ONDE VOCÊS ESTAVAM, QUANDO A LANÇARAM À FOGUEIRA DA INQUISIÇÃO VIRTUAL?

Onde estavam as pessoas que, hoje, lamentam a morte de Maria Paula Meneses?

Um brinde à vida e à obra de Maria Paula Meneses!

Morre Maria Paula Meneses (1963–2026), docente e pesquisadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Portugal, e da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique, com quem tive o prazer de conviver durante o meu intercâmbio doutoral no CES, em 2014.

Nascida em Maputo e doutora em Antropologia pela Universidade de Rutgers (EUA), Maria Paula coordenou, durante vários anos, o Programa de Doutoramento em Pós-colonialismo e Cidadania Global do CES, e o curso internacional “Epistemologias do Sul”, da CLACSO. Em 2026, será lançada a obra póstuma Moçambique e o Sul Global: Uma perspectiva a partir das epistemologias do Sul (Editora 70), com foco na construção de um projeto educativo pós-colonial e crítico às heranças deixadas pela colonização portuguesa no país africano.

Estou profundamente impactada com a partida da professora, dedicada e assertiva. Entretanto, lendo os belos e elogiosos testemunhos, publicados in memoriam, nos últimos dias, nas suas redes sociais, me senti menos emocionada e mais…  indignada. Raivosa, até.

Onde vocês estavam???? Onde vocês, que hoje homenageiam Maria Paula, estavam, quando ela foi lançada à fogueira da inquisição virtual?

A pergunta é retórica, claro, e a resposta me é bem mais do que conhecida. Vocês estavam recolhidas, em um silêncio angustiado, solitário. Como eu. Como tantas outras pesquisadoras e ativistas que passaram pelo CES e relatam experiências frutíferas e respeitosas, léguas distantes da imagem que hoje povoa o imaginário das pessoas acadêmicas.

Ocorre que no início de 2023, o livro Sexual Misconduct in Academia: Informing an Ethics of Care in the University foi lançado por uma prestigiada editora britânica. Um dos capítulos tinha como alvo o diretor emérito do CES, Boaventura de Sousa Santos, e apresentava Maria Paula, sua companheira intelectual de longa data, como cúmplice de um ambiente tóxico e impregnado de assédios, abusos e extrativismo intelectual. Por falta de sustentação o capítulo foi retirado de circulação já em setembro de 2023. O caso nunca foi submetido ao crivo do judiciário e as denúncias não foram comprovadas. Mas uma faceta escandalosa da história viralizou e a condenação virtual se consolidou.

Diante da humilhação pública que a intelectual sofreu, nos recolhemos. E encolhemos. Nocauteadas e atordoadas pelo medo de nos tornarmos os próximos alvos da difamação e do linchamento moral, orientados por uma ética e uma moral absolutas, elevadas, superiores e isentas de contradições.

Como nas ditaduras históricas, a lógica do cancelamento espalha o terror para abafar divergências, ainda que mínimas. Hannah Arendt descreve esse tipo de medo como fenômeno antipolítico e forjador de uma forma de coletividade artificial e desumanizada. Coletividade essa que, no contexto do cancelamento hodierno, descarta (1) o princípio da presunção de inocência; (2) o direito ao contraditório e à ampla defesa; (3) a via jurídica como caminho de justiça e reparação e a (4) possibilidade de que sujeitos e coletividades historicamente oprimidos sejam, por vezes, opressores.

No campo progressista, o medo do cancelamento torna-se ainda mais complexo, pois ele acompanha conquistas reais de direitos dos grupos historicamente subalternizados – pautas às quais dedicamos nossas pesquisas e militâncias.

Estaríamos na idade do terror de nossas revoluções? Sendo a condenação sumária de uns e outros à guilhotina, parte inevitável do processo de superação das estruturas colonialistas, racistas e patriarcais que forjam as nossas subjetividades e formas de sociabilidades?

Talvez. Porém, em nota crítica[i]  assinada por 23 mulheres acadêmicas e militantes e publicada no final de 2025, defendemos que não podemos abdicar do uso contra hegemônico do aparato jurídico em prol de uma inquisição digital que ignora garantias básicas e traz inúmeros problemas legais, éticos e metodológicos, a saber: violação do direito autoral, plágio, desonestidade intelectual, impossibilidade de verificar a consistência dos dados diante do apagamento de etapas da pesquisa, etc. Além de tudo isso, a lógica canceladora tem a capacidade contribuir, efetivamente, para a destruição de carreiras e vidas. Como a de Maria Paula, dedicada à luta contra as desigualdades, o racismo e as injustiças que atravessam o Sul Global, em especial Moçambique.

Fotografia de Maria Paula Meneses. Ela veste uma blusa verde e está na frente de uma prateleira
Maria Paula Meneses Crédito: © CES/UC

Amigos e familiares próximos confirmam que os médicos do centro de referência Fundação Champalimaud, que a acompanharam após o diagnóstico do câncer pancreático estágio IV que a levou, concordam quanto ao nexo entre a difamação sofrida, o estado de depressão em que adentrou e a ferocidade da doença. Em artigo publicado pela Revista Brasileira de Oncologia Clínica, o doutor em imunologia pela Universidade de Bristol e professor da PUC-RS Moisés Bauer, explica o papel imunomodulatória do hormônio cortisol e o mecanismo através do qual fatores como a depressão, a ansiedade e o stress crônico contribuem para o surgimento e a progressão de tumores[ii].

Carl Jung afirmou que um dos melhores trabalhos políticos e sociais que os seres humanos poderiam fazer seria reconhecer as próprias sombras e parar de projetá-las nos outros[iii].  Mirando o homem branco europeu, da metrópole colonizadora, atingiram a mulher negra, oriunda de uma Moçambique colonizada.

Um brinde à vida e à obra de Maria Paula Meneses! Vida que, como qualquer outra humana, há de ter navegado por águas turvas, turbulentas e contraditórias, próprias à complexidade de nossas existências e psiques. Que a sua partida, triste e precoce, nos convoque a uma reflexão mais apurada sobre os efeitos devastadores do cancelamento e sobre a necessidade de bani-lo, de vez, de nossos espaços de docência e pesquisa.

 

Bruna Muriel é Docente da Universidade Federal do ABC (UFABC). Doutora pelo Programa em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam-USP). Realizou o doutorado-sanduíche no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

 

[i]https://jornalggn.com.br/opiniao/nota-critica-de-mulheres-academicas-sobre-a-politica-do-cancelamento.

[ii] https://www.sboc.org.br/sboc-site/revista-sboc/pdfs/1/artigo3.pdf

[iii] UNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

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