O porquê de não se abster nas eleições municipais

Voto ou bala

O porquê de não se abster nas eleições municipais

por Marllon Motta da Rocha
4 de novembro de 2020
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Com aproximadamente 5.568 municípios, em duas semanas o Brasil passará pelas eleições municipais, na qual cada cidadão votará para eleger um ou uma prefeita e vereador ou vereadora. Neste momento, é importante que se faça valer o maior direito que temos de votar

Em 1964 o ativista negro estadunidense Malcolm X cristalizou o discursou “O voto ou a bala”. Em sua fala, de mais de 50 minutos, Malcolm discorreu sobre a urgência da comunidade negra norte-americana votar em líderes que fizessem políticas para a comunidade negra, a partir de suas vivências e demandas. Para ele, as políticas praticadas por congressistas brancos refletiam e sustentavam o racismo estrutural que perpetuava a subjugação racial nos Estados Unidos. Sendo assim, Malcolm X justificava sua ideia de um nacionalismo negro pela incapacidade do Estado norte-americano em governar para todos os seus cidadãos. Também em 1964, os Estados Unidos baniram o conjunto de leis segregacionistas que vigoravam sobre os estados do sul do país, conhecidas como Jim Crow, pela aprovação das Leis dos Direitos Civis. Resultado, em muito, da pressão social em seus sucessivos protestos.

Urnas eletrônicas – eleições municipais 2020 (José Cruz/Agência Brasil)

Em outubro de 2020, após um ano das manifestações que tomaram as ruas Chile, o país sul-americano votou pela estruturação de uma nova Carta Magna, deixando para trás o passado ditatorial e a sombra de Augusto Pinochet. Desde o fim dos regimes militares no cone sul, o Chile ainda vivia sob a constituição do regime liderado por Augusto Pinochet (1973 – 1990). Este momento marca a transição do país andino em direção a uma democratização mais plena Após uma luta construída a partir dos protestos da população chilena, as urnas foram convocadas e se decidiu que haveria uma nova constituinte, formada inteiramente por membros eleitos pelo voto popular para redigir a nova Constituição. Com isto, o Chile pretende assegurar que sejam contemplados nas novas diretrizes nacionais, direitos que comportem a maioria das cidadãs e cidadãos.

Com aproximadamente 5.568 municípios, em duas semanas o Brasil passará pelas eleições municipais, na qual cada cidadão votará para eleger um ou uma prefeita e vereador ou vereadora. Neste momento, é importante que se faça valer o maior direito que temos: o voto. Assegurado pela Constituição de 1988, o direito ao voto universaliza a participação política através do pleito. Neste momento, a população é convidada a opinar diretamente sobre os rumos da política, em três esferas: municipal, estadual e federal. Em 2020, concentram-se os esforços para definir quais políticas serão praticadas nos próximos quatro anos em suas cidades e, consequentemente, bairros.

É fato que o Brasil, atualmente, vive uma crise política generalizada. Experienciamos a contramão do progressismo na presidência do país. Não de hoje, a cúpula do governo age contra a população, principalmente, mais vulnerável socialmente: mulheres, negros, indígenas e pobres. Com a crise sanitária da Covid-19, ficaram mais evidentes as desigualdades sociais e como decisões políticas decidem quem vive ou quem morre. Desde resoluções sobre os rumos da quarentena até à privatização do Sistema Único de Saúde (SUS), a população foi constantemente testada e levada ao seu limite por uma política de cortina de fumaça. Enquanto medidas polêmicas foram levantadas e debatidas, outras foram aprovadas, saindo pela tangente do espetáculo criado.

Conforme explica Malcolm X, o voto ou a bala é autoexplicativo. Porém, também apresenta certa dualidade. Mais do que uma obrigação, votar é necessário porque podemos influenciar o nosso futuro de maneira direta. Se não há um voto consciente, que impacte na maneira de fazer política e que represente de forma mais ampla e objetiva a sociedade, a desigualdade continuará acertando corpos vulneráveis, em uma vida de subalternidade. Neste sentido, é preciso que seja difundida a ideia de líderes políticos que não apenas entendam as mazelas sociais, mas que venham do povo. É preciso que haja um amadurecimento político, para que a democracia seja exercida para e pela periferia. Os corpos periféricos não podem mais serem marginalizados para fins de expropriação.

De acordo com Aníbal Quijano, em seu texto “colonialidade do poder”, o projeto colonial criou grupos que são distribuídos socialmente a partir do referencial de raça. Estes grupos se relacionam em um movimento pendular, com o massa partindo da periferia em direção ao centro, porém apenas com função servil. Ou seja, uma elite é beneficiada política e economicamente, enquanto a massa populacional arca com os custos das más gestões e falta de políticas públicas que conversem com a realidade das sociedades brasileiras.

Abster-se da participação política, então, causa implicações comunitárias. Os resultados de nossas decisões nunca são recompensas ou punições. São consequências do ato. O voto ou a bala é sobre as minorias sendo oprimidas politicamente, exploradas economicamente e degradadas socialmente. E, portanto, superando a classificação de cidadãos de segunda classe por meio do voto.

Parafraseando Carolina de Jesus, os vizinhos das casas de tijolos dizem que os políticos protegem os favelados … Mas quem os protegem é o povo. (…) Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos candidatos. Alguns já são conhecidos. São reincidentes que já foram preteridos nas urnas. Mas o povo não está interessado nas eleições, que é o cavalo de Tróia que aparece de 4 em 4 anos.

Este desinteresse, contudo, é parte do projeto político que epistemologicamente conduz histórias que se repetem e retroalimentam a antipolítica. As eleições municipais servirão de termômetro para as próximas eleições, daqui a dois anos.

 

Marllon Motta da Rocha é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

 

Referência

The ballot or the bullet: https://www.youtube.com/watch?v=8zLQLUpNGsc

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder; 2005.



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