COP 30

O que está no seu prato pode ajudar a enfrentar a crise climática

A segurança alimentar e a justiça climática caminham juntas e que não há combate real às mudanças climáticas sem enfrentar as desigualdades que estruturam nosso sistema alimentar

É hora de reconhecermos uma verdade que, por muito tempo, foi negligenciada: a maneira como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos está no centro da crise climática. E pode ser também parte essencial da solução.

A realização da COP30 em Belém, no coração da Amazônia, é uma oportunidade histórica de demonstrar ao mundo que há outro caminho possível. Um caminho que não precisa devastar para alimentar, nem excluir para desenvolver. Um caminho que parte da escuta e da valorização de quem já pratica, cotidianamente, modos de vida alinhados com a sustentabilidade e o respeito à natureza. Por isso, defendemos que pelo menos 30% da alimentação servida na Conferência venha da agricultura familiar e da sociobiodiversidade amazônica.

Essa proposta não é um detalhe técnico da organização do evento. Ela carrega um sentido político profundo. Significa colocar no centro da agenda climática aqueles que, há gerações, protegem a floresta com suas práticas de cultivo, manejo e vida comunitária. Significa reconhecer que a segurança alimentar e a justiça climática caminham juntas e que não há combate real às mudanças climáticas sem enfrentar as desigualdades que estruturam nosso sistema alimentar.

Não por acaso 74% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil estão associadas à produção de alimentos, principalmente à agropecuária e ao desmatamento. Também não é coincidência que muitas das soluções mais potentes e sustentáveis estão justamente nas práticas dos povos que historicamente foram marginalizados pelas políticas públicas e pelo agronegócio.

Injetar R$ 3,3 milhões na agricultura familiar da Região Metropolitana de Belém, como estimamos com a compra dos produtos diretamente das mãos de quem produz, não é apenas uma medida econômica. É um gesto de reparação, valorização e futuro. É reconhecer que fortalecer as cadeias locais de produção, baseadas em práticas agroecológicas e em conhecimentos tradicionais, é essencial para garantir alimentos saudáveis hoje e resiliência climática amanhã.

O pequeno agricultor da comunidade Canabravinha, Albino Viana, diz que sofre com a escassez de água e espera poder irrigar sua produção com as águas da transposição do rio São Francisco.
Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

É preciso deixar claro: quando falamos em mudar o que está no prato dos participantes da COP30, não estamos falando de uma medida simbólica, tampouco de uma concessão momentânea. Estamos defendendo uma transformação estrutural, uma escolha que deixará legado. Um cardápio que mostra, na prática, que é possível conectar produção sustentável, cultura alimentar, saúde e redução de emissões. Uma mudança que transforma o ato de comer em um ato político.

Nosso esforço, como sociedade civil organizada, é garantir que essa proposta se realize com consistência, planejamento e compromisso. Estamos mapeando produtores, entendendo capacidades logísticas, respeitando as diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira e ouvindo quem faz a comida chegar à mesa sem destruir o território. Esse processo já está em curso, com o envolvimento de organizações locais, lideranças comunitárias, conselhos e redes de cooperativas que conhecem de perto os desafios e também as potências da produção alimentar na Amazônia.

Não basta debater metas climáticas distantes da realidade concreta. É no cotidiano (no prato, no campo, nas feiras, nas cozinhas) que se materializa a transição ecológica. Se quisermos enfrentar a crise climática de forma justa, precisamos olhar para quem cuida da terra, da água, da semente. E valorizar essas práticas como parte essencial da resposta global. A COP30 pode ser o ponto de partida para uma nova lógica de compras públicas, de políticas alimentares mais integradas ao território e de estímulo à economia da floresta em pé.

Belém pode mostrar ao mundo que outro modelo de alimentação é possível. Mas isso só acontecerá se tivermos coragem de fazer escolhas políticas que desafiem estruturas estabelecidas. Começando por uma das mais fundamentais: a escolha de quem e do que vai nos alimentar. Porque, sim, o que está no seu prato, e no prato de uma conferência global, pode ajudar a enfrentar a crise climática. E a hora de fazer essa escolha é agora.

Francine Teixeira Xavier é cofundadora e diretora do Instituto Comida do Amanhã, organização que lidera o movimento Na Mesa da COP30, ao lado do Instituto Regenera

 

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