O papel das pesquisas no processo democrático - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES 2010

O papel das pesquisas no processo democrático

por Márcia Cavallari Nunes|Silvia Cervellini
1 de julho de 2010
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Há quem defenda proibir a divulgação de pesquisas durante a campanha, mas essa seria uma medida muito antidemocrática já que privaria o eleitor comum de informações. As pesquisas continuariam, porém quem saberia de seus resultados seriam apenas os contratantes: partidos e empresasMárcia Cavallari Nunes|Silvia Cervellini

Uma das perguntas mais recorrentes a respeito da divulgação de pesquisas eleitorais é sobre qual é o grau de influência que as pesquisas têm na decisão dos eleitores. A resposta é uma só: não existem, em todo o mundo, estudos conclusivos sobre o assunto. As pesquisas são apenas mais uma informação disponível para os cidadãos durante todo o processo eleitoral. A ela somam-se as notícias divulgadas em jornais, a propaganda eleitoral gratuita, o desempenho dos candidatos em debates ou programas de entrevistas, os programas de governo e mesmo o carisma individual de cada candidato. Para escolher em quem votar, o eleitor considera cada um desses fatores, somado à opinião de pessoas de seu convívio social.

 

Neste contexto, as pesquisas são apenas informações que o eleitor pode utilizar de formas diferentes. Há quem vote no candidato que está na frente para que a eleição termine no primeiro turno, mas também há os que votam no candidato que está em segundo lugar para evitar a vitória de quem está na frente, e ainda existem aqueles que optam por votar em um terceiro candidato para que nenhum dos dois primeiros ganhe. O IBOPE Inteligência já fez estudos para medir quais atitudes são adotadas por qual parcela da população, a partir das informações divulgadas em uma pesquisa eleitoral e o resultado não apontou para nenhuma direção específica. Ou seja, cada cidadão utiliza a informação disponível na pesquisa da forma que achar mais conveniente.

 

Num regime democrático, quanto mais informações o eleitor tiver à sua disposição para tomar a decisão, mais racional e embasada será a sua escolha. Acompanhando esse processo desde a redemocratização do Brasil, o IBOPE Inteligência tem percebido que o cidadão brasileiro está cada vez mais consciente da importância do voto e do seu papel nesse processo. Ele já vivenciou diversas conquistas, desde a abertura da economia no governo de Fernando Collor, ao controle da inflação com Itamar Franco e à estabilização da moeda com Fernando Henrique, até a conquista de benefícios sociais e o aumento do poder aquisitivo da população durante o governo Lula. Tudo isso já faz parte do dia a dia do cidadão, que não admite mais retrocessos. A expectativa da população é a de que o próximo governo dê continuidade a todos esses avanços e é esse o desafio dos candidatos para encontrar o discurso que deverão incorporar às suas campanhas se quiserem conquistar a confiança da população.

 

Papel das pesquisas

 

Há quem defenda proibir a divulgação de pesquisas eleitorais durante a campanha, mas essa seria uma medida extremamente antidemocrática, já que privaria o eleitor comum de informações sobre o processo político-eleitoral. As pesquisas continuariam sendo feitas pelas empresas de pesquisa, mas quem tomaria conhecimento de seus resultados seriam apenas os contratantes: partidos e empresas interessadas em financiar campanhas. 

 

Os estudos divulgados são apenas uma parte de todas as pesquisas eleitorais realizadas, contratadas principalmente por veículos de comunicação, associações de classe ou partidos políticos. Esses estudos trazem informações sobre intenção de voto espontânea e estimulada – quando é apresentado um disco com o nome dos candidatos –, avaliação dos atuais governos e, em alguns casos, assuntos e áreas prioritários para a população.

 

Entretanto, o trabalho do IBOPE Inteligência – e de outras empresas de pesquisa – com a campanha eleitoral começa aproximadamente um ano antes das eleições, em estudos feitos sob medida para partidos políticos, entidades de classe ou mesmo empresas privadas. Este período é chamado de primeira fase da campanha, quando são feitas pesquisas específicas para cada cliente com o objetivo de avaliar a viabilidade política dos partidos e de seus candidatos. Os questionários são mais longos, complexos e estratégicos, para que seja possível mapear o contexto eleitoral em termos sociopolíticos e econômicos antes mesmo da definição dos candidatos à eleição. A partir do levantamento das demandas e expectativas da população, são feitos estudos de viabilidade e potencial de candidaturas, que auxiliam os partidos a escolherem seus candidatos e suas coligações. Do ponto de vista técnico, nessa fase são realizadas principalmente entrevistas em profundidade com formadores de opinião, discussões em grupos com eleitores e pesquisas quantitativas sobre temas relevantes para a sociedade.

 

Essa fase se estende até a definição oficial das candidaturas, que ocorre nos meses de junho e julho em anos eleitorais. A partir dessa oficialização até o início da propaganda eleitoral gratuita na televisão, as pesquisas realizadas para os partidos visam auxiliar no planejamento da campanha, identificando pontos fortes e fracos dos candidatos, alinhando propostas e argumentos. Apenas com o início da propaganda eleitoral gratuita é que começa o monitoramento das campanhas. Nessa terceira etapa, as pesquisas procuram avaliar os programas eleitorais dos candidatos e monitorar a intenção de voto da população diariamente por meio de trackings telefônicos. São medidos a eficácia da comunicação dos candidatos, o desempenho individual nos debates e o impacto de fatos novos na campanha eleitoral. Essa fase se estende até o dia da eleição.

 

A divulgação das pesquisas eleitorais tem, sim, influência na motivação dos partidários de uma campanha e no espaço dado pela mídia a cada candidato. O IBOPE Inteligência é questionado frequentemente sobre o favorecimento a determinado partido ou candidato, o que não corresponde à realidade. A empresa atende a todos os partidos em todo o território nacional. Para garantir a credibilidade da informação fornecida aos clientes – que por sinal é o maior patrimônio de uma empresa de pesquisa – são destacadas equipes distintas e independentes para atender a partidos concorrentes; assim evitamos o compartilhamento de dados estratégicos de uma campanha para outra.

 

Diferenças metodológicas

 

Nos últimos meses, as pesquisas divulgadas pelos principais institutos de pesquisa sobre a sucessão presidencial foram questionadas por apresentarem resultados com diferenças que, mesmo quando dentro dos intervalos das margens de erro amostral, parecem “contar histórias” diversas sobre este período da pré-campanha eleitoral. Isso, segundo os críticos, confundiria os que se valem das pesquisas eleitorais para compreender os movimentos do eleitorado, incluindo os próprios eleitores que seguem o noticiário político.

As razões para tais diferenças são basicamente de duas ordens:

 

 Diferenças metodológicas: há empresas que realizam entrevistas domiciliares, outras o fazem em pontos de fluxo. Além disso, existem diferentes fontes de dados, peso do eleitorado por unidade geográfica, formulações de pergunta e mesmo ordem das perguntas no questionário.

 

 Diferenças de contexto: o que estava acontecendo no cenário político no período em que o trabalho de campo foi realizado.

As diferenças metodológicas entre os principais institutos brasileiros referentes aos planos amostrais, ou seja, como é desenhada a amostra que será utilizada na pesquisa para representar a população estudada (seja no país, estado ou município) são tecnicamente mais complexas, mas tendem a gerar diferenças percentuais dentro das margens de erro das respectivas pesquisas e muito raramente apontam tendências inversas, se os trabalhos de campo foram realizados simultaneamente.

 

Já as diferenças metodológicas relativas aos questionários podem ser um dos fatores que mais explicam as possíveis divergências observadas nessa pré-campanha presidencial. Existem aqui duas correntes de pensamento, uma que diz que estimular o eleitor a pensar sobre como avalia o atual governo, refletirá melhor na escolha do candidato em que irá votar nas próximas eleições e outra que acredita que esse será um aprendizado adquirido ao longo da campanha e que não deve ser antecipado. É exatamente por isso que a legislação eleitoral brasileira exige que o instituto entregue o modelo de questionário utilizado quando registra uma pesquisa para divulgação, para que todas as informações possam ser contextualizadas e corretamente interpretadas.

 

Há, ainda, diferenças de contexto no período de realização das entrevistas e esse fator ganha relevância nessa fase de pré-campanha, caracterizada pela volatilidade: as atenções do eleitorado não estão ainda focadas na disputa eleitoral (o eleitor está mais suscetível a estímulos e o efeito destes é temporário); as informações sobre as candidaturas ainda estão sendo geradas e disseminadas de forma desigual (no tempo, por candidatura e por segmentos do eleitorado); algumas decisões de forte impacto político são tomadas nesse período (candidaturas confirmadas, chapas, alianças). Assim, a diferença de alguns dias entre os trabalhos de campo de um instituto para outro pode gerar diferenças significativas de resultado.

 

Voltemo-nos, portanto, para as rodadas de pesquisas e observaremos que o “final da história” é o mesmo em todos os levantamentos: Dilma Rousseff consolidou-se como candidatura situacionista e, até o momento, apresenta certo favoritismo em uma disputa polarizada com José Serra.

 

Esse diagnóstico comum reflete um contexto, aí sim, bem mais consistente e estável do que os sucessivos momentos da pré-campanha. Chamamos a isso de contexto da disputa política, ou seja, em que terreno, sobre quais pilares, a escolha dos eleitores se dará? Todas as análises descrevem um contexto político marcado pelo forte desejo de continuidade das conquistas nas áreas econômica e social.

 

Mas o que podemos dizer sobre os efeitos dos contextos momentâneos das pesquisas de maio? Observando os resultados do Datafolha e do IBOPE Inteligência, por exemplo, verifica-se que o período de coleta de dados foi realizado em datas distantes, com contextos marcados diferentemente pelas veiculações das propagandas eleitorais do PT (programa em 13 de maio) e do DEM (programa em 27 de maio). Isso coloca duas possibilidades teóricas:

 

 O contexto fez diferença: nesse caso, o fato de ambos os institutos encontrarem o mesmo resultado (Dilma e Serra empatados) significa que Dilma teria continuado a crescer em cima do eleitorado de Serra caso o programa e os comerciais do DEM não tivessem sido veiculados.

 

O contexto não fez diferença: nesse caso a coincidência de resultados pode sugerir que se o Datafolha fizesse um campo nas mesmas datas do IBOPE Inteligência é possível que obteria outro resultado, em consequencia das diferenças na metodologia amostral.

 

Nossa opinião é a de que tenha ocorrido a primeira possibilidade, ou seja, as propagandas políticas tiveram seus efeitos e o empate que o IBOPE Inteligência encontrou já incorpora esse contexto. Para chegar a tal conclusão nós nos baseamos nos dados de audiência de televisão, especificamente nas estimativas de alcance (porcentagem de indivíduos diferentes de 16 anos ou mais que assistiram à transmissão) dos programas eleitorais do PT e do DEM, assim como das inserções dos dois partidos em abril e maio.

 

A estimativa é de que 83% dos eleitores (brasileiros de 16 anos ou mais) tenham sido expostos aos comerciais do PT e o mesmo percentual foi encontrado para os comerciais do DEM. Já o programa do PT alcançou 27% dos eleitores, contra 26% do DEM. O eleitorado, portanto, teve o mesmo nível de exposição à propaganda partidária de ambos os partidos.

 

Corroborando esses dados de mídia, quando perguntamos na nossa pesquisa se, “nas duas últimas semanas”, o entrevistado tinha assistido/ouvido comerciais ou programas em que aparecia algum dos candidatos a presidente o resultado obtido foi: Dilma Rousseff 24%, José Serra 23%, Marina Silva 11% e 67% declararam não ter visto/ouvido nada. Conforme poderíamos esperar, a exposição percebida/declarada à propaganda eleitoral é muito menor do que a estimada pelos dados de audiência, mas a equidade entre os dois principais candidatos nesse aspecto permanece.

 

Por outro lado, o cruzamento dessa pergunta com a intenção de voto estimulada sinaliza para um possível diferencial de impacto da comunicação do PT e do DEM no desempenho das suas candidaturas a presidente: entre quem declara ter visto Dilma em comerciais/programas ela obtém 33% dos votos contra 20% para Serra. Já entre quem declara ter visto Serra nas propagandas, há um empate de 40% a 41%.

 

Esse impacto diferenciado provavelmente resulta dos diferentes patamares de conhecimento dos dois candidatos, ou seja, para Dilma Rousseff a comunicação intensiva tem mais espaço para atuar, sobretudo no que diz respeito a marcá-la na cabeça do eleitor como a candidata do Presidente Lula e da continuidade.

 

Comportamento do eleitor

 

Como já foi explicado neste artigo, o eleitor está mais pragmático em suas escolhas eleitorais, referenciando sua decisão de voto na experiência eleitoral anterior, na avaliação do desempenho do governo atual e nas candidaturas que percebe como mais capazes de dar continuidade aos avanços que o Brasil obteve em vários aspectos, sobretudo na economia e na área social.

 

Esse pragmatismo crescente pode decorrer de um maior sentimento de eficácia política dos cidadãos no sentido de que ao longo das duas últimas décadas, eles vêm amadurecendo e percebendo cada vez mais que o voto tem consequências nas condições de vida da população. Ou seja, de fato, a prática da democracia parece ser a melhor educação política para a sociedade.

 

Nesse amadurecimento político, os eleitores passaram a perceber a continuidade de políticas públicas bem-sucedidas como fundamental para a melhoria da qualidade de vida. Em outras palavras, a continuidade de programas, ações e políticas bem-avaliadas passou a ser um valor para os eleitores, significando responsabilidade por parte dos governantes, em termos de respeito aos recursos e espírito públicos.

Esses fatores reforçam o maior envolvimento dos eleitores com o processo político-eleitoral, levando-os a se sentir mais incluídos na campanha e aumentando sua disposição em se informar sobre as questões propostas pelos candidatos e em votar.

 

Ao que tudo indica, a eleição será um bom exercício dessa participação dos eleitores, requererendo dos cidadãos mais atenção na escolha, já que terão que decidir qual dos candidatos será o mais adequado para dar continuidade ao trabalho de Lula.

 

Com o objetivo de entender melhor a escolha do eleitor, o IBOPE Inteligência realizou um estudo intitulado “Cenário Eleitoral 2010: Mudanças e Continuidades no Comportamento Eleitoral do Brasil Pós-Lula” no qual foram identificados quatro perfis atitudinais em relação à política do país.

 

O principal grupo foi batizado como “cada cabeça uma sentença” e reúne uma parcela grande da população brasileira que vota de acordo com seus interesses pessoais do momento. O importante, para esse eleitor, é entender que vantagem ele leva escolhendo um ou outro candidato. Os eleitores que se beneficiam de programas assistenciais e que esperam do governo uma atuação paternalista com o cidadão formam o grupo “meu governo, minha vida”. Mas há, também, eleitores mais moralistas, religiosos e tradicionalistas, que compõem o grupo chamado de “apegados”, e aqueles mais jovens, com maior renda, que formam o grupo dos “livres e antenados”.

 

Neste contexto eleitoral que se configura parece que fatores puramente atitudinais não são suficientes para explicar a intenção de voto nos principais candidatos, perdendo importância quando comparados com variáveis conjunturais, como a percepção da capacidade de o candidato dar continuidade aos programas e às ações do governo atual, o apoio/oposição a Lula, o nível de informação, a imagem dos candidatos e o alinhamento partidário dos eleitores.

 

Este estudo foi apresentado e premiado em abril, durante a 63ª Conferência Anual da Associação Mundial de Pesquisas de Opinião Pública.

Márcia Cavallari Nunes é CEO do IBOPE Inteligência.

Silvia Cervellini é diretora de atendimento e planejamento, também do IBOPE Inteligência.



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