Olhar para todos os lados e perscrutar o horizonte

Mobilizações do 29M

Olhar para todos os lados e perscrutar o horizonte

por Cândido Grzybowski
4 de junho de 2021
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Sem uma estratégia de radical transição, que aponte mudanças estruturais que nunca foram feitas, a via institucional pode nos levar a uma grande farsa, na melhor das hipóteses ao tal reformismo sem esperanças para a maioria excluída

A sensação é de sufoco, angústia e impasse no horizonte. Há um vírus da morte solto no ar, causando muitas perdas e ameaças. Todo mundo chora alguém querido que se foi antes do tempo não fosse o “desgoverno” da pandemia, literalmente. Para milhões a falta de comida é uma ameaça diária, para muitos outros milhões ela está à espreita, mais visível e presente do que o fantasma do vírus. Falta trabalho para todas e todos e a renda não dá, precisando desesperadamente de ajuda. Dor, sofrimento e incerteza, assim como desejos e sonhos, afetos, momentos de satisfação são dimensões da vida sempre presentes. Mas, na conjuntura atual são avassaladoras pela sua intensidade e difusão entre nós, nos lares, nas ruas, no transporte, no mercado, nas redes sociais, na televisão, em toda parte.

Como isto impacta a conjuntura e quais as perspectivas de amanhã? Entramos num momento exacerbado em que a necropolítica como forma de exercer o poder é hegemônica. Temos um líder fascista, racista e machista assumido no Executivo Federal, legitimado pelas urnas e pelos religiosos vendedores de prosperidade – para si mesmos, a bem da verdade -, pela cumplicidade das forças dominantes que priorizam seus privilégios acima de tudo, com os postos dirigentes do executivo tomado pela volta dos militares, com amplo apoio de milicianos e polícias de uma malha que cobre o país inteiro.

Esperar algo do Congresso dominado pelos que se vendem a quem dá mais ou do Judiciário e seus indecifráveis discursos para pouco ou nada garantir em termos democráticos, além do espetáculo que nos propiciam diariamente e que é oferecido pela mídia dominante com coberturas intermináveis, é se iludir e resignar. Afinal, donde nada pode vir na atualidade, nada virá mesmo! Por que olhamos tanto com foco no Planalto Central? Será que na planície e no resto do país, até no mundo de que somos parte, queiramos ou não, nada está ocorrendo?

Já que estamos em isolamento – mesmo a meias pois muitos se negam e muitos mais não podem se isolar, mesmo sendo necessário – o melhor a fazer é se dar ao esforço de sair do que está sendo dito e escrito, olhando mais além e perscrutando melhor o horizonte e tudo à nossa volta para ver caminhos… que sempre eles existem, por mais estreitos que sejam os desfiladeiros. Este é o maior desafio em análises de conjuntura: não se deixar seduzir pelas narrativas dominantes e suas pegadinhas!

Em rodas de conversa em pequeno grupo de “compas” de muitas lutas por direitos de cidadania, com igualdade e liberdade – on line, dado o momento –, temos tentando juntos aguçar o olhar pesquisador de sinais, de movimentos, do que parece despertar a esperança, apesar das circunstâncias históricas. Aí volta o velho conselho de lutadores históricos pelo bem comum da humanidade: não basta entender a realidade, o fundamental é pensar em como transformá-la.

Manifestação na Av. Paulista contra Bolsonaro – 29 de maio. (Foto: Allan White/Fotos Públicas)

Começo apontando o que tem tudo para ser uma rota de saída institucional, mas que apenas nos reconduz ao que era antes, àquela conciliação política e uma democracia de baixa intensidade dos trinta anos após o regime militar. Chegamos a esta situação de agora, tão ameaçadora, exatamente pelo pacto de transição da ditadura à democracia, embutido na Constituição de 1988, de direitos mais amplos sem enfrentar as causas estruturais das exclusões e desigualdades sociais, da violência, racismo e patriarcalismo, da destruição ambiental e de um desenvolvimento predador da integridade dos territórios que constituem a base comum da vida de toda a cidadania, sem discriminações. Houve avanços com o “reformismo fraco”, mas não transformação da lógica de uma economia, sociedade e poder herdados do colonialismo e do escravismo que está na nossa certidão de nascimento como país. Afinal, até o nome de nossa nação – Brasil, pau Brasil – atesta a mercantilização absoluta com que fomos formados, literalmente a pau, chicote e fogo.

Esta via institucional é uma aposta nas eleições de 2022. No imediato, é sim uma possibilidade razoável, mas em si mesma não passa de uma volta ao que era. Esta parece ser a única via possível, em que a própria esquerda institucional brasileira, hegemonizada pelo PT, aposta todas as fichas. Mas, e daí? Como governar sem pactuar com forças políticas de centro e direita, as mesmas que promoveram o golpe do impeachment, o fantoche governo Temer e viabilizaram a eleição de Bolsonaro, grande parte delas ainda apoiando-o no Congresso? Bem, sem contar que a institucionalidade foi profundamente alterada desde então, num retrocesso de reformas constitucionais, desconstrução de direitos de cidadania, desmonte da capacidade do Estado prover políticas fundamentais de educação, saúde, providência social, proteção ambiental, militarização, parecido ao que a ditadura militar promoveu.

Sem uma estratégia de radical transição, que aponte mudanças estruturais que nunca foram feitas, a via institucional pode nos levar a uma grande farsa, na melhor das hipóteses ao tal reformismo sem esperanças para a maioria excluída.

Admitir que é impossível outro caminho é como aceitar a derrota antes de lutar. Aliás, nossa alternativa é apostar no que parece impossível para que descubramos os rumos e engajemos nossa energia cidadã na construção de caminhos de esperança, com democracia viva, participativa e radical, de transformação ecossocial. Precisamos agir desde aqui e agora na construção de pensamento estratégico que aponte caminhos possíveis de mudança. Neste sentido, a institucionalidade atual é um recurso tático e não pode ser o objetivo estratégico a alcançar, como parece ser o que visam as esquerdas partidárias atuais, de costas para o que vivem em seus territórios, urbanos e rurais, as diversas e sofridas cidadanias de nosso país.

Olhar mais para as turbulências e desafios do viver e menos para o poder causador é o desafio para produzir um potente pensamento estratégico de mudança de tudo isto. O caminho será longo, além de estreito desfiladeiro, cheio de ameaças. Mas o importante é apostar na sua construção. Não fazer isto é admitir que a polarização autoritária radical, que parece dominar totalmente a cena política no Brasil de hoje (como afirma Vladimir Safatle), não poderá ser derrotada por uma polarização democrática, a seu modo também radical. Mas esta polarização alternativa precisa ser buscada e construída.

Aqui cabe lembrar a enorme quantidade de iniciativas de solidariedade e ação local, em meio à pandemia, a fome, as várias formas de violência e exclusão, mesmo sob ameaça de milicianos, grupos armados e polícias. A resiliência popular, que está aí, pode ser potencializada, como já foi em alguns momentos históricos, formando movimentos sociais e coalizões irresistíveis. Estou falando de nós, aqui no Brasil, como atestam muitos esforços fora do alcance da grande mídia e dos próprios partidos. Existem muitas iniciativas e redes, falta conexão ampla e o olhar mais estratégico de forças democráticas sobre eles. A potência pode vir daí.

Aliás, olhando mais longe, para trás, para frente e para o lado, sempre vamos descobrir que as potentes iniciativas transformadoras brotam no chão da cidadania, nas ruas e caminhos que permitem as confecções e as construções dos tecidos sociais e cidadãos de resistência e ação, irrompendo na vida política e fazendo tudo ruir, em levantes transformadores. Neste momento histórico, vale a pena aprender com o levante popular no Chile, vitorioso até agora, mas com enormes desafios pela frente no esforço que só cidadania ativa pode fazer: ser instituinte e constituinte do novo, até contra as forças políticas estabelecidas e que perderam legitimidade. Não dá para saber até aonde vai chegar a onda de protestos da cidadania rebelde na Colômbia, mas que já balançou as férreas estruturas de poder não há dúvidas.

A tarefa primeira é desconstruir, desfazer, emancipar-se. Não pode acontecer o novo sem afetar a lógica da dominação e exclusão do que tá aí. Negociações e concessões só para dar conta de enorme diversidade, pois não existe uma só solução. Mas com dominação excludente que imposta desde todo sempre neste nosso país, não dá para continuar suportando. O caminho da mudança sempre é logo, pois o caminho concreto se faz no andar, como já sabemos. Outras ameaças e perdas vão ocorrer, mas nada comparável ao que já não temos agora e que significa opressão, desigualdade, abominável exclusão e violência para a maioria.

Termino lembrando o grande intelectual brasileiro, Florestan Fernandes. Com maestria, ele soube apontar caminhos de transformação já existentes na nossa formação colonial e escravista: o impulso igualitário que move a cidadania e que acaba sendo a força em si e para si da democracia. É neste impulso, presente em toda parte em meio a inúmeras relações processos e contradições estruturais que sofrem as maiorias que tem direitos negados, Florestan viu o sentido mesmo do ser e fazer democracia radical. Ou nos juntamos a isto que ocorre nos interstícios dos territórios de cidadania, ou não teremos outro futuro a celebrar como nação de bem consigo mesma.

Rio, 29/05/21 – Dia de mobilização contra Bolsonaro… em meio às adversidades de hoje.

Cândido Grzybowski é sociólogo, presidente do Conselho de Gestão do Ibase



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