O novo rosto da periferia - Le Monde Diplomatique

CIÊNCIA

O novo rosto da periferia

por Ferréz
8 de agosto de 2007
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Exclusão, consumismo, violência. Mas, apesar da ordem social conspirar contra, a moçada dos arredores da cidade grande não está parada. Toda semana, organiza, no mínimo, dois saraus. Todo mês, promove um lançamento de livros. E dá o seu recado

Agora é assim, simples assim, a periferia está na moda.

Mas que moda é essa que não traz evolução para seus moradores? Que moda é essa que traz crime, abandono e o cheiro insuportável do córrego a céu aberto?

É estranho falar em moda pra quem só sabe pegar ônibus lotado, deixar seu lar de madrugada e voltar à noite, quando todos já estão cansados demais para viver.

E a juventude é a que paga o maior preço, veja os índices de violência para conferir a idade das vitimas.

Um dia destes fui, junto com um amigo meu bem jovem, ao Bom Prato, gosto de conferir os fatos, e esse projeto tão lembrado durante a campanha política merecia uma atenção especial. Cada um faz seu paternalismo de um jeito.

Lá a realidade é só uma, saquinho com farinha de mandioca no bolso pra misturar com a comida, gente que chega às 10 da manhã com medo de perder a fila. Um senhor logo começa a falar comigo e me pergunta por que eles não dão também a janta nem o café da manhã.

Eu balanço a cabeça e finjo não saber a resposta, enquanto não tiro os olhos daquele senhor, que na pele mostra o tanto que já sofreu.

E não é só isso: o que será que eles comem no sábado e no domingo? Então, antes de terminar meu prato com arroz, feijão e bife, eu pergunto pro meu amigo, ele responde com uma palavra: pão.

Por um momento penso que a sobremesa do Bom Prato bem que podia ser um livro.

Paro a viagem, vou pegar a real sobremesa, uma mexerica com a casca difícil de tirar, saio de boa e foi aí que olhei o tamanho da fila, motoboys, jovens com pipas nas mãos, donas de casa com seus filhos.

Encontrei outro amigo e logo começamos a falar. Veio o assunto desemprego, a conclusão no final da nossa conversa foi que pouca coisa mudou, quem tem mais estudo e alguém para indicar até pode arrumar alguma coisa, mas a maioria dos meninos e meninas daqui está literalmente fora do mercado de trabalho, e não há nenhum plano governamental nem da própria população para que isso mude.

Também com a Copa de 2010 vindo aí, não vai ter tempo mais pra nada tão superficial.

Dou um abraço no amigo e saio, no farol meus iguais fazem malabarismo pra viver, alguém dá uma moeda, os vidros aqui não são tão escuros e nem vivem fechados, sorte da molecada, que cruza olhares e consegue arrecadar mais.

Assim é a periferia, espalhada por toda a cidade, de um canto a outro, sempre empurrada mais pra lá. A vida aqui é outra, se você não a vive não sabe do que se trata, e não é livro, nem filme, nem este texto que vai lhe dar a visão, somente vivendo a gente aprende.

Tudo virou comércio, o sonho do menino do gueto não é mais ser. Pergunta pra ele se quer ser médico, advogado. Que nada, ele quer é ter; tênis Nike, blusas Tommy Hilfiger, calças Adidas.

Enquanto o empresário põe chips no seu gado, crianças perdidas não valem uma casa de abrigo.

Genival veio me dizer um dia que não tem espaço pra coisas positivas na mídia, eu aprendi com você, Genival, vende-se tanta revista Caras, vende-se tanta Tititi, vende-se tanto porque eles são os ricos que meu povo adora.

O tema se tornou recorrente, favela, violência, seqüestro, roubo.

Mas na propaganda do disque-denúncia é só seqüestro, crime contra pobre não conta, não adianta denunciar, a gente quer é seqüestrador.

Eu sei que todos falam da guerra, mas, se isto é uma guerra, por que não vejo vencedores, nem ontem nem agora?

Consumismo desenfreado, pra não ficar chateado, toma o meu cartão, compra algo, e quem não tem? E quem está da ponte pra cá faz o quê?

Enchemos os olhos com uma mídia que não nos representa, assistimos programas que não nos mostram, e, no final, algumas perguntas: Qual o tamanho do seu sonho? Ele tem 2 ou 4 rodas? Tem estilo? É azul-metálico? É slim? Digital, prata, veloz? Talvez seja leve, fácil de transportar e de teclar, pode ser de esquentar, também pode ser que ele frite coisas, ou só as cozinhe, mantendo assim as proteínas. Talvez você o leve no pulso. Talvez você o coma. Seu sonho dá para enrabar? Talvez você monte nele, seu sonho seria um par de olhos? Belos e fixos dentro da sua alma?

Más notícias pra você, felicidade não vem com nota fiscal, apesar do que falam.

Um sorriso sem graça

E o que restou no fim da festa foi só um campo de futebol, você sem camisa jogando num time de várzea, chegando em casa todo suado, abrindo a geladeira e não vendo nada pra comer, então você vai pra outro cômodo daquele barraco, separado por um lençol que faz papel de cortina, e chega ao quarto onde sua mãe dorme bêbada, para tentar esquecer um pouco da tristeza da sua rua, também cheia de barracos e de mulheres e homens desesperançados, onde reinam jovens que sonham com uma vida melhor, até acordarem para a realidade.

E o que restou no fim da festa? Um sorriso sem graça, mais um barraco onde devia ser uma praça, mais um político que não voltou na quebrada.

Estou falando do que vejo, um monte de gente indo pro mesmo caminho, fila pra emprego, tráfico, roubo de gravata ou sem, é tudo a mesma coisa, só diminui ou aumenta o grau de humilhação, no final uma coisa sustenta a outra.

E dão um código de ética para nossos jovens periféricos, nos colocam uma lei para seguir, e toda a cultura criminal distorce o nosso lado humano.

Falam em matar, falam em palavras que não fazem curva, mas só atiram em iguais, somente um motivo banal, qualquer coisa e, bum!, acabam com uma vida, outro jovem sangra na sul.

Mas, nos muros de todo o morro, nomes de políticos, uma esmola sequer, e lá estão vocês envolvidos, não vêem que eles são os reais inimigos? Com seus ternos caros, suas caras de porcos, suas mentes mais sujas que os córregos que nos cercam? Eles são os inimigos, são os mentores por trás de toda esta miséria, toda esta violência.

Vamos fazer um acordo? Vamos ensinar nossos jovens a parar de matar a esperança, distribuir o falso troféu de uma vida curta, alimentando esta cadeia de parasitas, que só vê a gente traficando, que só vê a gente se prostituindo, quando na verdade lá não tem mais gente honesta do que aqui.

Massa cheia de virtudes

Toda semana tem no mínimo dois saraus, todo mês tem lançamento de livros aqui. Tudo bem que os livros são artesanais, acabamento precário, e muitas vezes não têm tiragem superior a 100 exemplares, mas eles se contrapõem ao livro que o projeto cultural do banco faz com o nosso imposto, livros de capa dura, páginas espessas, cores em alta definição, livros pesados e desajeitados, que trazem, em edições caras, páginas especializadas em vinhos. Tirar verba do transporte, da saúde, da educação, pra dar um livro tão grande a algum cliente para que se masturbe mentalmente deve valer alguma vaga num possível inferno, pode ser até o de Dante.

Deste lado, uma massa gigantesca, mas cheia de virtudes e de certezas, acordando de madrugada e enchendo os ônibus, rumo a uma cidade melhor, mais bem estruturada e cuidada, mas depois vão voltar, quando o suor tiver sido dado, quando o filho do patrão tiver sido alimentado, a roupa passada, a mistura na mesa, a segurança realizada, aí sim, o pobre pega o ônibus e retorna para chegar em casa e não ter uma mistura na mesa, não ter uma boa escola e não ter segurança.

A gente só vê o que quer, mas ninguém aqui está com a razão, ela já fugiu deste país há muito tempo.

Uma coisa não legitima a outra, mas opressão demais não cheira bem. Não sei muita coisa não, mas tenho certeza que, se tem de escorrer tanto sangue por isso, se vamos morrer, que seja por rasgar a Constituição, afinal ela só serve pra quem tem dinheiro.

A nossa vida não tem de ser uma filial do Afeganistão, se tiver de ter uma guerra que seja contra quem oprime e não contra outros oprimidos.

Um dia a gente vai entender por que o nosso ensino é atrás das grades, por que é mais barato sermos treinados segurando uma pistola e matando outro periférico do que estudando algo útil.

Caixinhas, todos somos separados em caixinhas, mas a pergunta é: quem embala tudo isso?

*Ferréz é escritor. Autor dos livros Capão pecado, Manual prático do ódio, Amanhecer Esmeralda e Ninguém é inocente em São Paulo, todos pela Editora Objetiva.



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