2011 de Challenges – era “um exemplo”, que ele era “atento às problemáticas da cidadania e às questões de ética”, e que ele usava “muito da [sua] energia e do [seu] judaísmo para combater o racismo e o antissemitismo”.

O interessado aproveitou o microfone generosamente oferecido para dar a sua verdade: ele fez seu grupo – criado por Marcel Bleustein-Blanchet, pai de Elisabeth Badinter1 – passar de 6 mil empregados em 1996 para 54 mil quinze anos mais tarde, depois de ter multiplicado por dez o valor dos negócios, levando-o a atingir 5,8 bilhões de euros. Seu megabônus? Uma “remuneração diferenciada”, ligada a uma “superformance” – resultados acima dos objetivos –, comparada aos prêmios de jogadores como “um Ronaldo ou um Zidane”. Ele estaria ganhando “menos de meio centavo por euro ganho”. “Querem denegrir um patrão que se comportou sempre de modo exemplar”, protesta. Os militantes de Génération Précaire [Geração Precária] que se manifestavam diante da sede da Publicis não compartilham completamente essa opinião: “Com 16 milhões de euros, Maurice Lévy poderia contratar 740 pessoas com CDI [Contrato de Duração Indeterminada]”, salientava um deles, enquanto estagiários, que são recebem 400 euros por mês e “fazem o trabalho de um consultor”, representam 35% dos efetivos em algumas entidades do grupo.

“Exemplar”? A representante do “quarto poder” poderia ter objetado a seu convidado que na sua qualidade de presidente, até junho passado, da Associação Francesa das Empresas Privadas (Afep), ele deveria respeitar o artigo 20.02 de seu código de boa conduta: “A remuneração dos dirigentes deve ser medida, equilibrada, igualitária e reforçar a solidariedade”. Ela poderia também ter perguntando sobre uma informação segundo a qual os gerentes da Publicis teriam tomado a iniciativa de fazer os trabalhadores amedrontados assinarem uma petição de apoio a seu patrão e a seu bônus.2

 

Casamento de interesses

No universo da imprensa, Lévy é intocável. Ele sabe que pode contar com um feixe de amizades e interesses bem claros. À parte Le Canard enchaîné e Marianne [veículos contra-hegemônicos franceses], poucos veículos se arriscaram a questionar o diretor-executivo do terceiro maior grupo publicitário mundial, e responsável por uma parte não negligenciável de suas entradas de dinheiro. “Prudência e moderação dos jornais sobre o escândalo das remunerações de Maurice Lévy, que detém a publicidade”, resumiu no dia 28 de março Airy Routier, conselheiro de redação de Challenges, no seu Twitter. O diretor da revista semanal, Vincent Beaufils, tinha escolhido entrevistar Lévy sob o título “Os patrões estão cansados de serem os bodes expiatórios” (29 mar. 2012).

Esse casamento de interesses é antigo. Em 2003, L’Express já publicava um perfil que pintava o personagem tanto como um “colosso de belo aspecto”, quanto como “um desses gigantes tenazes”. Se havia uma hesitação era saber se o patrão da Publicis era mais um “curador cheio de talento”, um “ourives reparador de empresas” ou um “mediador veloz […], impressionante peles redes que aciona”. Em todo caso, “inútil dizer que a energia do chefe reclama admiração”, afirma o semanário (3 abr. 2003). Em setembro de 2010, a secretaria de redação de Libération não considerou inoportuno mencionar que a Publicis detinha a metade das suas cotas de espaço publicitário quando o jornal publicou um perfil cruelmente intitulado “O rei leão” (11 set. 2010). O leitor ficava sabendo que o patrão da Publicis era um “conformista audacioso” que “estende a mão aos que, nos negócios, conhecem fortunas imensas” e que “terá passado sua vida tomando conta dos aleijados da economia”.

Sem dúvida emocionado por tanta solicitude, Le Monde não hesitou em lhe confiar uma tribuna para explicar que “o capitalismo de depois da crise será ético ou não existirá” (28 maio 2010), antes que uma entrevista lhe permitisse legitimar sua longevidade na chefia da Publicis, quando ele decidiu, aos 68 anos, prolongar seu mandato: “É uma situação clássica em que um conselho de vigilância vê que o capitão ainda está conduzindo o barco de maneira muito ativa e não tem vontade de vê-lo partir. Há uma pressão considerável para que eu permaneça” (3 jun. 2010).

Outra entrevista, um ano depois, forneceu a ocasião para colocar em destaque a audácia e a virtude de seu sistema de retribuição: “A partir de janeiro de 2012, eu não terei mais remuneração fixa” (30 nov. 2011). O homem que dá generosamente publicidade à imprensa deseja, de fato, “hiper merecer” sua remuneração, condicionando esta aos resultados de sua empresa, ela mesma com um “hiper desempenho”. Ele esquecia, no entanto, de precisar que renunciava apenas à parte fixa do seu salário, ou seja, um quarto dos seus ganhos anuais, e que uma soma de bônus calculados desde 2003 esperava por ele… Quanto ao cotidiano, ele não mencionou o fato de que a Publicis é acionária (com 49%) da chefia do grupo Le Monde, M Publicité. Sucessivos dirigentes do jornal mantém relações privilegiadas com Lévy, ao ponto em que um entre eles, Eric Fottorino, reconheceu ter renunciado, seguindo os conselhos desse “amigo” a um editorial denunciando as pressões de Nicolas Sarkozy no processo de recapitalização do grupo de imprensa em 2010.3

“Felizmente, tenho Maurice Lévy”, dizia o ex-presidente da República no fim do seu mandato, quando contava seus apoios midiáticos (Lettre A, 27 jan. 2012). Desde 13 de março de 2012, um seminário da Afep sobre “Os desafios da competitividade”, organizado em parceria com Le Monde, reunia três candidatos à eleição presidencial: François Bayrou, Sarkozy e Hollande. Objetivo declarado – na RTL – pelo presidente da Afep: “Antes de mais nada tratar das despesas públicas”. “Juntamente com Elisabeth Badinter, Simon e Jean-Yves Naouri, ex-conselheiro de Dominique Strauss-Kahn no Ministério da Indústria, Maurice Lévy saberá sem dificuldades reencontrar o caminho do Elysée se François Hollande for eleito”, predizia a Lettre A (27 jan. 2012). O homem, é verdade, já era próximo de Dominique Strauss-Kahn, antigo homem forte do PS com o qual ele co-fundou o Círculo da Indústria, segundo ele injustamente maltratado pela imprensa (“Qual a necessidade de mistificar por dias as anedotas inverificáveis que participam à acusação de um homem já ferido!”, L’Express,31 maio 2011).

Encontramos nos arquivos eletrônicos do Le Monde 507 artigos sobre o patrão da Publicis: é quase duas vezes mais do que as ocorrências dos nomes de Christophe de Margerie, presidente da Total e primeiro do CAC 40 (277 ocorrências), ou de Franck Riboud, dono da Danone, uma das mais importantes multinacionais francesas (261). No site do Figaro, o seu total (390) ultrapassa também o de Margerie (125) e Riboud (281). Gratificado em março de 2011 com o título de segundo homem mais influente das mídias, depois de Xavier Niel (fundador da Free e acionário do Monde), pela revista GQ, o diretor-geral da Publicis dispõe de um poder que ultrapassa o peso do seu grupo. É preciso dizer que ele é excelente na arte de colocar anunciantes a serviço de alguns jornais, antes mesmo que estes façam favores àqueles chefes. “Os poderosos verão rápido que podemos ter influência sem possuir uma imprensa de papel”, diverte-se.4

Em meados de 2011, no Le Nouvel Observateur, o presidente da Publicis orquestrou assim o chamado a dezesseis dirigentes e acionários de empresas para quitar uma taxa mínima. A ideia é preconizar uma contribuição excepcional de 1% a 2% sobre os mais altos salários.5 “É uma abominação ver que os pobres sofrem mais se os ricos não contribuem de modo mais desproporcional [sic]”, afirmou na CNN (27 jan. 2012). Mas está fora de cogitação criar um teto para o salário dos grandes patrões: “É anormal, salvo se estamos em uma economia controlada, tentar normalizar as remunerações”, professou em 25 de agosto de 2011 na rádio Europe 1, garantindo não ter “nenhum cálculo além de recolocar em ordem as despesas públicas e uma certa justiça da repartição do esforço”.

A iniciativa permitiu que Marie Drucker ressaltasse, ao longo de sua entrevista na RTL, que seu convidado aceitava “dar mais para ajudar a França”. Nada a ver, claro, com uma pequena medida destinada a dividir o peso da dívida sobre um número maior e impedir o aumento de 75% do imposto sobre os salários mais altos, preconizado pelo candidato François Hollande, e que Lévy considerou “confiscatório” (Challenges, 2 mar. 2012). A jornalista teve, no entanto, a impertinência de perguntar se o grande homem não tinha “faltado a seu dever de comunicação” ao se tornar o alvo da campanha socialista por causa da revelação do seu bônus: “Por que não ter antecipado [subentendido: recebido o bônus antes]… em pleno período de supervalorização demagógica?”

Alguns dias antes do seu chamado no Le Nouvel Observateur, no dia 16 de agosto de 2011, Lévy dispunha da capa do Monde para lamentar, na ocasião do questionamento do triplo A francês pela agência de classificação de risco Standard & Poors, que a “regra de ouro” orçamentária proposta por Sarkozy não seja “unanimemente apoiada por toda a classe política”. E que os governos sucessivos não se voltem à “reforma dos nossos sistemas sociais, de nossas administrações, dos custos estruturais do nosso país”. Em outros termos, o próximo presidente da República deveria, no mínimo “cortar gastos” a fim de “poder ajudar a dívida” e reduzi-la “segundo a necessidade e sendo complementada por um programa de privatizações dedicado exclusivamente ao desendividamento”. No dia 17 de janeiro de 2012, novo ataque no Le Monde e nova tribuna: “Já que o tabu do triplo A foi rompido, aproveitemos para repensar o Estado”.

Mesmo se sua influência continua muito grande, pareceria, no entanto, que a participação no capital de uma chefia de um grupo de imprensa não é o suficiente para garantir a Lévy um status de intocável. No dia 27 de agosto de 2012, Libération revelou assim que ele interveio junto à direção da Renault, da qual ele detém o orçamento publicitário, para “acusar erroneamente” um alto funcionário da empresa de “receber propina de alguns fornecedores”. Uma acusação que levará ao falso caso de espionagem da Renault… mas que não será tratado pelo Le Monde.

BOX:

Publicis, de Davos ao G-8

O poder de influência de Maurice Lévy, dono da Publicis, não tinha escapado à Nicolas Sarkozy: em maio de 2011, o então presidente da República confiou a ele – sem licitação – o cuidado de organizar em Deauville, em paralelo ao encontro dos oito países mais poderosos economicamente, um fórum dos grandes agentes da internet batizado de e-G-8 (seu conselheiro Franck Louvrier foi agradecido em seguida sendo nomeado presidente da Publicis Events, a filial encarregada do World Economic Forum de Davos e do e-G-8). Entre os convidados famosos figurava Rupert Murdoch, o patrão da News Corporation, qualificado como o “homem mais poderoso do mundo” pelo mediador dos debates, o próprio Lévy. O magnata australiano das mídias explicou que a tecnologia constitui a chave de uma boa educação, que o e-learning permitia identificar os melhores, ou que a sala de aula, com seus professores e seu quadro negro, era a única área que não tinha mudado desde a época vitoriana.

Algumas semanas mais tarde, no Reino Unido, um dos jornais de Murdoch, o tabloide News of the World, demonstrava a serviço de que tipo de “educação” do público seu proprietário empregava a tecnologia. Acusado de ter espionado mais de oitocentas pessoas, ele foi carregado pelo escândalo das cyber-escutas. (M.B.)



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