O voto na direita e a frustração com a educação
A frustração com o ensino superior e a falta de empregos qualificados impulsionaram a ascensão da mentalidade neoliberal e da direita política. Diante da incapacidade do sistema em absorver diplomados, muitos indivíduos tornaram-se “empresários de si”, adotando uma lógica de mercado que prioriza o sucesso individual e o empreendedorismo em detrimento dos direitos coletivos
Hoje há uma grande frustração em relação aos estudos. A formação de diplomados sem emprego aumentou e muitos buscaram outras opções para ganhar a vida. Uns foram trabalhar no transporte por aplicativo e outros buscaram o caminho do empreendimento. “Alguns dados nos ajudam a compreender melhor o problema. Aproximadamente 2 em cada 10 formados no Ensino Superior conseguem encontrar uma vaga de trabalho equivalente à sua qualificação. Mais especificamente, 78% dos egressos do Ensino Superior estão em vagas que não exigem diploma universitário”.[1]
Por ironia do destino, o acesso maior à escola contribuiu para o fortalecimento da mentalidade neoliberal. Isso porque o sistema não conseguiu absorver todos aqueles que se formaram, de modo que estes tiveram que ganhar a vida através do microempreendedorismo. A jornalista Maëlle Mariette e o sociólogo Franck Poupeau, mostram, para o caso da Bolívia, sob o governo do MAS, que “a quantidade de empregos qualificados não acompanhou” a expansão do número de diplomas. “Desde a pandemia, cerca de quatro em cada dez diplomados abandonaram sua especialidade para voltar-se a outras atividades, muitas vezes informais. Em um país em que cargos de engenheiros e técnicos qualificados são escassos e os cursos de comércio, marketing e comunicação oferecem poucas saídas assalariadas, o horizonte profissional desloca-se para a microempresa. As redes sociais, com o TikTok à frente, estão cheias de tutoriais mostrando como é fácil abrir uma lanchonete de frango frito ou iniciar um negócio de importação e exportação de produtos chineses adaptados à demanda local”.[2] Esta é uma realidade que pode ser averiguada em vários países.
Esse grupo de “diplomados frustrados” contribuiu para o descrédito da educação como forma de mudança de vida, o que abriu caminho para se pensar a ascensão social por meio da empresa.

O nascimento de um sonho
Esta situação pariu uma multidão defensora dos interesses empresariais (fim dos direitos trabalhistas, redução drástica dos impostos, corte de gastos etc.) que está convencida de que, no Brasil, há muitos empecilhos que impedem o empresário de crescer.
Tal ideia é defendida há décadas pelas classes dominantes que, por sua vez, sempre controlou a política nacional, mas precisa mobilizar as massas para obter legitimidade e, assim, criar, a partir do consenso, leis que ampliem sua margem de lucro.
A burguesia vem se aproveitando de um ressentimento cada vez mais popular: “Não consegui a vaga que queria, não pude seguir a profissão para a qual estudei, trabalhei muito e não prosperei como esperava, minha opinião já não é recebida da mesma forma…”.[3]
Para entender esse ressentimento precisamos compreender como surgiu o projeto de dominação ideológica capitalista: o sonho do oprimido em se tornar opressor.
O educador Paulo Freire observou esse constructo mental e constatou que os oprimidos são invadidos pela consciência do opressor, e “na medida em que os invadidos vão reconhecendo-se ‘inferiores’ necessariamente irão reconhecendo a ‘superioridade’ dos invasores. Os valores destes passam a ser a pauta dos invadidos. Quanto mais se acentua a invasão, alienando o ser da cultura e o ser dos invadidos, mais estes quererão parecer aqueles: andar como aqueles, vestir à sua maneira, falar a seu modo”.[4]
Mas onde podemos encontrar o germe desse raciocínio?
As sociedades anteriores não tinham a mobilidade social como característica. Contudo, a ascensão da burguesia e a transformação na concepção de tempo, que se deu ao longo dos séculos XVI e XVIII, promoveram uma nova racionalidade econômica.
O medo do fim dos tempos foi perdendo o sentido já que o Dia do Juízo não chegava nunca. Deste modo, a Igreja vai perdendo o monopólio sobre o tempo futuro para as previsões da astrologia, da matemática etc.. Os Últimos Dias foram ficando cada vez mais distantes do presente, o que permitiu o nascimento do conceito de progresso e aperfeiçoamento da vida terrena. Essa nova racionalidade abriu a possibilidade de fazer planos. “A novidade era a seguinte: as expectativas para o futuro se desvincularam de tudo quanto as antigas experiências haviam sido capazes de oferecer”.[5] Quer se viver melhor. Já que o Apocalipse estava bem longe, por que não acumular riqueza e melhorar de vida?
A ideia de progresso cria uma aceleração do tempo, pois se deseja chegar a um patamar superior em relação ao passado o mais rápido possível. Esse é o momento do esplendor das ideias iluministas e da ascensão da burguesia.
No limiar dessa modernidade acreditava-se que a educação seria fundamental para prosperar nesse novíssimo mundo. A utopia dos filósofos iluministas era uma sociedade esclarecida, livre da ignorância. Assim se atingiria o progresso e o aperfeiçoamento humano.
A contradição burguesa
A burguesia, quando assumiu o poder, utilizou-se dos princípios iluministas universais, como o de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, para contestar os privilégios do Antigo Regime. Mas a sociedade que ajuda a edificar torna esses princípios inviáveis, pois a concorrência é fundamental para a dinâmica do modo de produção capitalista. A liberdade obliterou todos os outros valores.[6] Por isso que Milton Friedman destacou que “como liberais, consideramos a liberdade do indivíduo, ou talvez da família, como o objetivo último no julgamento das organizações sociais”.[7]
O investimento do capital – desde a Revolução Industrial – nas tecnologias da informação e comunicação (TICs), nunca teve o objetivo de levar o conhecimento esclarecido para todos (como sonhavam os iluministas), mas de reduzir a zero o tempo de circulação do capital, isto é, fazer com que a mercadoria saia da produção e chegue até o consumidor o mais rápido possível.[8]
O que se pode constatar desse processo é que essa sociedade da informação não é a do conhecimento filosófico-científico, mas da publicidade (do conhecimento sobre a mercadoria), que mais tardiamente se tornará a sociedade do espetáculo.
Para lidar com esse problema ético (entre os princípios universais que dizia defender e a prática capitalista), a burguesia desenvolveu uma subjetividade específica que irá disseminar através de um árduo processo de convencimento marcado por muita resistência por parte dos oprimidos. A “frieza”, irá dizer Adorno, se torna “o princípio fundamental da subjetividade burguesa”.[9]
A ordem burguesa “estabeleceu, pela primeira vez, em um sentido geral, a possibilidade de uma vida boa para todos”.[10] Isso se dá pela ideologia da escolha racional. O indivíduo deve pensar e agir em termos do custo-benefício, o que promove o “novo princípio de decisões próprias nos assuntos econômicos”. Ou seja, o sujeito é pobre porque não soube administrar bem economicamente a sua vida. Esse fenômeno legitima a indiferença para com os pobres. E é a partir desse raciocínio que Hockeheimer constata que “destes fatos resulta a indiferença como categoria antropológica” da sociedade capitalista.
A lógica do empresário de si
Ao longo das últimas décadas do século XX, uma ideologia vai penetrando no debate popular, e passa a ser debatida no almoço de família, nas conversas de bar etc.. A lógica econômica que vai sendo impregnada na mente dos que vivem dos destroços deixados pelo Estado de bem-estar social é a do “indivíduo-empresa” ou “empresário de si”.
“Ser empresário de si significa lançar uma visão empreendedora sobre sua vida e assumir-se como o único responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso”,[11] explica a professora Kamila Lockmann, partindo de uma vasta bibliografia.
Há, sem dúvida, uma máquina que age através da biopolítica que, valorizando o ethos de empreendedor, do homo economicus, busca conduzir o comportamento das pessoas que sonham um dia alcançar o sucesso. É a forma racional que a burguesia encontrou, alimentada por seus ideólogos da Escola de Chicago, para legitimar o seu domínio e reforçar a expectativa do oprimido em um dia se tornar opressor.
Ignora-se “os comportamentos moralmente desagradáveis que a ética meritocrática promove […] Entre os vencedores, gera arrogância; entre os perdedores, humilhação e ressentimento”.[12] É uma imoralidade (pois contradiz valores que ainda defendemos, como compaixão, igualdade, etc.) que se justifica pela racionalidade do mercado. “Essa situação imoral adentra a racionalidade que se apresenta como o princípio de realidade no modo de conduzir a vida”.[13] É um raciocínio tão frio, que nos EUA, “ajudou a sedimentar a concepção de que a escravidão não havia causado um dano social tão grave, uma vez que só dependia do empenho de cada um a superação dessa questão histórica”.[14]
Emana daí uma subjetividade calculista e individualista na qual se entende que o governo não deve gastar em políticas sociais, mas diminuir os impostos e os direitos trabalhistas para que a empresa possa crescer. A mídia corrobora essa ideia colocando o “equilíbrio das contas” no centro do debate econômico.
O pequeno empreendedor (que não se enxerga como classe trabalhadora, mas como um grupo impedido de crescer por culpa do governo) acredita que um dia poderá ser detentor de uma grande cadeia de lojas, como o “véio da Havan” ou um outro milionário qualquer. É triste saber que muitos têm Elon Musk como referência.
É essa racionalidade neoliberal, marcada pela ideia do empreendedor de si, que legitima a luta pelo enriquecimento a qualquer custo. É uma ação racional, que faz sentido, e que é até mesmo necessária para se adaptar à sociedade capitalista. É daí que surge o desprezo pela coletividade, o ódio à diversidade, ou como prefere o jurista Rubens Casara, a idiossubjetivação. “A ‘idiotice’ é a postura, por excelência, do sujeito neoliberal que atua egoisticamente a partir de cálculos de interesse que visam exclusivamente o lucro ou a obtenção de alguma vantagem pessoal”.[15]
Friedrich A. Hayek, um dos pilares do neoliberalismo, acredita que o individualismo é um dos elementos mais importantes da civilização ocidental. Por isso, segundo o economista austríaco, o socialismo representaria “a etapa final da destruição da civilização construída pelo homem moderno a partir da Renascença e que era, acima de tudo, uma civilização individualista”.[16]
Ou seja, não se trata de moralidade – embora os veículos de comunicação sustentem uma guerra cultural nestes termos. Pode até ser que o trabalhador vote na extrema direita por uma questão moral, mas a razão que sustenta esse voto é uma linguagem política defendida pela direita já há algumas décadas.
Quando a educação não é percebida como um caminho para transformar o oprimido em um opressor (principal objetivo do indivíduo no mundo capitalista) ela perde sua funcionalidade. A frustração como a promessa pedagógica de emancipação é totalmente previsível em uma sociedade que prioriza o crescimento individual e não a convivência social fraterna. O “princípio de realidade” (eu preciso de dinheiro para viver), a necessidade da autopreservação através da concorrência, é contraproducente com a ideia de educar para projetos comunitários. Logo as pessoas iriam perceber, e perceberam… Essa ideologia “descarta a necessidade de existência dos direitos sociais e políticos, os quais, no programa neoliberal e neoconservador, só serviram para difundir um certo clima social de acomodação e desrespeito pelo esforço e pelo mérito individual”.[17] Na racionalidade neoliberal, acredita-se que se um indivíduo se esforçar devidamente terá dinheiro suficiente para pagar por educação, saúde, moradia etc. Sendo assim, não há necessidade de garantia de direitos. Os indivíduos que não conseguem pagar por sua própria existência são “fracassados”, ineptos na administração econômica de sua própria vida.
Os tecnoutópicos foram enganados!
Esse projeto individualista ganhou ainda mais força nas últimas décadas por conta das redes sociais. Intelectuais como Pierre Lévy, Henry Jenkins, Helber Faggion, Dan Gilmor e outros acreditavam numa espécie de “tecnoutopia liberal” na qual uma democracia eletrônica promoveria um “processo de democratização da informação, com páginas virtuais servindo de veículos para a formação de uma sociedade portadora de uma consciência cívica maior”.[18]
Mas eles foram enganados pela burguesia tal como o foram os iluministas de outrora. Isso porque as condições materiais de existência, forjadas pelas exigências do capital, impedem qualquer utopia humanitária de se realizar. Como explica Andreas Gruschka, na sociedade burguesa, “a exigência de mais espírito comunitário é impedida devido à estrutura da sociedade. Na verdade, a busca do próprio interesse particular à custa do interesse geral é protegida pela ordem burguesa”.
O que aconteceu foi que muitos observaram pessoas prosperando (no sentido capitalista do termo), a partir de negócios simples, provenientes de investimentos em marketing, publicidade etc. Um novo consenso emana desta realidade comunicacional: é possível crescer vendendo um produto, nem que seja você mesmo.
Nesse universo comunicacional, devido à velocidade da informação, o desenvolvimento do conhecimento filosófico-científico é impraticável por exigir tempo, debate, crítica etc. Por outro lado, a publicidade, isto é, a exposição de uma marca (que pode ser você mesmo), encontra um terreno extremamente fértil. Não há como a educação ter mais valor que os mecanismos que facilitam a venda de um produto, já que o valor de troca é o centro gravitacional de um mundo que exige dinheiro para a autopreservação e para o crescimento individual.
Mas é certo que essa ideologia baseada no enriquecimento individual a qualquer custo também irá perecer, assim como a ideologia de que o estudo levaria a ascensão social. Até porque uma sociedade formada somente por empreendedores seria insuportável. O que virá depois que a frustração chegar? Certamente a burguesia poderá manipular os meios de comunicação de massa e formular novos sonhos. Ou será que as propostas humanitárias ocuparão o vácuo deixado?
Raphael Fagundes é professor e Doutor em História Política pela UERJ.
[1] https://blogdaboitempo.com.br/2025/10/27/diplomados-e-precarizados-da-universidade-para-as-plataformas-digitais/
[2] MERIETTE, M. e POUPEAU, F. Por que a direita voltou ao poder na Bolívia. Le Monde Diplomatique Brasil. Nov. 2025, p. 23.
[3] SCHUCMAN, L. V. e STRAPPAZZON, A. L. Medo, ressentimento e esperança nas urnas. Le Monde Diplomatique Brasil, set, 2006, p. 5.
[4] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p. 151.
[5] KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad. Wilma Patrícia Maas. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006, p. 318.
[6] https://revistaforum.com.br/opiniao/professor-ninguem-fica-rico-estudando/
[7] FRIEDMAN, M. Capitalismo e liberdade. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1988, p. 21.
[8] MARX, K. O capital. Livro II. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 204.
[9] Apud GRUSCHKA, A. Frieza burguesa e educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2014.
[10] Id., p. 42.
[11] LOCKMANN, Kamila. Assistência social, educação e governamentalidade neoliberal. Curitiba: Appris, 2019, p. 137.
[12] SANDEL, M. A tirania do mérito. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2021, p. 38.
[13] GRUSCHKA, A. p. 64.
[14] CASTELLANO, M. Vencedores e fracassados. Curitiba: Appris, 2018, p. 45.
[15] CASARA, R. A construção do idiota. Rio de Janeiro: Da Vinci, 2024, p. 24.
[16] HAYEK, F. A. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, p. 39.
[17] GENTILI, P. Adeus à escola pública.GENTILI, P. (org.) Pedagogia da exclusão. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 234.
[18] BEZERRA, A. Cultura ilegal. Rio de Janeiro: Mauad X, 2014, p. 87.

