CONVIVÊNCIA E TOLERÂNCIA SAUDÁVEL

O que separa o perigoso do diferente?

Em uma sociedade cada vez mais polarizada, a convivência entre liberdade, pluralidade e proteção contra discursos e práticas destrutivas tornou-se um dos maiores desafios das democracias e das organizações. Como distinguir a discordância legítima de comportamentos que ameaçam as próprias regras da convivência?

Tolerância social e imunidade institucional: o que o corpo nos inspira

Vivemos um momento de altos níveis de sofrimento mental coletivo em todo o mundo – mais de 1 bilhão de pessoas convivem hoje com transtornos mentais, segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde. Nesse contexto, os debates sobre até onde deve ir a tolerância democrática com discursos extremistas, discordâncias internas em organizações, vozes dissonantes em qualquer espaço coletivo costumam se polarizar entre dois extremos: tolera-se tudo em nome da liberdade, ou restringe-se amplamente em nome da proteção.

Duas tradições de pensamento, vindas de campos de saberes distintos, sugerem que essa polarização é, em boa parte, um problema de critério mal definido. A saída não estaria em escolher um dos extremos, mas em mudar a pergunta que se faz diante de cada situação.

Em 1945, o filósofo austríaco Karl Popper descreveu o que chamou de paradoxo da tolerância, uma ideia que permanece atual: uma sociedade que estende tolerância irrestrita, inclusive a quem usa essa liberdade para destruir a própria tolerância, corre o risco de vê-la desaparecer. Grosso modo, se tolero o intolerável, já estou doente. Por isso, argumentava Popper, sociedades abertas precisam se reservar o direito de não tolerar a intolerância ativa – valorizar, respeitar e buscar aprender com a diversidade e as diferenças – sob pena de serem destruídas, de dentro, por ela.

O argumento voltou ao centro do debate público em discussões sobre moderação de discurso, financiamento de movimentos antidemocráticos por meios democráticos e combate à infodemia na saúde pública. Mas o paradoxo, isolado, não resolve o problema prático mais difícil: quem decide o que conta como “intolerância ativa” o suficiente para justificar um limite – e com qual critério?

Foto: Juca Varella/Agência Brasil

Um modelo emprestado da imunologia ajuda a entender essa questão. No início dos anos 2000, a pesquisadora franco-americana Polly Matzinger propôs que o sistema imunológico não reage apenas ao que é estranho, mas principalmente ao que é perigoso e causa dano.

Se o corpo atacasse tudo o que é diferente, e não apenas o que causa dano, destruiria tecidos saudáveis, como ocorre na autoimunidade. Nossa alimentação ilustra essa diferença: leite, ovos, carne e vegetais vêm de fora e nos nutrem, enquanto rejeitamos alimentos estragados, contaminados ou com odor de podridão, pois podem causar doenças. A evolução nos ensinou que tolerar não é aceitar tudo, mas distinguir o que nos faz bem do que pode nos causar dano.

A analogia com instituições é direta: sistema, organização ou democracia que trata toda diferença, discordância ou heterodoxia como ameaça pode atacar o que a mantém saudável: a diversidade, o debate e a correção de erros. É uma “autoimunidade institucional”. Já um sistema que reage com firmeza a danos reais como fraude, violência, corrupção e violação de regras essenciais, preserva a diversidade que não ameaça seu funcionamento.

É nesse ponto que a obra do jurista italiano Norberto Bobbio complementa a de Popper. ao lembrar que a democracia depende menos de quais ideias prevalecem e mais das regras que permitem o debate entre ideias diferentes: quem decide, como decide e quais limites todos devem respeitar. É possível discordar, desde que se cumpra a mesma regra do jogo. Quando alguém a burla ou cria exceções para si, a convivência democrática se transforma em predação.

Distinguir as regras do jogo do conteúdo do jogo evita a falsa escolha entre tolerar tudo e restringir demais.

O limite legítimo não deve atingir a diversidade de ideias, mas as ações que impedem uma disputa justa: fraude, violência, conluio, captura ilegal de instituições e desrespeito às regras comuns.

Bobbio também mostrou que a democracia pode ser enfraquecida por dentro, quando alguém usa as próprias liberdades democráticas para destruir as regras que as sustentam. Nesse ponto, sua reflexão complementa o paradoxo da tolerância de Popper.

Em Como as Democracias Morrem os cientistas políticos de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que o colapso democrático contemporâneo costuma ocorrer de forma gradual e legalista, liderado por governantes eleitos que usam as próprias instituições para minar o sistema por dentro.

Os autores apontam quatro sinais desse processo: rejeição das regras democráticas, deslegitimação dos adversários, tolerância à violência política e restrição das liberdades civis. Essa erosão se consolida quando regras como tolerância entre rivais e autocontenção no uso do poder legal são abandonadas pelas elites políticas.

A biologia ajuda aqui também: é parecido com o câncer, que tem a habilidade de neutralizar o sistema imune, evitando ser reconhecido como algo a eliminar. Passado um tempo, a célula cancerígena se reproduz mais rápido que a célula sadia e toma seu lugar. Em muitos casos, o câncer se torna fatal porque tecidos e órgãos deixam de cumprir suas funções. Quando o sistema imune é silenciado, adoecemos.

Transposta para organizações e lideranças, a distinção é igualmente operativa: o que deve ser protegido não é a opinião da liderança, mas as regras que permitem discordar de forma produtiva: transparência, liberdade para questionar sem retaliação e critérios claros para decidir. Discordar faz parte do jogo. Violar as regras é o que exige limite.

Colocando essas referências em conjunto, emerge um critério operacional: Diante de uma crítica, discordância ou posição minoritária, a pergunta não deve ser “isso é diferente do esperado?”, mas “isso viola as regras do debate ou é apenas o uso legítimo do direito de discordar?”.

A liderança que trata toda discordância como ameaça confunde diferença com dano. Com o tempo, desmotiva as pessoas e perde sinais importantes de problemas reais, pois ninguém mais se sente seguro para alertar.

No extremo oposto, uma liderança que tolera violações claras das regras enfraquece o próprio espaço de diálogo. Como alertou Popper, quem não respeita as regras pode ocupar esse espaço até eliminar a pluralidade. A biologia ensina justamente esse equilíbrio: não atacar toda diferença, mas reagir com firmeza ao que causa dano.

As regras do jogo, em democracias e organizações, não devem ser imutáveis. Elas precisam prever formas legítimas de revisão, sem depender apenas de crises ou disputas específicas, quando aumenta o risco de mudanças em benefício de quem está no poder.

Na prática, isso exige revisões periódicas, canais permanentes para apontar distorções e critérios claros para distinguir discordância de violação das regras.

É como a vigilância após tratamento de um câncer: consultas e exames são programados mesmo sem sinais de doença, para identificar alterações precocemente e preservar os resultados alcançados.

Um critério confiável orienta, embora não elimine as ambiguidades da vida real. Ainda assim, ajuda a superar a falsa e perigosa escolha entre tolerar tudo e controlar demais.

As referências convergem para um princípio de sanidade: bons limites devem proteger as regras que permitem a diversidade, e não impedir a própria diversidade.

Reconhecer essa diferença e manter essas regras sob revisão é uma condição concreta para que famílias, organizações, democracias e culturas cívicas pratiquem os valores que afirmam defender.

Fica o convite: antes de aderir a uma ideia, pergunte-se – ela apenas me impressiona ou também me oferece boas razões?

Rubens Harb Bollos é médico, mentor e presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão) e o projeto de Literacia em Saúde @Informação Cura. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela UNIFESP e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento pela USP/ICB. Escreve e divulga sobre imunologia, epigenética, neurociência, saúde mental, tomadas de decisões e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde.

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