O que o eleitor quer ouvir - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

O que o eleitor quer ouvir

por Silvio Caccia Bava
1 de julho de 2010
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Silvio Caccia Bava

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As estratégias de marketing eleitoral, as pesquisas quantitativas e qualitativas, a utilização da mídia pelo candidato, tudo isso é relativamente novo, chegou ao Brasil na primeira eleição direta para presidente da República depois da ditadura, em 1989. E a sua importância se tornou tamanha que a utilização dos comerciais para a televisão, que se iniciaram no Brasil apenas em 1996, consome hoje grande parte do orçamento de campanha. Não é para menos, 75% dos brasileiros têm na TV aberta sua principal fonte de informação sobre política.

Hoje, todas as campanhas majoritárias, especialmente as que disputam a Presidência da República, utilizam pesquisas de opinião para orientar suas mensagens eleitorais. Oferecem o que o eleitor quer ouvir. Isso faz com que “os estilos e a linguagem dos comerciais dos diversos candidatos, incluindo os jingles, vão ficando mais parecidos a cada eleição”1.

A identidade do eleitor com o candidato é fundamental. Buscar essa identidade e o apoio do eleitor é tudo o que deseja o marketing eleitoral. E isso numa conjuntura que, em janeiro deste ano, identifica que 31% dos eleitores declaram não ter nenhum interesse pelas eleições, e 42% dizem ter um interesse médio; em que a identificação com partidos políticos é cada vez menor2.

As campanhas, nesta realidade, são decisivas. E podem levar uma parcela desses eleitores céticos ou indecisos a se fixarem num candidato. Aqueles que souberem interpretar a conjuntura e apresentar melhor seu candidato têm maiores chances eleitorais.

Ficou famosa a expressão “its the economy, stupid”, forjada por James Carville, principal estrategista da campanha eleitoral vencedora de Bill Clinton, em 1992, para explicar o sucesso de seu candidato. Esta frase tornou-se um bordão repetidamente utilizado para denunciar que o adversário de Clinton, George W. Bush, não soube apresentar um plano de como sair da recessão em que o país se encontrava. Bush perdeu a ampla maioria que detinha.

Alguns especialistas em marketing eleitoral identificam o contexto econômico como o segundo fator mais importante em uma eleição. O primeiro é a aprovação do presidente da República. O terceiro é o programa. A identificação partidária fica por último.

Tomemos um exemplo. Em abril, o então pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, declarou que, se eleito, criará o Ministério da Segurança Pública para atuar com destaque, nas suas palavras, “no combate às drogas e ao crime organizado”.

Luiz Eduardo Soares, que foi secretário nacional de Segurança Pública e hoje apoia a candidatura de Marina Silva, se declara contra. “Não se pode mais repassar recursos federais para polícias que cometem execuções extrajudiciais. (…) A União dá dinheiro ao crime.” Segundo ele, criar um ministério é reforçar as estruturas corrompidas que precisam ser enfrentadas. Essa proposta não se sustenta, não diz o que o novo ministério deve fazer, ignora que as responsabilidades maiores da segurança pública não estão com o governo federal, ignora a situação das polícias, das guardas privadas, das estruturas de poder corrompidas das corporações policiais3.

Mas, então, por que mesmo não apresentando um programa para sua criação, Serra propõe este ministério? Por causa das pesquisas eleitorais. Uma pesquisa nacional de opinião CNT/Sensus identificou que os maiores problemas dos brasileiros são a violência e a criminalidade (22%), seguidas pela questão das drogas (21,2%)4.

Coincidência? Não!

Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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