O MNU e o fortalecimento do sujeito político negro no Brasil
O surgimento do MNU foi resultado de encontros, debates e articulações feitas em todo o país, principalmente entre jovens negros universitários, operários, militantes de religiões de matriz africana, jornalistas e mães de vítimas da violência policial
O surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU), em 7 de julho de 1978, na escadaria do Theatro Municipal de São Paulo, marca uma virada histórica na luta antirracista brasileira. Aquela manifestação pública, convocada após o assassinato de Robson Silveira da Luz por policiais militares e a proibição de negros entrarem em um clube por “uso indevido de trajes de banho”, não foi apenas um ato de denúncia: foi um marco inaugural de um novo ciclo de organização negra no país, gestado no contexto do fim da ditadura militar.
Inspirado por experiências anteriores — como o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, os congressos do movimento negro nos anos 1970 e as lutas dos Panteras Negras e do Black Power nos Estados Unidos —, o MNU nasceu da articulação de diversos grupos e lideranças que compreendiam a necessidade de uma frente unificada, autônoma e radicalmente antirracista. A proposta era clara: romper com o silêncio imposto pela ditadura, enfrentar o racismo estrutural e construir um projeto político negro no Brasil.
O MNU não surgiu do nada. Ele foi resultado de encontros, debates e articulações feitas em todo o país, principalmente entre jovens negros universitários, operários, militantes de religiões de matriz africana, jornalistas e mães de vítimas da violência policial. O documento de fundação do movimento: o Manifesto do MNU: é uma peça histórica contundente: denuncia o mito da democracia racial, a omissão do Estado, a violência cotidiana contra o povo negro e reivindica ações concretas nas áreas da educação, cultura, segurança, moradia e participação política.
A partir da sua criação, o MNU espalhou-se por diversos estados brasileiros, com núcleos em Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Belém, Campinas e Brasília. Tornou-se referência para a organização do movimento negro contemporâneo e inspirou o surgimento de diversas outras entidades, como o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Geledés – Instituto da Mulher Negra, o Coletivo de Entidades Negras (CEN), além de fortalecer as bases para organizações quilombolas, estudantis e políticas que seguem atuando até hoje.
A maior herança do MNU, no entanto, talvez esteja na invenção do sujeito político negro no Brasil: não mais como vítima isolada do racismo, mas como agente coletivo, organizado, com identidade, voz e projeto.
No surgimento do MNU, duas correntes de opinião disputavam a hegemonia por meio de debates políticos e teses estruturadas: Raça e Classe, e Raça e Território.
Raça e classe: o racismo como motor da desigualdade
Uma das contribuições centrais do Movimento Negro Unificado (MNU) foi a articulação das teses de raça e classe, rompendo com a falsa dicotomia que tentava subordinar o combate ao racismo à luta de classes. O movimento denunciou uma lógica comum à esquerda branca: a de que o racismo seria um “problema secundário” do capitalismo, algo que se dissolveria automaticamente com o fim da exploração de classe. O MNU mostrou o contrário: que o racismo não apenas precede, mas estrutura a forma como o capitalismo opera nos países de herança colonial. O negro pobre não é apenas um trabalhador explorado: é um corpo desumanizado, descartável e permanentemente vigiado.
A população negra sempre ocupou a base da pirâmide social no Brasil. Da escravização ao subemprego, da informalidade forçada ao encarceramento em massa, a trajetória do povo negro foi marcada por formas específicas e racializadas de exploração. O MNU demonstrou que não há como compreender a classe trabalhadora brasileira sem racializá-la: a classe tem cor. Ignorar essa dimensão é reforçar a invisibilidade do sofrimento negro e legitimar uma política de classe sem o povo negro como sujeito.
Mais que isso, o MNU revelou como o capitalismo brasileiro se apoiou na racialização da desigualdade: o mito da democracia racial serviu como cortina de fumaça para ocultar as hierarquias impostas à população negra, fazendo com que a violência sistêmica parecesse acidental, e não estrutural. O acesso ao trabalho formal, à moradia digna, à educação de qualidade e à cidadania sempre foi condicionado e instável para os negros: e isso não é uma falha do sistema, é a sua engrenagem.
Na contramão desse diagnóstico coletivo, assistimos hoje à ascensão de discursos que celebram o sucesso individual como resposta ao racismo. No universo do trap — território simbólico onde a performance da riqueza, da ostentação e da mobilidade social é constante — há uma tentativa de mostrar que vencer é possível, desde que o indivíduo se esforce, empreenda, “hustle”. Embora essa estética da superação possa oferecer autoestima e visibilidade, ela se torna perigosa quando substitui a crítica estrutural por uma lógica meritocrática.
Esse discurso é frequentemente abraçado por intelectuais e influenciadores liberais negros, que promovem uma agenda centrada no empoderamento individual, na ascensão via consumo e no empreendedorismo como salvação. Essa visão, embora sedutora, reproduz o que o MNU sempre denunciou: a ideia de que é possível vencer o racismo sem enfrentar o capitalismo. Ela ignora que a experiência negra é, em sua essência, atravessada por raça e classe: e que só pode ser transformada por meio de lutas coletivas, e não por manuais de enriquecimento pessoal.
O risco dessa política da exceção: do “negro de sucesso” que virou empresário, influencer ou artista: é consolidar um novo tipo de invisibilidade: a do povo negro que continua empobrecido, explorado, criminalizado. A exceção, ao ser celebrada, normaliza a regra. E a regra continua sendo a exclusão da maioria.
Por isso, retomar as teses do MNU hoje é fundamental. Num momento em que a luta antirracista é diluída em campanhas publicitárias, cursos de “letramento racial” esvaziados e discursos sobre “diversidade” nos conselhos administrativos das empresas, é preciso reafirmar que não há justiça racial sem justiça social. E que o verdadeiro letramento racial exige uma crítica ao sistema que se alimenta da desigualdade, da exploração e do silenciamento dos corpos negros.
A experiência negra é coletiva, histórica e política. E sua libertação só virá se enfrentarmos, juntos, o racismo e o capitalismo.
Raça e território: o mapa do racismo brasileiro
O Movimento Negro Unificado (MNU) foi pioneiro ao articular a relação entre raça e território, antecipando debates fundamentais sobre o direito à cidade, o racismo ambiental, a justiça espacial e a soberania dos povos negros sobre seus modos de viver. Desde seus primeiros anos, o movimento denunciava a militarização das favelas, o genocídio da juventude negra e a negação sistemática de serviços públicos aos territórios periféricos. A luta contra o racismo era também: e profundamente: uma luta por moradia digna, mobilidade urbana, saneamento, regularização fundiária, acesso à terra, à água e ao ambiente saudável. Era, sobretudo, a luta pelo direito de existir em todos os espaços da cidade, não apenas como força de trabalho, mas como sujeitos de pleno direito.
Mais do que uma crítica à desigualdade urbana, o que o MNU propunha era uma leitura política e radical do território como campo de disputa racial. As ausências e violências que marcam o cotidiano da população negra: a falta de saneamento básico, a precariedade no transporte público, a ausência de equipamentos culturais, a criminalização das favelas, as remoções forçadas e a presença ostensiva de forças policiais: não são falhas do Estado, mas expressões de um projeto político de dominação. Um projeto que se baseia na manutenção da geografia da desigualdade.
Os números gritam. Segundo o Atlas da Violência 2024, 76,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Nos grandes centros urbanos, como Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, os bairros com maior taxa de homicídios coincidem com os territórios de maior concentração negra. A depender do CEP, a expectativa de vida pode variar até 20 anos. Em Salvador, por exemplo, enquanto em bairros nobres como a Graça e o Horto Florestal a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos, em bairros periféricos como Nordeste de Amaralina, Calabetão e São Cristóvão, ela pode cair para 60 ou menos.
A violência letal, contudo, é apenas uma face do racismo territorial. A ausência de saneamento básico é outra. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS/2022) mostram que cerca de 100 milhões de brasileiros vivem sem acesso à coleta de esgoto, e 35 milhões sem acesso à água tratada: a maioria em territórios periféricos, majoritariamente negros. A exposição prolongada a esgoto a céu aberto, lixo acumulado e poluição hídrica impacta diretamente a saúde da população, com aumento de casos de doenças infecciosas, dermatológicas e respiratórias.
Essas condições precárias são reforçadas pelo racismo ambiental, conceito que ganha cada vez mais visibilidade nas denúncias feitas por movimentos negros, indígenas e periféricos. O termo descreve como populações racializadas são desproporcionalmente expostas a riscos ambientais: como enchentes, deslizamentos de terra, poluição industrial e escassez hídrica: sem acesso a mecanismos de proteção, compensação ou prevenção. O massacre de Maceió causado pela Braskem, o envenenamento dos rios no Vale do Ribeira (SP) e o abandono das vítimas das chuvas no Sul da Bahia são exemplos contemporâneos de um padrão antigo: a vida negra vale menos, até para o meio ambiente.
Essa compreensão territorial do racismo também alcançou o campo. O MNU sempre esteve ao lado das comunidades quilombolas, pescadores artesanais e populações negras rurais, cujos modos de vida, ligados à terra e à ancestralidade, são sistematicamente ameaçados por grileiros, grandes empreendimentos do agronegócio e projetos de “desenvolvimento” que não reconhecem seus direitos. Segundo o INCRA, até 2023, apenas 7% dos territórios quilombolas identificados haviam sido titulados. Esse é um reflexo do racismo institucional que nega aos povos negros o direito à terra, à memória e à permanência.
O território, para o MNU, é mais do que chão. É também memória, identidade, cultura e horizonte de futuro. Inspirado por figuras como Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Hamilton Cardoso, Luiza Bairros e Milton Barbosa, o movimento construiu uma identidade negra coletiva, que não se submetia à lógica da mestiçagem imposta pelo mito da democracia racial. Nas palavras de Lélia Gonzalez: “a ideologia da democracia racial é o mito fundador do racismo à brasileira”. Contra esse mito, o MNU afirmou o orgulho negro como projeto de libertação, enraizado no corpo, na terra e na história.
Mais do que um movimento, o MNU foi, e segue sendo, uma escola política. Dele saíram lideranças que hoje ocupam partidos, universidades, parlamentos e organizações sociais. O movimento formou uma geração que compreendeu que não basta resistir: é preciso propor. Que não basta nomear o racismo: é preciso enfrentá-lo com organização, estratégia e construção coletiva.
Hoje, quase meio século depois de sua fundação, as teses e práticas do MNU continuam atuais. Em tempos de retrocessos, apagamentos e disputas identitárias esvaziadas de sentido histórico, lembrar o legado do MNU é reafirmar que a luta antirracista no Brasil tem chão, tem história, tem projeto e tem lado.
Viva o surgimento e o aniversário do Movimento Negro Unificado!
Herlon Miguel é bacharel em Administração e mestrando em Gestão de Tecnologias Aplicadas à Educação pela Universidade do Estado da Bahia. Produtor cultural com ampla atuação em políticas públicas, é idealizador da plataforma Ative, voltada à formação e lançamento de autores e autoras negras, e fundador do Negrito LAB, iniciativa dedicada à comunicação e ao pensamento crítico sobre raça, cultura e política. Coautor do livro Amar pode ser perigoso, integrou a Coordenação Nacional do Movimento Negro Unificado.

