ONÇA-PINTADA VOLTA A SER REGISTRADA APÓS 50 ANOS

O que isso indica para a Mata Atlântica?

Aparição se deu no mês de julho em meio ao estado do Rio de Janeiro e levanta questões sobre as políticas de preservação ambientais

No final do último mês de julho, uma onça-pintada teve sua aparição registrada no Rio de Janeiro pela primeira vez em cinco décadas. As imagens foram captadas no Parque Estadual da Serra da Concórdia, na cidade de Valença, pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA).

De acordo com o órgão, a espécie não era detectada em meio ao território fluminense desde a década de 70. O monitoramento do animal começou a ser feito de forma intensiva em dezembro do ano passado, por meio de câmeras do pelo INEA e do projeto Aventura Animal, parceiro da Instituição.

A ideia do órgão é que, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a onça seja provisoriamente capturada para a realização de exames laboratoriais e a instalação de um colar de monitoramento.

O acompanhamento de animais, seja por meio de câmeras ou colares, é feito geralmente com duas finalidades: realizar um levantamento qualitativo das espécies que ocorrem em uma determinada área de estudo e um levantamento quantitativo, com o objetivo de descobrir quantos indivíduos existem de cada espécie detectada no local.

Atualmente, a onça-pintada é uma espécie ameaçada de extinção e, segundo o INEA, existem em torno de 300 delas em toda a Mata Atlântica. Conforme especialistas, esse desaparecimento se deve muito por conta do avanço urbano nas zonas de mata na região em questão.

O estado do Rio de Janeiro está inserido integralmente na Mata Atlântica. A estimativa da cobertura da floresta sobre o estado era de 98% em todo seu território, incluindo ecossistemas associados, como manguezais, restingas e campos de altitudes. Porém, hoje estima-se que a cobertura original é de apenas 18%.

Seu registro, com efeito, levanta questões sobre as políticas de preservação ambiental e reflorestamento na Mata Atlântica – que historicamente sofre problemas de devastação; o aparecimento da onça-pintada é um indício do caráter efetivo dessas medidas? Antes de tudo, vale ater-se aos processos históricos que originaram e sistematizaram a destruição do bioma, que hoje detém 24% de sua área original.

Mata Atlântica: mecanismos e políticas de destruição A devastação florestal da Mata Atlântica (bem como de outros biomas do Brasil) tem origem na forma de ocupação territorial e produção rural instauradas no período colonial brasileiro. Apesar da alternância dos ciclos econômicos nacionais – passando por produtos como pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, gado e café – é possível observar uma espécie de constância: a exploração direta e indireta dos recursos naturais brasileiros mediante ao desmatamento ambiental, em especial das regiões costeiras – justamente por onde se deu a invasão portuguesa e em que se localiza o bioma.

O pau-brasil foi o primeiro produto pelo qual os portugueses demonstraram interesse em terras brasileiras. Sua exploração foi tamanha que estima-se que cerca de 2 milhões de árvores foram derrubadas em seus primeiros 100 anos de exploração. Já em 1605, a Coroa Portuguesa começou a tomar medidas contra a sua escassez, espalhando guardas florestais pelas zonas de maior extração.

Os ciclos seguintes, da cana de açúcar, ouro e gado, também traduziram-se em ataques às áreas florestadas. Só no século XVIII, por exemplo, foram eliminados 30 mil km² de Mata Atlântica. Vale dizer, porém, que a política de preservação ambiental portuguesa foi capaz de preservar a cobertura vegetal brasileira, a exemplo da medida já referida dos guardas florestais e das ordenações Manuelinas e Filipinas.

O desmatamento brasileiro, então, se deu como um fenômeno de maior intensidade entre os séculos XIX e XX, coincidindo com a consolidação do ciclo do café. Seu cultivo migrou para o interior da Mata Atlântica, onde encontrou solos mais adequados, após devastar regiões como o Vale do Paraíba. Foi nessa quadra histórica, inclusive, que ocorreu a transição entre colonato e assalariamento. Este, porém, se estruturava em latifúndios cujo a mão-de-obra se pautava pela contratação de trabalhadores temporários (bóias-frias), o que resultava em um mercado de trabalho rural incapaz de atender ao excedente de mão de obra do campo.

Como consequência, trabalhadores sem-terra migraram para áreas florestadas, por meio de invasões e outras formas de conflito de terra, expandindo a fronteira agrícola. Essas “novas ocupações”, no entanto, seguiam a mesma lógica de concentração fundiária e trabalho sazonal, e repetia a sina de não conseguir acomodar o trabalhador rural, gerando um novo ciclo de migração para outras regiões de mata mais adentro – e assim por diante.

Com efeito, a Mata Atlântica teve sua devastação intensificada de modo a comportar esse excedente populacional rural, acomodando os conflitos de terra sem acabar com as dificuldades de acesso à propriedade por meio da efetivação de uma reforma agrária. Nessa toada, o bioma teve sua exploração acelerada principalmente a partir de 1920, após o término da Primeira Grande Guerra. A esse cenário se inseriram imperativos como de desenvolvimento industrial e econômico, justificando certas ações governamentais como a de entregar as florestas de araucárias a construtores anglo-americanos de ferrovias e seu incentivo ao extensivo cultivo de cacau entre os anos de 1970 e 1980.

Onça-pintada (Panthera onca) fotografado em cativeiro. Registro feito em 2014 | Jaguar photographed at zoo. Picture made in 2014.
Creédito: Instituto Últimos Refúgios/Wikimedia Commons

Mesmo considerada como patrimônio nacional pela Constituição Federal de 1988, a floresta seguiu sofrendo com obras públicas e privadas mal planejadas, o avanço das áreas urbanas, a exploração predatória, a mineração e a agricultura extensiva.

Como resultado, não foram perdidos apenas milhares de quilômetros de cobertura vegetal, mas espécies como onça-pintada são diretamente afetadas, ainda mais por necessitarem de grandes áreas contínuas e de boa qualidade, mas não só ela. A queixada e a anta também sofreram com a devastação da Mata Atlântica. Ambos, porém, foram avistados recentemente no estado do Rio de Janeiro, após cerca de 80 e 100 anos sem registro, respectivamente.

O registro e seus significados

Segundo o próprio INEA, o registro da onça-pintada “é resultado direto de diversas políticas públicas que a Secretaria de Estado do Ambiente e o Inea desenvolvem em todo o território fluminense”. De acordo com o órgão, o Rio de Janeiro é o único estado brasileiro que aumentou sua cobertura de vegetação nativa nos últimos 40 anos. A área florestada cresceu de 30% para 32% entre 1985 e 2024.

Quando procurado pela reportagem, o Instituto afirmou que a redução das florestas são um dos maiores desafios para a espécie. Assim, sua aparição muito se deve à estabilização dos remanescentes florestais e do aumento da cobertura vegetal a partir do advento das áreas protegidas. Depois de décadas, a floresta é novamente diversa e segura o suficiente para essa espécie. Isso porque a presença desse animal indica que há presas suficientes para sua alimentação em estoques aparentemente estáveis.

O biólogo Rafael Moura, mestre em Ciências Ambientais e Florestais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), porém, diverge da visão oficial do INEA sobre a aparição da onça. Para ele, o registro é positivo para os que trabalham com conservação da natureza, isso porque a onça-pintada é considerada uma espécie “guarda-chuva”, que oferece a proteção de áreas em que outros animais que são mais abundantes, mas menores e menos carismáticas, encontram segurança e recursos. Sua primeira aparição em cinco décadas, no entanto, não necessariamente indica algum tipo de mudança ambiental na região.

“O que estamos vendo de uns tempos para cá é o aumento significativo de pesquisas envolvendo a utilização de armadilhas fotográficas. Antes, se tinha apenas relatos de que em alguma região essa espécie ainda poderia ocorrer”, explica o biólogo. Com a sistematização desse tipo de monitoramento é natural que registros como esse ocorram cada vez mais – são justamente os casos da queixada e da anta, já citados, e que também são apontados por Rafael.

Ele ainda afirmou que seu aparecimento era de certa forma esperado, pois a tentativa de registrar esse animal no Rio de Janeiro em grandes áreas não é novidade.

O registro da onça-pintada no estado, após cerca de meio século, talvez não diga mesmo a respeito das novas políticas de preservação da Mata Atlântica, mas sim sobre suas nem tão antigas políticas de destruição.

 

Davi Rocha é jornalista.

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