O racismo afetivo que acoberta a defesa do patrimônio racista no Brasil

MONUMENTO AO STATUS QUO

O racismo afetivo que acoberta a defesa do patrimônio racista no Brasil

por Erica Malunguinho
5 de agosto de 2021
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Retomando o episódio recente com a estátua de Borba Gato, propor sua saída de cena não significa “apagar a história”. História é feita de mudanças e permanências, e sua retirada fará parte dela, visto a fluidez de sua natureza. O próprio incêndio de sua estrutura já é parte da história do monumento

Não se trata, exclusivamente, de se referir à exaustão ao episódio do fatídico sábado, 24 de julho, quando a estátua do escravista Borba Gato, instaurada na região de Santo Amaro (zona sul de São Paulo), foi posta em chamas por ativistas. O que aquece uma discussão mais profunda está na crônica mobilização em defesa do patrimônio racista brasileiro. Temos, evidenciando esse argumento, uma lista enorme de casos do tipo no decorrer da história. Figuras homenageadas ou endeusadas como ícones históricos e culturais seguem em evidência, muitas vezes sob uma defesa que ignora – ou não – suas ações racistas.

Algumas delas remontam ao período colonial, outras já fazem referência a existências modernas. Deste primeiro tipo temos, por exemplo, em São Paulo, o Monumento às Bandeiras, o Monumento a Duque de Caxias ou mesmo, no coração da cidade, a escultura “Glória aos fundadores da cidade”, com uma agressiva menção visual à exploração do trabalho forçado de indígenas para erguimento da então “vila”. Referências mais modernas que atuam à contramão do movimento por igualdade e inclusão estão, entre outros tantos, em casos como o da manutenção do nome do restaurante de “alto-padrão” Senzala (Alto de Pinheiros), numa insensível alusão a um lugar de sofrimento, violência e opressão dos povos negros. Noutra verve vemos a absolvição institucional do atleta Arthur Nory, acusado por um companheiro de modalidade (Ginástica Artística), ao ser convocado sem ressalvas ao Jogos Olímpicos de Tóquio, enquanto o denunciante encara uma caminhada sem clube, desde que foi afastado do Pinheiros após o episódio, e sem patrocínio. Ainda vale relembrar e denunciar a exaltação à bandeira dos Estados Confederados exibida livremente em festa realizada no município de Santa Bárbara D’Oeste, no interior paulista. Isso diz respeito a alusão explícita ao símbolo máximo dos escravagistas do sul dos EUA durante a guerra civil no país, ocorrida entre 1861 e 1865.

No último dia 31, foi anunciada a reabertura do Museu Nacional da Língua Portuguesa com convidados internacionais, entre eles dos presidentes de Cabo Verde e Portugal. Sim, é uma ação necessária, ainda mais se pensando na precariedade que os museus paulistas têm se encontrado há alguns anos. Mas mesmo nesses espaços de memória, os idiomas de origem africana ainda são subalternos, colocados como elementos que complementam – que se somam –, mas que nunca são protagonistas, como elementos fundantes do nosso falar negro-indígena. Nesse sentido recomendei ao Condephaat que os idiomas de origem yorubá, bantu e fon fossem reconhecidos como patrimônio imaterial do estado de São Paulo.

estátua
Deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) se manifesta a favor da soltura do ativista Paulo Galo (Entregadores Anti-fascistas), em prisão preventiva arbitrária, desde a semana passada, acusado de participação na queima da estátua de Borba Gato (Foto: Arquivo pessoal)

Diante desse nebuloso horizonte, vale relembrar a PL 404/2020, de minha autoria, que propõe revisão de homenagens e estátuas de escravistas nos espaços públicos, assim como a proibição de honrarias para escravocratas. Nesse projeto, que deve ser acompanhado de uma mudança nos paradigmas culturais e educacionais de nossa sociedade em diversas frentes, há parte do caminho a ser percorrido para a inversão dessa realidade. Trata-se de um pequeno florescer num árido terreno, mas sua valia e importância possuem caráter de urgência.

Adiciono ao tema uma leitura psicanalítica, que deve ser um ponto para observação desse ciclo do racismo. Não poderia ser de outra forma, pois o sadismo em torno da opressão e da tortura é algo bem conhecido e que se mantém na mentalidade daqueles que fazem questão de ostentar e defender símbolos, pessoas e narrativas que dão materialidade a esta violência. Talvez haja aí uma pulsão de morte em desequilíbrio.

Retomando o episódio recente com a estátua de Borba Gato, e fazendo menção a tantas outras com simbologia similar, propor sua saída de cena – como dito no escopo da PL – não significa “apagar a história”. História é feita de mudanças e permanências, e sua retirada fará parte dela, visto a fluidez de sua natureza. O próprio incêndio de sua estrutura já é parte da história do monumento.

Por fim, e por que não?, é importante relembrar de um termo que incomoda a quem se engaja pela manutenção do status-quo: representatividade. Borba Gato é a representação da prevalência histórica que demarca a desigualdade, e isso explica o porquê de sua defesa tão enfática.

 

Erica Malunguinho é deputada estadual (Psol-SP).



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