PONTO DE VISTA MARCADO PELA CLASSE BURGUESA E PELA RAÇA BRANCA

O que Aurora Bernardini, Glória Perez e Paulo Barros têm em comum?

O que torna um povo amadurecido não são as guerras, o extermínio de outros povos e culturas, mas a capacidade de se reinventar com as mortes

Fotos da internet

Em entrevista à Folha de São Paulo do dia 30 de agosto de 2025, a professora aposentada da Universidade de São Paulo e tradutora, Aurora Bernardini, disse não ser literatura o que Itamar Vieira Júnior, Annie Ernaux e Elena Ferrante produziram. O argumento principal é que os três privilegiaram o conteúdo em detrimento de um estilo original, ou seja, a forma, a estética.

Esse julgamento de valor me fez ler o texto na Folha uma, duas, três, várias vezes. E, um elemento chamou-me a atenção. O autor da entrevista diz: “O porquê da tendência conteudista acometer o Brasil, Aurora não sabe pontuar, mas cautelosamente a relaciona ao que classifica como ‘um exagero’ por parte da crítica”. Bem, não é com tanta cautela assim. E, se ela não sabe o porquê, é preciso buscar, afinal, vive no país mais negro depois do continente africano, com um passado escravista que ainda se arrasta, contaminando todas as relações, desde o trabalho, à produção científica, aos padrões de beleza e a exclusão social. Depois disso, Aurora Bernardini fala em primeira pessoa:

“O passado não pode repercutir no presente como estão querendo. Esse fenômeno terrível do passado, a escravidão, não implica merecimento no presente. É preciso partir da igualdade de condições de conhecimento. Não se pode dar o mérito antes das condições”.

E, é aqui que o véu que cobria a face da suposta “neutralidade” ou “objetividade”, já superada nas Ciências Sociais, cai por terra. Vemos Bernadini desnudar-se e mostrar o que a incomoda realmente na literatura, em particular a de Itamar Vieira Júnior, que privilegiou um conteúdo que ela afirma não dever repercutir hoje. A sua ideologia, de querer jogar o passado escravocrata para debaixo do tapete ou omiti-lo na literatura, para dar lugar a temas “universais” (id este, branco) ou mais atuais, é tão escancarada que ela tomou o conteúdo, que retém não ser digno de merecimento, por ausência de forma. Ora, ora, ora! Que coisa interessante! Agora, vamos pegar o livro O presidente negro, de Monteiro Lobato. O conteúdo é racista, ele afirma que a segregação racial nos Estados Unidos é a saída, comparando com o Brasil, diz: “A nossa solução foi medíocre, estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável penhora de caráter”. Bem, estamos aqui diante de um conteúdo racista, que remete aos tempos da escravização, mas que, para a elite brasileira branca, passou despercebido (ou não). A mesma Aurora, diante dessa literatura, diz o quê? Que o conteúdo não merece ser tratado? Que o passado não pode repercutir no presente? Que Monteiro Lobato, nesta obra, privilegiou o conteúdo, de cunho racista, o ponto de vista do escravocrata, partiu para o engajamento, e esqueceu-se do estilo? Não, senhoras e senhoras, porque “conteúdo” é apenas aquele que contrapõe à visão da Casa Grande. A literatura com enredo e vozes dos “condenados da terra”, como diz Frantz Fanon, ou dos oprimidos, como diz Paulo Freire, não tem forma, apenas um conteúdo que deve ser deixado no passado. Quando a literatura burguesa, “brancocêntrica”, apresentava-se como “A Literatura”, as mesmas vozes que desmerecem Itamar pelo conteúdo, e Annie Ernaux, pelo viés de esquerda e da classe trabalhadora, o silêncio é ensurdecedor de quem sempre se sentou na cadeira da branquitude, do “oficial”, do “legítimo” e do “culto”.

Aurora Bernardini entrega o seu ponto de vista marcado pela classe burguesa e pela raça branca nas seguintes linhas do artigo:

“Ela conta uma anedota do seu pai para ilustrar o ponto de vista. Enquanto diretor de uma fábrica na região de Carrara, ao norte da Itália, ele era constantemente intimidado por operários, que ‘diziam que a sua cova estava pronta’ e ‘ameaçavam dar com o sapato na cabeça dele’”.

Imagino-a lendo Ernaux que diz: “Escrevo para vingar a minha raça (os operários)”. É compreensível que ela afirme a necessidade de deixar o passado para lá, de não o trazer no presente, tamanho deve ser o incômodo com uma literatura que não espelhe as suas origens, as suas crenças e os valores da sua classe social. É isso, a sua trajetória está do lado oposto daquela de Itamar Vieira Júnior, dos seus leitores e admiradores, dentre eles, muitos críticos literários. Ela é filha de um diretor de grande empresa, cresceu no berço da burguesia paulistana, como ela pode reconhecer merecedor de debate hoje, o passado escravocrata? O que a faz dizer que ele não tem relevância atualmente? Ela, simplesmente, não foi atingida pelo apagamento da memória, pela morte física e simbólica, pelos resgates de escravas nas famílias brancas e nas fazendas deste Brasil ainda hoje. Ela, simplesmente, não vai notar o estilo, a forma, lendo um conteúdo tão distante dela.

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O mesmo pode-se dizer de Paulo Barros, carnavalesco que disse estar cansado de enredos sobre a África. Por séculos e por décadas de televisão e rádio, os “enredos” ou os conteúdos, foram sobre a história branca, europeia e, esta gente nunca se cansou. Há apenas alguns anos temas como racismo, África, escravização e a queda do Mito da Democracia Racial impuseram-se no debate público. Só os racistas se cansaram.

Glória Perez, novelista histórica da Rede Globo, também está farta do que ela chama de “cultura woke”, ou do “politicamente correto”. Para a Folha de São Paulo, ela diz que o “politicamente correto” está interferindo na criatividade de folhetins, e mais: “Sempre achei que o politicamente correto engessa, reduz e elimina a possibilidade de conflito. Ao fazer isso, ele amordaça e empobrece o autor”.

Ora, novamente, o conteúdo. Reparem, o que ela se refere à “cultura woke”, é a mesma coisa que externalizou Emannuel Macron, presidente francês, ao reclamar que esta cultura está impondo o tema do racismo na sociedade civil, republicana, que não precisa desse debate. Glória Perez quer se ver livre, livre na linguagem e se sente “amordaçada” por não poder mais usar certos termos. Os termos em questão não seriam “cabelo duro”, “preta suja”, “mulata” ou colocar um homem negro no papel de bandido enquanto o de mocinho, herói ou galã fica com o homem branco? Ou seria não poder, sem críticas, eternizar mulheres negras nos papéis de empregadas? Porque não romper, então, com o “politicamente correto”, chamando os brancos de criminosos, de assassinos, colonizadores, estupradores de mulheres negras e indígenas?

Vamos romper com o politicamente correto, escancarando a corrupção das empresas geridas por brancos, ao invés de apresentarem-nas como entes impessoais que dão trabalho ao povo pobre. Não, não, isso não. O que ela reivindica é colocar indígena para chacota nas telenovelas, como fizeram em Uga, Uga, de Carlos Lombardi, ou Terra Nostra, que exalta os italianos “brava gente”, enquanto retrata o povo negro como passivo à escravidão, dócil e grato à benfeitoria branca. É este o conteúdo ideal que nunca incomodou gente branca com dinheiro e posição de prestígio nesta sociedade.

Mas, trago más notícias para esta gente. Apesar de deterem o monopólio da representação da realidade, dos meios de produção, o controle das mídias, o controle das empresas, o monopólio das editoras, estes temas passaram. E sabem por quê? Porque não foi concessão de branco, não, foi o resultado de muita luta do povo negro e dos povos indígenas, que muitos acreditavam mortos ou em “extinção”, mas que voltaram com tudo no cenário brasileiro. Ao contrário do que Aurora Bernardini diz, que o “europeu é mais amadurecido, pois passou por guerras e revoluções”, o que torna um povo amadurecido não são as guerras, o extermínio de outros povos e culturas, mas a capacidade de se reinventar com as mortes. E deixo um trecho da literatura que queremos viva, que resgate períodos que tentam esquecer, que nos vingue as dores de ontem e de hoje:

Quando começaram a sair as resenhas desse livro, percebi que havia cometido um erro terrivelmente ingênuo. Descobri que eu havia escrito um livro que até as filhas de banqueiros poderiam ler e chorar e sentir-se bem. Jurei a mim mesmo que se alguma vez escrevesse outro livro, ninguém iria chorar por causa dele; pois ele seria tão duro e sério que teriam de encará-lo sem o consolo das lágrimas. Foi isso que me fez passar a trabalhar com total seriedade. (How Bigger Was Born, publicado como introdução da edição Penguin, de Native Son, Richard Wright. Harmondsworth, 1979, p. 31.)

 

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia, escritora e feminista negra

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