O Jabuti e a validade das premiações literárias - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

O Jabuti e a validade das premiações literárias

por equipe Le Monde Diplomatique Brasil
23 de novembro de 2010
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O Prêmio Jabuti 2010 gerou polêmica, foi criticado, elogiado e entrou para os Trending Topics do Twitter. À convite do Le Monde Diplomatique Brasil, duas figuras importantes no cenário literário do Brasil discutiram a questão: José Luiz Goldfarb, curador do prêmio, e o escritor Marcelo Mirisolaequipe Le Monde Diplomatique Brasil

Nunca um Prêmio Jabuti havia sido tão comentado. A repercussão do resultado final gerou uma discussão que vai muito além do prêmio em si, pois abarca questões e dúvidas sobre a legitimidade de prêmios literários em geral. Há quem defenda o modelo do Jabuti, vendo nele um importante instrumento para melhorar a literatura brasileira, mas há também quem considere os prêmios como frutos do interesse das grandes editoras. À convite do Le Monde Diplomatique Brasil, duas figuras importantes no cenário literário do Brasil discutiram a questão: José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti, e o escritor paulistano Marcelo Mirisola.

 

52 anos promovendo o livro e a leitura

Por José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti e membro do Conselho Editorial do Le Monde Diplomatique Brasil

O Brasil vivia a democracia e muitos sonhos esboçavam-se para o futuro. Partidos clandestinos encontravam caminhos para a legalidade, Brasília anunciava linhas novas no planalto central. Final dos anos 1950, a seleção canarinha com o jovem Pelé inicia a projeção do Brasil em um mundo que a televisão (e toda a tecnologia que a seguiria) tornava cada vez menor e interligado. É neste quadro que um grupo audacioso, reunido na Câmara Brasileira do Livro, decidiu lançar um prêmio do mercado editorial brasileiro para celebrar e divulgar o melhor da produção editorial nacional. Nasceu o Prêmio Jabuti! Missão desde então: promover a qualidade de autores que publicam no Brasil. As fotos das primeiras premiações do Jabuti no final de 1950 e princípio de 1960 reproduzem o charme e o entusiasmo do Brasil que queria despertar para um novo mundo (para conhecer a história do Prêmio Jabuti, baixe gratuitamente o livro 50 anos do Jabuti em http://cbl.org.br/jabuti/telas/download/?id=1).

52 anos ininterruptos. Atravessou uma ditadura que quis calar a voz e a criatividade no Brasil e que apagou a chama dos primeiros anos do Jabuti. Renovou-se a cada ano para acompanhar as mudanças profundas ocorridas no mundo editorial e na sociedade de um modo geral. Caminho solitário do Jabuti quando o livro, a leitura e a literatura ainda não mereciam em nosso país tantas festas, feiras, salões, bienais, prêmios… Quando ainda não se percebia que sem leitura estaremos sempre patinando em nosso gigante adormecido.

Em 1991, recebi da diretoria da CBL (Câmara Brasileira do Livro) o convite para assumir a curadoria do Prêmio Jabuti. 20 anos, 20 edições do Jabuti. Primeiras demandas: obter recursos para tornar o corpo de jurados profissionais e remunerar monetariamente os agraciados com o troféu do Prêmio. Assim nasceu a dinâmica que até hoje rege a premiação: uma etapa em que os jurados contratados profissionalmente pela CBL selecionam as melhores obras em cada categoria, garantindo a qualidade dos vencedores, e uma seleção final em que estas melhores obras são submetidas à categoria do livro (um corpo eleitoral bem maior) que escolhe os melhores livros do ano (ficção e não ficção).

Ao longo dos 20 anos a frente do Prêmio, busquei aprimorar cada detalhe, cada regra, ouvindo críticas a cada ano de editores, autores, críticos, jornalistas, todos que se interessaram pela melhoraria do Jabuti! Assim coordeno o trabalho de uma comissão de sócios voluntários da CBL, sempre disposta a discutir em altíssimo nível os rumos e mudanças do Prêmio. Com as sessões públicas de apurações dos votos dos jurados, tornamos o Jabuti ainda mais respeitado e sempre zelamos por completa lisura e transparência.

Ao assumir o Prêmio, em 1991, não posso esquecer as palavras sábias do maior sábio que conheci nestas terras tropicais: Haroldo de Campos. “Feliz por saber que o Jabuti terá agora condições de crescer, tornar-se um prêmio que represente o mundo editorial brasileiro, ganhando expressão e respeitabilidade. Confio em você, Goldfarb. Mas fico preocupado com meu amigo José Luiz, pois prêmios sempre geram polêmicas e dissabores”.

E assim chego à polêmica que hoje vivemos em torno do Prêmio, que há 20 anos tenho a honra e satisfação em ser seu Curador. Terminada a festa do Jabuti, no último dia 4 de novembro, tive a alegria em ver a ‘hashtag’ #Jabuti atingir no Twitter, às 15 horas da sexta-feira, dia 5 de novembro, as primeiras posições no Trend Topics Brasil – indicando que, no país, o Prêmio Jabuti era um dos principais temas abordados no site, ao lado do ENEM e da CPMF, que neste dia centralizavam atenções no país e também no Twitter. Vivi a alegria em explicar a centenas de jovens twitteiros o que um bicho fazia nos Trend Topics (pergunta muito comum naquele momento de repercussão acelerada). O Prêmio Jabuti ganhava visibilidade nunca antes atingida e penetrava segmentos que desconheciam sua existência. Como tudo isto ocorreu antes da polêmica se instaurar, eu vinha então colecionando comentários sobre o prêmio, positivos e negativos, que servirão de subsídios para o trabalho da Comissão em 2011. Percebi que o fato de ranquearmos os escolhidos pelos jurados (1º, 2º e 3º lugar) e colocarmos em pé de igual estas obras na lista para a escolha final (voto da categoria do livro) permitia que um 2º ou 3º colocado terminasse em 1º, como melhor livro do ano. Vi que para quem não conhece o regulamento do Prêmio o resultado parecia estranho. Recebi até a sugestão de não ranquear e transformar os escolhidos pelos jurados numa ‘short list’ como ocorre em outras premiações internacionais. Outros mais radicais sugeriram que apenas os primeiros lugares fossem para a lista para votação da categoria. Enfim, sempre atento e ‘antenado’, preparava-me a iniciar 2011 com muito trabalho para a Comissão do Prêmio Jabuti (que também tem se debruçado intensamente à questão do livro digital, entre outras temáticas).

Uma semana depois, recebo por um e-mail a denúncia de Sérgio Machado, endereçada à presidente da CBL e a mim, já comunicando que não mais participaria do Prêmio. E que o conteúdo da mensagem estava sendo enviado à imprensa; sim, estava no carro e tive de parar para ler o recado do editor da Record e começar a atender o celular para falar com a mídia. Que surpresa total e desagradável. Obviamente antevi o que iria enfrentar desde então. Atitude inexplicável de Sérgio Machado. Por que não me telefonou como em tantas e tantas outras oportunidades em que juntos resolvemos problemas relacionados ao mundo editorial? Por que não se apresentou para repartir conosco suas sugestões na primeira reunião da Comissão do Jabuti de 2011? Conheço o editor da Record há décadas. Tenho seu celular e ele o meu! Se seu interesse fosse aprimorar o Prêmio Jabuti, ele tinha plena consciência de que encontraria em mim um canal aberto para diálogo. Aliás, como já dito, a propagação do #Jabuti no Twitter já havia me alertado sobre muitas questões. Mas por que Sérgio Machado escolheu um caminho de confronto, de denúncia? Infelizmente, após suas declarações sobre o assunto percebo que as intenções foram outras. Derrotado na votação da categoria, Sérgio Machado preferiu atacar o prêmio, a classe e se retirar. Fazer seu autor vítima de uma articulação que com certeza Sérgio Machado sabe não existir. Um roubo que ele sabe não ter ocorrido. Derrotado sim, pelas regras estabelecidas e previamente acordadas e que permitem tal resultado (o 2º colocado na categoria “romance” ser o livro do ano, como já ocorreu em anos anteriores). Repensar os critérios para anos futuros, sim. Sérgio Machado sabe que estarei sempre pronto para ouvir sugestões que aprimorem o prêmio. Mas querer mudar as regras do jogo depois do resultado? Alimentando o choro do “Chico, devolve o Jabuti”, como se resultados fossem decididos na força!

A CBL irá analisar com serenidade os caminhos do Prêmio Jabuti, confiante do trabalho que há 52 anos realizamos, consolidando o “prêmio mais importante e respeitado do mundo editorial brasileiro” (diariamente centenas de autores são mencionados pela mídia impressa e eletrônica do Brasil e do exterior como “vencedor do Jabuti em tal ano”). Sérgio Machado mostrou que o caminho do diálogo não lhe interessou. Permitiu que uma das poucas instituições nacionais construídas com zelo e seriedade seja confundida com arranjos e esquemas. Prestou grande desserviço ao nome do Prêmio Jabuti, que com certeza sairá fortalecido seguindo sua contribuição à promoção do livro e da leitura em nosso Brasil. Com firmeza e confiança, rumo ao Jabuti 2011.

 

Chega. Vou vomitar

Por Marcelo Mirisola, escritor paulistano (O azul do filho morto e Memórias da sauna finlandesa, entre outros)

O Jabuti é um prêmio para as conveniências do mercado, para os clientes, fornecedores e amigos. Tá bem claro lá nas “regras”: aqui é a raposa quem toma conta do galinheiro. Um prêmio que é a cara do Brasil. As virgens, os crédulos em geral e os gênios da literatura não deviam se abalar com os resultados. Não entendo porque Sergio Machado, que é macaco velho no ramo, estrebuchou justamente agora. Entre os olhos azuis turquesa do Chico e aquela cara de gambá ilustrado do Edney Silvestre (que é um iniciante e devia se dar por satisfeito diante da repercussão que teve seu livro…) você, sinceramente, acha que o embuste do ano, digo, o livro do ano, iria para quem?  Eu resenhei o livro do Chico para o Prosa & Verso, blogue do Globo. Aquilo ali não presta nem pra virar enredo de escola de samba. No máximo uma minissérie da Maria Adelaide Amaral.

Agora, o que me espanta é o fato de o Chico Buarque embarcar feliz da vida nessa canoa furada, e ainda, na maior cara de pau, emplacar o tipo tímido-elegante e sair à francesa dos salões nobres da hipocrisia sem conceder entrevista – como se não tivesse nada com isso. Será que ele não leu Pornopopéia, o livro do Reinaldo Moraes?   Aposto que não. Porque se tivesse lido, teria vergonha de ganhar não só o Jabuti como o Portugal Telecom – que, aliás, é outra fraude. Vou contar. Desclassificado da primeira fase desse prêmio, resolvi cometer a indelicadeza inédita de ir atrás de alguns jurados e perguntar singelamente: “por que você não votou no meu livro?” Sabe o que descobri? Que tem gente que consta da lista inicial do Prêmio Portugal Telecom, e não votou. Usaram o nome dessas pessoas indevidamente. Ítalo Moriconi não votou, e o nome dele está lá. João Gilberto Noll não votou e o nome dele também está lá. A mesma coisa aconteceu com Edson Cruz. Então eu me pergunto: se o nome de quem não votou tem peso, imaginem o nome de quem votou? (Dezenas de jurados que são meu desafetos…) … enfim, como é que se pode acreditar nesses embustes?

Antes, eu me contorcia de raiva, hoje dou risada: prefiro acompanhar os calouros do Raul Gil, coisa mais honesta. Queria acreditar que, depois da baixaria desse ano, o Jabuti se transformaria num Mico irrevogável. Mas, infelizmente, vai continuar tudo na mesma. As regras não serão mudadas, como quer Sergio Machado. Os escritores continuarão se vendendo barato e festejando suas mediocridades. Por que você acha que nunca apareceu um Primo Levi em nossas plagas? A ficha das pessoas que dão verniz a esses prêmios não vai cair. Os jurados e autoridades de palanque continuarão associando seus nomes ao lixo e a fraude, e vai continuar tudo igualzinho no Brasil do Jabuti, dos Amores Expressos, da Flip, do Marcelino Freire e do Chico Buarque, vixe nhô nhô, vamo que vamo…

Isso o que eu penso. Não quero falar mais nada. Chega, agora vou vomitar.



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