O sprint de Damares Alves - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES PARA O SENADO

O sprint de Damares Alves

por Marina Basso Lacerda
28 de setembro de 2022
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Crescimento da ex-ministra da Família é paralelo ao de Bolsonaro no Distrito Federal, em contramão da tendência nacional. Dados consolidam a hipótese de voto confessional conservador

Sprint é a aceleração de um forte competidor ao se aproximar da reta final. Damares Alves (Republicanos) está em seu sprint para a vaga no Senado pelo Distrito Federal. Entre 21 e 27 de setembro, a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos cresceu sete pontos, empatando com a então favorita na disputa, a também ex-ministra Flávia Arruda (PL), que foi Chefe da Secretaria de Governo desde que Bolsonaro precisou entregar postos ao “Centrão”.

Os números são da última Pesquisa Ipec. O mesmo estudo mostra crescimento de rigorosamente iguais 7% para Bolsonaro no DF, na contramão da tendência nacional, em que Lula tem tendência positiva e a rejeição ao atual mandatário se amplia.

O crescimento de Bolsonaro fez com que Ibaneis Rocha (MDB), atual governador e favorito nas intenções de voto para reeleição, passasse de uma postura de discreto apoio a Bolsonaro (apenas quando questionado) para manifestações como “sou bolsonarista” e elogios ao “querido Presidente” durante o debate da Globo que ocorreu horas depois da divulgação dos resultados, na terça-feira (27).

O crescimento de Damares reforça algo que venho argumentando – e que é bastante intuitivo para qualquer brasileiro: o evangelismo é talvez o principal bastião de resistência bolsonarista. Diferente do histórico até 2018, tem-se consolidado um voto confessional conservador em Bolsonaro.

Se Flávia Arruda (que é, em tese, a candidata oficial de Bolsonaro) e Ibaneis Rocha, favoritos nas pesquisas, não conseguiam alavancar o atual presidente no Distrito Federal, possivelmente isso se dá porque eles são da base ampla de apoio do atual governo, mas não são bolsonaristas ideológicos, de corpo e alma. São bolsonaristas-centrão.

Damares, não. Sempre foi fidelíssima a Bolsonaro. Ao lançar a candidatura, afirmou: “Nossa prioridade também é a reeleição do maior homem que já governou esta nação”.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, durante entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC). (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Além disso, ela sempre foi do núcleo que se chamou de ideológico. Pastora evangélica, ao assumir o Ministério, tendo ao fundo uma bandeira de Israel, declarou existir então uma “nova era” em que “meninos vestem rosa e meninos vestem azul”. Declarou em evento oficial acreditar que, no casamento, a mulher deve ser submissa ao homem. Desenvolveu campanha de abstinência sexual como método contraceptivo, com inspiração nas políticas de Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos eleito em 1980 e “pai” do evangelismo na política. Esvaziou o Mecanismo Nacional de Combate à Tortura. Silenciou sobre as chacinas cometidas por policiais. Já em campanha para o Senado, defendeu o armamento para a população.

O Ministério por ela coordenado estimulou políticas públicas para fortalecer a família (no singular, e não na pluralidade de arranjos) e “mães empreendedoras”, enquanto, apesar de exceções pontuais, o Executivo, como um todo, mesmo durante a pandemia, procurou seguir uma agenda de austeridade. É uma típica paleoconservadora, como argumentei em artigo recente.

Nas atuais eleições Damares tem o apoio visceral de Michelle Bolsonaro – e tem também o apoio de Bolsonaro, basta uma visita rápida ao seu Instagram. Conforme explicam as pesquisadoras Ana Carolina Evangelista, Jacqueline Teixeira e Livia Reis, para os crentes, a ideia de batalha espiritual está longe de se restringir ao plano espiritual, estendendo-se ao mundo material. De acordo com elas, os problemas da ordem do cotidiano são percebidos como uma atuação contundente do inimigo, o demônio. E Michelle e Damares sabem como ninguém representar esses ideais. Embora a família seja um elemento insistente no discurso bolsonarista, coube ao ministério de Damares construir a materialidade dessas afirmações, pontuam as autoras.

A popularidade de Damares é sólida, em termos nacionais. Já em 2020, pesquisa do Iser (Instituto de Estudos da Religião) mostrou que muitos dos candidatos com identidade religiosa preferiram associar sua imagem pública durante a campanha a Damares, não a Bolsonaro.

Damares é a maior defensora de Bolsonaro entre os candidatos. É uma apoiadora que não titubeou. E certamente o crescimento dele se deve ao crescimento dela no DF.

Durante a atual campanha, Damares, desde a primeira hora, se disse a autêntica representante da direita. Em geral, quem se define assim pode ser colocado na verdade no espaço da extrema-deita, já que a direita tradicional não costuma se nomear como tal, e está em geral no chamado “Centrão”.

Há poucos dias Damares defendeu, explicitamente, ser a favor da vertente brasileira do fascismo, o integralismo: “O movimento integralista, pelo que conheço, defende Deus, Pátria, família, e essa é a minha bandeira. Eu sou religiosa, sou cristã, sirvo a um Deus vivo e poderoso. Pátria, eu amo esta nação”. O paleoconservadorismo, que mencionei acima, tem afinidade com o fascismo: ambos surgem em oposição ao liberalismo e ao marxismo, que sofreriam do mesmo mal materialista.

Estando correta a pesquisa do Ipec e mantida a tendência do “sprint”, Damares deve ser a única figura nacionalmente emblemática do bolsonarismo raiz a ser eleita para uma vaga majoritária. Eleita, possivelmente se consolidará como a nova maior líder da extrema direita no Brasil.

 

Marina Basso Lacerda é doutora em Ciência Política, pesquisadora do CENEDIC/FFLCH/USP e autora, entre outros trabalhos, do livro O novo conservadorismo brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk, 2019).



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