O legado dos “mestres sensei” da esquerda - Le Monde Diplomatique

KURZ E HOBSBAWN

O legado dos “mestres sensei” da esquerda

por Jorge Barcellos
4 de outubro de 2012
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As mortes de Kurz e Hobsbawn deixam a esquerda de luto. Hobsbawn, mais do que Kurz, fez a mais perfeita combinação de paixão política e projeto político. Kurz, mais do que Hobsbawn, fez a mais completa dissecação dos processos simbólicos de alienação do capitalJorge Barcellos

“Se eu me arrependo? Não, não creio. Tenho plena consciência de que a causa que abracei revelou-se infrutífera. Talvez não devesse ter seguido esse caminho. Mas, por outro lado, se os homens não cultivam o ideal de um mundo melhor, eles perdem algo. Se o único ideal dos homens é a busca da felicidade pessoal, por meio de acúmulo de bens materiais, a humanidade é uma espécie diminuída”  Eric Hobsbawn

Deixaram-nos em pouco menos de quatro meses dois dos maiores pensadores de esquerda da atualidade, Robert Kurz e Eric Hobsbawn. A morte do primeiro, em 18 de julho, foi anunciada laconicamente nas páginas da revista Exit! e pouco repercutiu no Brasil; o segundo, falecido em 1º de outubro, mais conhecido no meio universitário, teve razoável repercussão, mas a falta de ambos, sem dúvida, é de grande tristeza para a esquerda. Acompanhei à distância quando o cientista político Fernando Schüller, então Diretor do Centro Cultural Usina do Gasômetro, trouxe Hobsbawn à Porto Alegre em 1992 em um evento de grande repercussão e conheci pessoalmente Kurz quando organizei sua vinda à Porto Alegre em 1997 para uma Conferência Internacional na Câmara Municipal. Com plenário lotado, uma aula da melhor crítica do capital.

Minha geração acostumou-se com a leitura de suas obras nos anos 1980. Lembro-me de descer a Rua Garibaldi em direção à Rua Osvaldo Aranha, no Bairro Bom Fim, tradicional reduto boêmio em Porto Alegre, de madrugada discutindo Kurz e sua obra clássica O colapso da modernização sem ser assaltado – algo improvável hoje em dia –, mas eram seus artigos e críticas que fazia ao capitalismo que, atualizando o pensamento de Marx, tornavam sua abordagem insuperável. O autor de Últimos combates e Com todo o vapor ao colapso fazia análise da economia sob o ponto de vista marxista, mostrando as novas formas de realização do conceito de fetiche da mercadoria. Kurz retornou a Porto Alegre em 2009 para participar do Fórum Social Mundial com a ideia de que a esquerda precisava fazer sua autocrítica: “A crise existencial da esquerda de hoje consiste justamente no fato de ela não ter conseguido transformar o marxismo e reformular a crítica da Economia Política dentro dos padrões do século XXI. Pois naturalmente não existe volta para os paradigmas de uma época passada”, dizia. A esquerda perde uma voz que significava o verdadeiro espírito da crítica capitalista.

Hobsbawn tinha uma obra extensa reconhecida e nos corredores universitários lia-se muito sua trilogia composta por A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios, mas como assinala Correa, da mesma forma que Kurz, o que chamava atenção mais uma vez eram seus artigos de circunstância, que o fizeram também deixar os limites do espaço acadêmico para exercer uma influência notável no campo social.1 Talvez a grande diferença entre Kurz e Hobsbawn é que enquanto o primeiro defendia o ensaísmo e a crítica sociológica como os grandes instrumentos de atuação política do intelectual, o segundo ensinou a uma geração de historiadores que estes podiam ser intelectuais no campo da política. É que para Hobsbawn não se é historiador sem um projeto para a sociedade, sem fazer uma ponte entre o passado e o presente. O historiador como intelectual é alguém engajado nos problemas da cité, daí o tema do presente emergir na obra de Hobsbawn. Para ele era inevitável a experiência pessoal quando falamos de nosso próprio tempo, o que é uma vantagem dizia, para aqueles que como ele viveram um longo período de vida, já que eles poderiam saber, mais do que ninguém, como as coisas mudaram.

Com sua morte recente, Hobsbawn merece uma atenção especial não apenas por seu legado como historiador notável que foi, mas pela sua contribuição política ainda pouco conhecida. Ele nunca renegou suas paixões políticas e compromissos ideológicos, ao contrário, dedicou grande parte de sua vida à esperança da Revolução Comunista. É que a leitura dos trabalhos de Marx como O 18 Brumário foi fundamental em sua obra: “Mesmo que eu achasse que grande parte da abordagem da história por Marx precisasse ser jogada no lixo, ainda assim continuaria a levar em consideração, profunda, mas criticamente, aquilo que os japoneses chamam de um sensei, mestre intelectual, para quem se deve algo que não pode ser retribuído. Acontece que continuo considerando […] que a concepção materialista de Marx é, de longe, o melhor guia para a história”. Criticando o que chamava de marxismo vulgar baseado numa interpretação economicista da história,2 afirmava que “a história necessita de distanciamento, não apenas das paixões, emoções, ideologias e temores de nossas próprias guerras religiosas, mas também das tentações ainda mais perigosas da identidade”  Hobsbawn assume um comprometimento político explícito mas não quer misturar suas esperanças com análise histórica. Por isso sua atuação política ocorre ocupando os espaços nos periódicos e depois, como muitos outros de sua geração, nos meios de comunicação, o que levou a Prospect Magazine, em sua edição de novembro de 2005, a apontá-lo como a 18ª personalidade mais influente do planeta. Na verdade, ele nunca considerou que tivesse feito grande coisa como militante do Partido Trabalhista mas foram seus artigos sobre esse partido e a política inglesa que provocaram enorme debate em seu país. Escrevendo paradoxalmente uma história com distanciamento mas politicamente engajada, Hobsbawn encontrou sua maneira de fazer política enquanto historiador. Ele era um marxista convicto e mas não se tratava de expor seus projetos sociais mas de transformar a realidade por meio de uma ação concreta, i.e., expor uma estratégia viável para conquistar o poder numa situação real. Esse espírito crítico influencia profundamente Robert Kurz e o inspira a acompanhar em detalhe os acontecimentos contemporâneos, principalmente, quando analisa em detalhe os movimentos das grandes corporações, critica suas estratégias de marketing e as formas de tomada das consciências. Como para Hobsbawn, para Kurz a chave do processo encontra-se no período pós-Segunda Guerra Mundial e sua conclusão é angustiante: “Foram atingidas pela crise as bases comuns de uma história de modernização de duzentos anos ou mais. Aqui trata-se de uma crise comum ao Ocidente e ao Leste Europeu, que não surge simplesmente do conflito de sistemas e seus critérios, mas que vem de muito mais fundo”. Para Kurz, o capitalismo, apesar de ter sobrevivido, será a próxima vítima, e o marxismo, sua consciência crítica, revela-se parte daquilo que está em crise.

Hobsbawn também pensava assim. Sua fase politicamente mais produtiva deu-se em um contexto pouco favorável. A crise econômica de 1973 propiciou a expansão das ideias neoliberais, foco da crítica de Kurz, principalmente na Inglaterra de Thatcher (1979), nos Estados Unidos de Ronald Reagan (1980) e na Alemanha de Kohl (1982), uma guinada planetária à direita baseada na livre concorrência e na defesa da limitação da interferência do Estado. Para a esquerda, uma catástrofe. Para a direita não se tratava apenas de combater a sociedade do bem-estar social, mas o próprio comunismo – é que a sociedade de bem-estar social era considerada, de certa forma, uma subvariedade do comunismo. O que Hobsbawn notou com astúcia é que o triunfo da ideologia neoliberal se fez em governos demasiado falidos para lhe oporem resistência. O que fez o autor de A Era dos Extremos nesse contexto? Propôs, em uma série de artigos publicados pela Marxism Today entre 1978 e 1988, uma reforma do próprio Partido Trabalhista inglês, então a principal alternativa ao thatcherismo. Além disso, Hobsbawn estava preocupado com o debate internacional sobre o papel da esquerda declarando-se filiado à tradição cuja base é a obra de Marx, Lênin e as resoluções do VII Congresso Mundial da Internacional Comunista: o combate ao fascismo e a defesa da luta política das frentes populares; “a falta de confiança é o fantasma que assombra a esquerda“, dizia. Os anos passam e ele continua cada vez mais crente na ideia socialista: “se não acreditamos que a busca descontrolada de vantagens particulares, através do mercado, produz resultados antissociais, obviamente catastróficos; se não acreditamos que o mundo hoje clama por controle e gerenciamento públicos e por planejamento dos negócios econômicos, então não deveríamos nos considerar socialistas”. Na mesma ocasião, Kurz é o enunciador do conceito mais temido por dez entre dez economistas, o de crise da sociedade do trabalho. Diz Kurz: “Lembro-me muito bem como foi preocupante quando na Alemanha, no início da década de 1980, o desemprego ultrapassou pela primeira vez o limite de 1 milhão de pessoas. Hoje, essa cifra seria uma notícia de sucesso”. A revolução de Kurz é mostrar que o desemprego que se vê por toda parte não se trata de um fenômeno cíclico mas normal do movimento capitalista, o fato de que já vivemos o colapso do trabalho em escala planetária. “Isso quer dizer que as cifras do desemprego não se reduzem na fase de recuperação cíclica da conjuntura, mas ao contrário, elas ainda se ampliam”. E, finalmente: “Hoje parece, ao contrário, que entra em crise o processo de transformação do trabalho em dinheiro, o que Marx chamava de trabalho abstrato, isto é, o dispêndio de cérebro, nervos, músculos na forma social de dinheiro, e assim, na reprodução do homem no contexto de trabalho-dinheiro-consumo de mercadorias – essa conexão do trabalho com o dinheiro é histórica e de forma alguma supra-histórica”.

Hobsbawn viu que o neoliberalismo estava vencendo porque sequer o Partido Trabalhista inglês estava conseguindo sair de sua estagnação no final dos anos 1970. Ele viu que somente transformando-se em um amplo partido popular haveria alguma chance de combater o thatcherismo na Inglaterra. Propôs então as quatro metas para o Partido Trabalhista: convencer as pessoas de que elas queriam o que o Partido representava; mostrar que a política do Partido Trabalhista não era apenas desejável, mas realista; que o Partido Trabalhista representava efetivamente todos os trabalhadores; e que o trabalhismo tinha esperança na Inglaterra. Em 1987, vendo que a posição do Partido estava melhorando, mas não o suficiente, enunciou sua última estratégia: “votar no candidato que estiver mais bem colocado para afastar o candidato conservador. Quem quer que diga outra coisa, por mais sincera que seja, estará traindo o povo britânico, sem falar na democracia e no movimento trabalhista”. Nessa época e um pouco depois, como seguidor e contestador do marxismo, Kurz dedica-se aos vinte volumosos estudos do grupo da revista Krisis, anteriormente chamada de Marxistiche Kritik, publicados a partir de 1986. Torna-se escritor de grande sucesso e interlocutor privilegiado de expoentes do pensamento alemão como H.M Enzesberger, Ernest Lohoff e Peter Klein, com quem vem discutindo os conceitos marxistas de “fetichismo” e “valor”. Inspirando-se em Marx, Kurz reconhece a lógica do valor como o centro da atual crise do capitalismo – aliás, ele foi o primeiro a antecipá-la. Crítico ferrenho do processo que levou a reunificação das duas Alemanhas, analista em profundidade das causas da crise Argentina e, finalmente, um brilhante analista das formas de apropriação da subjetividade pelo capitalismo, suas teses enfatizam a ideia de que a história humana tem sido a história de relações fetichistas que não possibilitam a construção de nenhum sujeito social.

Enquanto pipocavam estudos fragmentários sobre a evolução do capitalismo na obra de Kurz, ainda faltava no cenário literário uma obra de peso sobre o século XX, o que Hobsbawn realiza com a publicação de A Era dos Extremos, onde, através de um balanço de suas maiores expressões no período – os regimes políticos, sociais e econômicos –, oferece um panorama crítico dos efeitos gerados pela crise do capitalismo liberal burguês iniciado em 1914. Sua história do século XX mostra que o capitalismo atravessou uma fase de colapso até os anos 1940 e uma posterior, com o florescimento do capitalismo liberal e um retorno a crise, nos anos 1980 que leva a queda do império comunista, i.e., o que caracteriza sua obra é a dialética da relação capitalismo-comunismo. Com notável astúcia, ele observa que a sociedade capitalista burguesa gera seu oponente, a sociedade comunista, e que esta termina por salvar o próprio capitalismo após a Segunda Guerra, “o que quer que Stálin tenha feito aos russos, ele foi bom para o povo comum do Ocidente”, diz Hobsbawn. O tom simpático à Revolução Russa foi criticado por inúmeros historiadores como K. Pomiam e M. Mann: para Hobsbawn “o marxismo oferecia a esperança do milênio”.

As mortes de Kurz e Hobsbawn deixam a esquerda de luto. Hobsbawn, mais do que Kurz, fez a mais perfeita combinação de paixão política e projeto político. Kurz, mais do que Hobsbawn, fez a mais completa dissecação dos processos simbólicos de alienação do capital. Ambos partiam de sua convicção do valor da obra de Marx; ambos veem o quadro de crise de sua época como fortalecedor de uma causa – a causa perdida de que fala Slavoj Žižek –, a necessária substituição de um sistema por outro; ambos ajudaram a recolocar a crítica das fronteiras entre capital e trabalho, existência e aparência e realidade e a simulação no campo da história, balizando leituras para a Guerra do Golfo, microeletrônica e as novas mídias – em suma, garantiram à esquerda de que é preciso fundar um novo pensamento para compreender a globalização, caso contrário, estaremos condenados a “um mergulho numa era de trevas”. Seu duplo desaparecimento deixa a esquerda órfã de um pensamento original e criativo que assumia a tarefa de atualizar o marxismo. Não podemos esquecer sua lição, a que devemos procurar na crítica sofisticada do capitalismo do tempo presente a atualização dos conceitos de ideologia e de fetichismo de Marx. E desvelar a alienação capitalista é cada vez mais urgente no momento em que vemos a emergência do exemplo chinês, onde o capitalismo descobre que é possível acumular abandonando por completo a noção de direitos humanos, e o pior, que isso está se tornando o grande ideal da direita. É preciso continuar deste ponto em que pararam, urgentemente.

Jorge Barcellos é historiador, Doutorando em Educação/UFRGS. Mantém o blog filosofiafrancesacontemporan.blogspot.com



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