Olhando para o futuro - Le Monde Diplomatique

POR SILVIO CACCIA BAVA

Olhando para o futuro

por Entrevista com frei betto
1 de dezembro de 2010
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Com uma maioria confortável no Congresso, o novo governo eleito poderá operar mudanças que o governo Lula não teve condições de realizar. No entanto, as indicações são de que o projeto esenvolvimentista se imponha e se expanda regionalmente, mesmo fragilizando as relações com o meio ambiente e com os movimentos sociaisEntrevista com frei betto

Le Monde Diplomatique Brasil– Queremos lhe pedir uma análise deste momento pós-eleitoral, das forças políticas presentes. Todos estão tentando interpretar para aonde vai a Dilma e o seu governo e o que significa, em termos de capacidade de governar, a aliança com o PMDB. Quais novidades podemos ter nas eventuais diferenças com o governo Lula?

FREI BETTO – Considero que Dilma terá, sobre Lula, a vantagem de contar com a maioria parlamentar na Câmara dos Deputados e no Senado e, por outro lado, a desvantagem de ter o PMDB na vice-presidência, pressionando por cargos e benesses. O lema do PMDB, ao contrário dos espanhóis, é: “Hay gobierno, soy a favor”. Além do PMDB, há mais nove partidos na coligação que elegeu Dilma presidenta. Há que acomodar cada um deles na máquina federal. É esse tipo de política clientelista, de loteamento de cargos, ministérios e autarquias, que a reforma política precisa riscar da História do Brasil. Quando o governo adota a lógica do poder como moeda de troca, é a nação que sai prejudicada. Infelizmente, a campanha eleitoral se fez sem uma proposta programática consistente. Venceu a ideia genérica de que Dilma dará continuidade ao governo Lula. Ora, há que aprofundar aspectos que o governo Lula ignorou, como as reformas estruturais. E agora Dilma não tem desculpa para evitar reformas, como a agrária, a tributária e a política, pois conta com a maioria no Congresso.

Diplomatique – Há uma grande preocupação com a erosão da democracia aqui e fora do país, erosão do espaço público, debilidade dos movimentos sociais e da cidadania em suas capacidades de impor uma agenda de direitos, cooptações, acabamos não tendo capacidades na sociedade civil de exercer a crítica às políticas de governo.  E quando essas críticas são formuladas em público, muitos dos ouvintes supostamente prejudicados se põem em defesa do governo e do Lula. Não temos uma esquerda capaz de exercer essa tarefa, temos 83% de apoio ao Lula, como você vê os desafios para a rearticulação do campo político popular e democrático? Como andam os movimentos sociais?

FREI BETTO – A maior contradição do PT é ter sido gerado e fortalecido pelos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, ignorá-los como força política de governabilidade. Por isso, nas últimas eleições já não se viam militantes pelas ruas, e sim cabos eleitorais remunerados para fazer propaganda… Lula desperdiçou a oportunidade histórica de assegurar a governabilidade sobre duas pernas: apoio parlamentar e mobilização dos movimentos sociais. Preferiu um governo-saci, em permanente negociação com os parlamentares, o que resultou no mensalão. E movimentos como a CUT e a UNE foram cooptados pelo governo. Esse tipo de postura dificulta que o Brasil passe de um sistema democrático meramente delegativo, pelo voto, ao representativo e, sobretudo, participativo, com a sociedade política em relação de alteridade frente à sociedade civil organizada em movimentos sociais.

Diplomatique– Será que teremos um projeto nacional desenvolvimentista? O modelo de desenvolvimento que o governo Lula anda impulsionando parece considerar os danos ambientais como inevitáveis. Dilma, a “mãe” do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) deve continuar nesta linha. Como é que isso cruza com o enfrentamento do aquecimento global, mudança cultural e valores orientados para solidariedade, equilíbrios sociais, redução de violência e exclusão?

FREI BETTO – Ainda que o governo Lula represente significativos avanços em nossa história republicana, como libertar 20 milhões de pessoas da miséria e assegurar ao Brasil independência e soberania nas relações internacionais, ele permaneceu refém do paradigma produtivista-consumista, que favorece o sistema capitalista neoliberal. A lógica do crescimento do PIB predomina sobre a de nossa FIB – Felicidade Interna Bruta. Ora, o Brasil é um país que apresenta todas as condições para adotar um modelo econômico, social, político e ambiental próprio, capaz de assegurar ao conjunto de sua população mais qualidade de vida, justiça social e paz. É preciso aprofundar, entre nós, o debate sobre o “bem viver” que se intensifica em nossos vizinhos andinos. Temos 600 milhões de hectares cultiváveis, mais 200 milhões (a Amazônia) ricos em potencial extrativo, 13% da água potável do planeta e uma diversidade de ecossistemas raramente encontrada em outras regiões do planeta. Só nos falta vontade política!

Diplomatique– Estamos assistindo a uma direitização praticamente do mundo inteiro, com as reações populares na Europa, o Tea Party ganhando espaço, as discussões fundamentalistas se espraiando (aqui há discussão se alguém crê ou não em Deus, se é favorável ou não ao aborto, como se fossem temas da alçada de decisões da Presidência da República), o resultado das eleições brasileiras colocou uma cunha nessa direitização também da América Latina ou não?

FREI BETTO – Sim, as pessoas, pressionadas pela ideologia neoliberal, que é maniqueísta, estão trocando a liberdade pela aparente segurança. Daí o Tea Party, o fundamentalismo, o silêncio da maioria quando George W. Bush admite, em seu livro de memórias, ter autorizado a CIA a torturar! Contudo, a crise financeira desmascara o sistema e gera na população uma grande insegurança. Minha esperança é que, na Europa ocidental, as forças de esquerda se reorganizem. Caso contrário, os fascistas se fortalecerão como ocorre hoje na Grécia e nos EUA.

A vitória da Dilma contribui para garantir essa articulação progressista de países da América Latina, essa primavera democrática simbolizada por Lula, Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), José Mujica (Uruguai), Cristina Kirchner (Argentina), Daniel Ortega (Nicarágua), Mauricio Funes (El Salvador)… É sintomático o fato de todos os países latino-americanos e caribenhos serem, hoje, contra o bloqueio dos EUA a Cuba e favoráveis à autodeterminação do povo cubano. Mas o golpe militar de Honduras e a tentativa de desestabilizar o governo Correa no Equador são sinais preocupantes. Hoje, o nosso continente apresenta condições políticas de operar reformas estruturais pelas vias pacífica e democrática. E essa rara oportunidade histórica não pode ser perdida.

Diplomatique – Parece que o presidente colombiano não mandará mais para o Congresso o pedido de licença para as bases militares dos EUA, a Bolívia parece que consegue um acordo com o Peru para ter uma saída para o mar… Há indicações de um fortalecimento das iniciativas regionais… e como ficam as perspectivas de atuação do Brasil na região?

FREI BETTO – O Brasil, por sua importância estratégica – faz fronteira com dez países da América do Sul –, tem papel preponderante no empenho de reforçar a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) e, agora, o novo organismo que congregará todas as nações do Continente sem a presença dos EUA e do Canadá. Após a rejeição da proposta da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e o fracasso do NAFTA (Tratado Norte-Americano de livre-comércio) no México, estão criadas as condições favoráveis a nos libertar da pecha de “quintal dos EUA”. Resta encontrar a via econômica que nos liberte da dependência dos países metropolitanos. Nesse sentido, devemos estar atentos às reformas econômicas que, em breve, serão efetuadas em Cuba, como forma de aprimorar o socialismo na atual conjuntura internacional. Cuba não nos deve servir de modelo, mas o fato de haver erradicado a miséria e o analfabetismo e assegurar a toda a população direitos fundamentais, como alimentação, saúde e educação, devem pelo menos nos fazer pensar que são, sim, factíveis “outros mundos possíveis” fora da lógica de acumulação privada do capital e do paradigma produtivista-consumista.



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