O quebra-cabeça das minorias - Le Monde Diplomatique

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS O

O quebra-cabeça das minorias

por Karel Bartak
1 de abril de 2000
compartilhar
visualização

Representados no Parlamento, os húngaros fazem parte da multiétnica sociedade eslovaca, bem como os ciganos. Ao contrário destes, porém, desenvolvem uma atividade cultural em clima de liberdadeKarel Bartak

É uma novidade. Através do Partido da Coalizão Húngara (SMK), os 400 mil húngaros que vivem na Eslováquia estão representados no Parlamento. É uma experiência formidável”, explica Bela Bugar, presidente do SMK e vice-presidente do Parlamento. “Os eslovacos estão compreendendo que podem contar conosco, que nós ficamos fora das discussões entre eles, e podemos, dessa forma, constituir um polo de estabilidade.” Como prova de boa vontade, ele cita a lei sobre as línguas minoritárias, cuja adoção era uma exigência do Parlamento Europeu, sediado em Bruxelas: os deputados húngaros a aprovaram, apesar das reservas manifestadas por sua comunidade com relação ao conteúdo.

O discurso anti-húngaro, no entanto, não desapareceu por encanto, especialmente nas regiões centrais do país, exclusivamente eslovacas. “Os húngaros nunca se contentarão com o seu estatuto, ainda que este seja mais confortável que os estatutos que regem as minorias na Europa Ocidental”, adverte Anna Malikova, presidente do Partido Nacional Eslovaco (nacionalista, com 8% de intenções de voto). “Eles vão continuar lutando pela igualdade entre a língua deles e o eslovaco, o que é inadmissível.” Apesar de uma certa agitação, a atividade cultural dos húngaros continua transcorrendo num clima de liberdade. Já o projeto de criação de uma universidade específica, continua sendo um tabu — há o risco de que, numa futura União Européia ampliada, os eslovacos de origem húngara se voltem contra a “mãe-pátria”.

“Aversão pela integração”

A questão cigana também é quente. O forte surto de emigração de ciganos romani da Eslováquia levou vários países da União Européia a reintroduzir os vistos de entrada. Resultado: surgem novas filas em frente à embaixada britânica de Bratislava. Numa tentativa de contornar o problema, as autoridades multiplicam programas que visam a integrar os ciganos, confiando-lhes cargos de responsabilidade. Em vão: “Já não sabemos o que fazer. O estilo de vida deles é tão diferente do nosso, a aversão que eles têm por qualquer tipo de integração é tamanha que a barreira que os separa do restante da população permanece intacta”, explica o ministro da Justiça, Jan Carnogursky. Com exceção da extrema-direita, o assunto toca a todos os partidos políticos. Os ciganos são os grandes perdedores da mudança de regime. Assistidos até ontem pelo comunismo, hoje são marginalizados pelo capitalismo. “Sem querer subestimar as dimensões sociais, demográficas e culturais, que são muito preocupantes, o principal continua sendo a educação: é ela que irá resolver o problema a longo prazo, em duas ou três gerações”, avalia o vice-primeiro-ministro, Pavol Hamzik.

LEIA MAIS: Sobre a República Checa e a Eslováquia, nesta edição:
A espantosa ascensã



Artigos Relacionados

ARQUITETURA

Brasília: imagens de Três Poderes

Online | Brasil
por Adalberto da Silva Retto Júnior
DISPUTA EM ABERTO

O papel vindicado pelos trabalhadores plataformizados na atual agenda de governo

Online | Brasil
por Gabriela Neves Delgado e Bruna Vasconcelos de Carvalho
PUNITIVISMO

Sobre morfinas, terrenos e o 8 de janeiro

Online | Brasil
por Hamilton Gonçalves Ferraz e Pedro Amorim
CAPITAL ESPECULATIVO

Globalização e Forças Armadas

Online | Mundo
por Antônio Carlos Will Ludwig
MIGRANTES VENEZUELANOS

Impressões do campo em Roraima

Online | Brasil
por Sofia C. Zanforlin
PARA COMPREENDER O NEOFASCISMO

O "fascismo eterno", revisitado

Online | Brasil
por Liszt Vieira
POVOS INDÍGENAS PÓS GOVERNO BOLSONARO

O Brasil verde-amarelo é um país sem cor

Online | Brasil
por Vinício Carrilho Martinez e Márcia Camargo
DIREITO À CIDADE

Inovação como integrante de um projeto social e político emancipatório

por Regina Tunes