O que é mesmo que chamamos de polarização?
Este texto se ancora em uma pesquisa que desenvolvida no campo da Psicologia Social, em diálogo com a filosofia política, na qual se busca compreender os mecanismos afetivos e simbólicos de adesão a posições conservadoras no Brasil contemporâneo
Imagine você, leitor deste texto e defensor dos direitos humanos, sendo interpelado em uma entrevista com a seguinte pergunta: você é a favor do assassinato de pessoas inocentes? A pergunta provavelmente soaria agressiva, deslocada e até desrespeitosa, porque a resposta parece evidente. Não apenas evidente, mas também desnecessária. Há algo nela que rompe com um acordo básico de sentido compartilhado sobre o que está sendo dito.
Agora, eu peço que você imagine outra cena. Certas crenças, concepções e interpretações de mundo fazem com que a pergunta “você é a favor do aborto?” soe, para muitas pessoas, exatamente da mesma forma que a pergunta do parágrafo de cima. Para essas pessoas, a pergunta já contém uma acusação implícita, porque aborto e assassinato são compreendidos como a mesma coisa. Quando alguém responde “não”, não está necessariamente se posicionando contra os direitos das mulheres, mas se posicionando contra aquilo que entende como a eliminação de uma vida inocente.
Se, por outro lado, uma pessoa compreende o aborto como parte dos direitos reprodutivos das mulheres, como uma questão de saúde pública e como uma resposta concreta à realidade de milhares de mulheres que abortam sem qualquer amparo legal ou sanitário, então a pergunta ganha outro sentido. Nesse caso, defender a descriminalização do aborto significa defender a vida dessas mulheres, sua autonomia e sua dignidade. Nessa mesma chave de interpretação, o embrião ainda não é compreendido como uma vida humana plenamente constituída.
Eu começo por aqui porque meu objetivo é deslocar o modo como temos nomeado o fenômeno da chamada polarização política no Brasil. O que aparece como polarização muitas vezes é, na verdade, um desencontro profundo entre regimes de inteligibilidade, entre formas distintas de produzir sentido sobre o mundo. Isso é o que me fala nitidamente o campo de pesquisa. Ao perguntar a entrevistados que se identificam como conservadores se eram favoráveis aos direitos reprodutivos das mulheres, a resposta foi majoritariamente positiva. Em seguida, ao perguntar se eram favoráveis à descriminalização do aborto, a resposta foi majoritariamente negativa.
Essas respostas não indicam uma contradição simples. Indicam que estamos lidando com diferentes significados atribuídos às mesmas palavras. Para grande parte dessas pessoas, direitos reprodutivos dizem respeito ao uso de métodos contraceptivos, como pílula, DIU e outras formas de evitar uma gravidez. O aborto não aparece como parte desse campo, porque ali já haveria uma vida que também deve ser protegida. O desacordo não está apenas na posição, mas na própria definição do que está em jogo.
Antes de avançar, eu acho importante situar de onde estou falando. Este texto se ancora em uma pesquisa que estamos desenvolvendo no campo da Psicologia Social, em diálogo com a filosofia política, na qual buscamos compreender os mecanismos afetivos e simbólicos de adesão a posições conservadoras no Brasil contemporâneo. Trabalhamos com entrevistas em profundidade com eleitores de Jair Bolsonaro, buscando entender não apenas o que essas pessoas pensam, mas como produzem sentido sobre o mundo. Neste momento, os dados dessas entrevistas estão sendo interpretados e analisados coletivamente pelo grupo de pesquisa do qual faço parte, o NUPRA.
Se estivéssemos lidando apenas com uma polarização clássica, esperaríamos respostas opostas entre campos políticos distintos. A pergunta sobre direitos reprodutivos teria respostas divergentes entre grupos progressistas e conservadores. O que encontramos foi algo diferente. Houve concordância em torno do termo, acompanhada de desacordo sobre seu conteúdo. Isso revela que muitas disputas políticas contemporâneas não se dão apenas no nível das opiniões, mas no nível da própria construção dos fenômenos sobre os quais opinamos.

É nesse ponto que eu formulo a tese central deste texto. Há uma dificuldade estrutural de compreensão entre campos que nomeamos como antagônicos. Essa dificuldade não decorre apenas de uma divisão entre esquerda e direita. Ela se produz a partir de sentidos e significados que não são compartilhados. O resultado disso são ruídos constantes na comunicação e, mais do que isso, uma verdadeira impossibilidade de audibilidade. Não se trata apenas de não concordar com o outro. Trata-se de não conseguir sequer reconhecer o que o outro está dizendo como algo inteligível dentro do próprio campo de sentido.
Nesse cenário, os algoritmos das redes sociais têm um papel decisivo. Eles operam intensificando essa distância entre regimes de interpretação. Ao selecionar, priorizar e reiterar conteúdos que confirmam aquilo que já pensamos, os algoritmos produzem ambientes de circulação de sentido cada vez mais homogêneos. Cada grupo passa a habitar um universo semântico relativamente fechado, no qual certas palavras, imagens e argumentos fazem pleno sentido, enquanto outros se tornam opacos ou incompreensíveis. O efeito disso não é apenas a radicalização de posições, mas a consolidação de mundos paralelos de significação.
As pessoas passam a não conseguir compreender os sentidos e as representações que outros grupos atribuem aos fenômenos e às palavras. Termos como liberdade, vida, direitos, justiça e democracia deixam de operar como pontos de encontro possíveis. Cada um desses termos passa a carregar significados específicos, ancorados em experiências, valores e narrativas distintas. O conflito se desloca do campo das ideias para o campo das próprias condições de possibilidade de entendimento.
Se queremos pensar seriamente o que temos chamado de polarização no Brasil, precisamos levar isso em conta. Não se trata apenas de construir argumentos melhores ou mais racionais. Trata-se de reconhecer que estamos lidando com diferentes formas de organizar o mundo simbólico. Campanhas políticas, estratégias de comunicação e práticas de intervenção social precisam considerar esses desencontros de sentido e aprender a traduzir mundos, da mesma forma que traduzimos línguas. Sem isso, seguimos falando sem sermos ouvidos, ou ouvindo sem compreender.
Há ainda um dado que me parece fundamental – e o mais importante – que emerge com força das entrevistas. Uma parcela muito significativa dos entrevistados que se identificam como conservadores expressa desejos que, na tradição política brasileira, costumamos associar a pautas da esquerda. Eles falam em aumento do salário mínimo, em acesso universal à saúde, na defesa do SUS, em educação e cultura públicas de qualidade, em menos trabalho extenuante, em dignidade de vida e, de forma muito marcante, em igualdade de oportunidades. Se isso é o que captura o desejo deles, como e por que políticos que defendem isso com unhas e dentes não conseguem capturá-los? É essa a questão que está posta para qualquer um que queira disputar o campo político.
Esses desejos coexistem com interpretações de mundo que, em outros temas, os posicionam de maneira distinta dos campos progressistas. Isso me faz pensar que o desafio não está apenas em disputar posições, mas em compreender como diferentes sujeitos articulam, ao mesmo tempo, valores, experiências e expectativas que não cabem facilmente nas categorias políticas que utilizamos. O problema da chamada polarização talvez seja, em grande medida, um problema de tradução entre mundos que compartilham mais do que conseguem reconhecer.
E é por isso que, muito diferente de dizer que essas pessoas votam sem saber, que são ignorantes, que não sabem as causas de seus infortúnios, que precisam ser esclarecidas, ou repetir a ironia fácil de que é a barata votando no inseticida, como dizem aqueles que chamam nosso povo de “pobre de direita”, o que precisamos é outra coisa. Precisamos traduzir os sentidos. Precisamos compreender os mundos que cercam a nossa população.
Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pesquisadora nas áreas de psicologia e relações étnico-raciais, autora dos livros Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo (Veneta, 2020) e Famílias interraciais: tensões entre cor e amor (Fósforo, 2022) e organizadora do livro Branquitude: diálogos sobre racismo e antirracismo (Fósforo, 2023);


Trabalho importante, sensível e esclarecedor. Propondo a existência de “línguas distintas” que parecem iguais, abre a possibilidade de diálogo. precisamos de traduções, tradutores para que compreendamos melhor palavras e conceitos que parecem iguais mas não são, ou que parecem diferentes e também não são. Obrigada Lia Vainer.