Onze anos da chacina de Osasco e Barueri
Mães de vítimas do estado de São Paulo participam de ato-debate na Unifesp em torno da memória dos entes queridos e da afirmação da vida

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) recebeu, na noite de 20 de agosto, no seu campus em Osasco, o ato que rememorou os onze anos da chacina de Osasco e Barueri. Zilda Maria de Paula, Aparecida Gomes da Silva Assunção, Antônia Lúcia Gomes da Silva, Maria José Lima da Silva e Rosa Francisca Corrêa, mães de homens assassinados naquela ocasião, receberam homenagens de professores, alunos e pesquisadores, além de falarem sobre suas experiências aos presentes. O público era majoritariamente composto por alunos do primeiro ano do curso de Relações Internacionais.
“Partimos do princípio de que lembrarmos o absurdo e a violência do que aconteceu a essas pessoas é uma forma de construir a possibilidade de que não aconteça novamente. Mais do que isso, lembrar é uma forma de novamente ter de alguma maneira a presença das pessoas que foram arrancadas”, disse Joana Barros, professora da Unifesp e vice-coordenadora do LASInTec.
Ocorrida entre 8 e 13 de agosto de 2015 na Região Metropolitana de São Paulo, a chacina de Osasco e Barueri deixou pelo menos 29 mortos. A onda de violência foi levada a cabo por um grupo de agentes de segurança encapuzados que percorreu as ruas da região assassinando moradores como vingança pelas mortes, dias antes, de dois policiais que faziam bicos ilegais como seguranças na região. As vítimas da chacina não tinham quaisquer relações com os crimes anteriores e ainda hoje o episódio é considerado uma das maiores matanças já ocorridas no Estado.
Logo no dia seguinte à chacina, familiares das vítimas – sobretudo mães – começaram a se conhecer nas delegacias e filas do Instituto Médico Legal, no momento de maior dor e desespero que poderiam passar em toda a vida. A partir daí, e com apoio de Débora Silva, do Movimento Independente Mães de Maio (que reúne mães e familiares de vítimas dos Crimes de Maio de 2006), as mães de Osasco e Barueri formaram a Associação 13 de Agosto. Cerca de uma semana após a chacina, já faziam seu primeiro protesto por justiça e memória.
Entre 2017 e 2018, quatro agentes de segurança (três policiais militares e um guarda civil metropolitano de Barueri) foram identificados, presos e condenados a penas centenárias. Em 2019, o advogado de dois dos PMs condenados conseguiu uma revisão da sentença. Em 2021, esses mesmos agentes eram inocentados pelo tribunal do júri e, dois anos depois, reintegrados às forças.
Os anos passaram, a justiça não veio e a pauta dos atos então passou a ser pela memória dos entes queridos e em afirmação da vida. Seja as vidas delas próprias e de outras mães, como as de tantos jovens que a qualquer momento podem ser as próximas vítimas. Ao longo de todos esses anos, a Associação 13 de Agosto fez manifestações a cada aniversário do massacre e a cada nova audiência nos tribunais. Em 2025, no marco dos dez anos, uma manifestação foi realizada no Jardim Munhoz Júnior, bairro onde aconteceram boa parte dos homicídios. Na ocasião havia algumas centenas de pessoas, almoço, telão com documentário, microfone aberto e música.
“No ano passado fizemos um ato gigantesco lá no Munhoz, com a presença de muitos movimentos sociais, muitos movimentos de mães e outros movimentos contra a violência do Estado. Foi, ao mesmo tempo, um marco dessa década de luta da Associação 13 de Agosto, mas também, eu senti, e faço agora uma análise pessoal, que houve um esgotamento. O que fez com que este ano de 2026, dos onze anos, tenha sido muito difícil para todas as mães”, disse o professor Acácio Augusto, do Departamento de Relações Internacionais, na apresentação do evento.
Acácio é cientista político e, ao lado de Joana Barros, coordena o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec), grupo acadêmico que atua junto à Associação 13 de Agosto há sete anos, seja ajudando na organização dos atos anuais, seja nos esforços de recuperar as memórias de vida dessas mães e de compreender o quadro mais amplo de violência que produz esse tipo de episódio. Ele explicou porque não houve um ato público em 2026 como nos outros anos.
“A praça onde ocorrem os atos está fechada para reformas e a saúde de algumas das mães está debilitada. Mas não podíamos deixar simplesmente em branco, porque uma das bandeiras que a gente carrega é a bandeira da memória. A ideia hoje é marcar mais uma vez, para as mães em especial, que elas não estão sozinhas, e que a gente está aqui para lembrar mais uma vez que o Estado é responsável pelas mortes desses jovens e que a polícia continua sendo esse instrumento de gestão violenta dos corpos pobres e pretos em São Paulo e no Brasil como um todo”, concluiu.

Feita a apresentação, cada uma das mães falou aos presentes. Ao final da matéria, você poderá conferir as falas e as fotografias delas. Aparecida, Antônia, Maria e Rosa são mulheres de poucas palavras e muito coração. Não se alongaram no discurso, mas sim nos abraços ao final do evento. Todas disseram os nomes dos seus filhos em voz alta e agradeceram o apoio que receberam ao longo dos anos da comunidade universitária. Foi emocionante vê-las agradecendo a dona Zilda Maria de Paula, principal figura da Associação 13 de Agosto, pelos laços que construíram ao longo desses anos.
“Eu nem sei o que dizer sobre a gratidão das mães. Têm outras mães também que não puderam vir, e não é fácil você dar a cara a tapa porque nem todos os caras foram presos. E infelizmente esse ano não deu para a gente fazer o ato na rua que nos acostumamos a realizar. Não podemos deixar esquecido esse massacre. Dois (assassinos) estão presos. Só dois. Mas não foram só eles que mataram. Todos os meninos morreram praticamente na mesma hora. E quando fazemos os atos aparece polícia para nos intimidar… mas nós somos mães. A nossa arma é essa bandeira e o nosso grito”, disse dona Zilda.
Ela é a mãe do Fernando Luís de Paula, morto aos 35 anos no Bar do Juvenal, próximo da casa onde ainda mora no Jardim Munhoz Júnior. Seu filho havia acabado de pintar a sala – num tom de amarelo que permanece colorindo o lar ainda hoje – quando saiu para cortar o cabelo, parou no bar da esquina e simplesmente foi alvejado no rosto.
“Minha prima também perdeu um filho lá em Taipas com a mesma violência. E eu quis trazer ela. Antes disso fiquei doente, quase que eu fui, mas não morro porque tenho uma missão muito grande para fazer ainda. Todo dia eu peço para Deus não me levar porque tem muita coisa ainda para fazer. E esse ano, não sei se vocês notaram, caiu no mesmo dia: os meninos morreram na quinta (13 de agosto). É uma data que não deveria nunca existir. Quero agradecer muito as pessoas que rezaram por mim”, finalizou dona Zilda, que está com 74 anos.
Após as falas das mães foi a vez da comunidade acadêmica prestar suas homenagens à Associação 13 de Agosto. A primeira foi a pesquisadora Gabriella De Biaggi, do LASInTec, que leu um artigo da Miriam Duarte Pereira, uma das fundadoras da Associação de Amigos e Familiares de Presos/as (Amparar).
Em seguida, Maria Minussi leu o texto “Um samba da bicicleta que resiste”, de Carolina Rosmaninho. Ambas são pesquisadoras do LASInTec e o texto foi produzido no contexto do ato de dez anos e publicado num livreto chamado “Cadernos: fragmentos e memórias” junto com outras produções sobre aquela jornada.
Por fim, os coordenadores Carla Osmo (Clínica de Direitos Humanos), Acácio Augusto e Joana Barros (LASInTec), fizeram as falas oficiais dos seus respectivos grupos acadêmicos, destacando a importância da convivência com dona Zilda e as outras mães. Ao final, todos os presentes estavam muito emocionados. Ainda ocorreu um café com bate-papo com as mães.
“Sou professora de Direito aqui e eu conheci a Zilda cinco anos atrás. A primeira conversa que eu fiz com ela ainda estávamos na pandemia, foi por telefone, e a gente estava criando o curso de Direito na Unifesp. Perguntei para a Zilda como é que nós (o novo curso) poderíamos somar na luta das mães. E a Zilda foi nos mostrando que o mais importante era estar junto nesse percurso que é tão difícil, e tentar intermediar essa linguagem do Direito que pode ser tão dura e violenta. A partir desse momento, o que eu percebi é que, na verdade, você, Zilda, seria a nossa maior professora, desde o momento em que a gente começa a dialogar, você começa a conversar com os nossos alunos e todos aqueles que têm contato com você saem transformados, saem comprometidos em fazer diferente. Zilda, você deu a maior aula de Direito que essa universidade poderia ter”, declarou a professora Osmo.
Aparecida Gomes da Silva Assunção

“Pessoal, boa noite. Sou Aparecida, mãe do Leandro. Eu agradeço a presença de todos vocês nesta noite, mais de um ano que se passou, e a gente, com a ajuda de vocês, não ficou esquecida. Não passou a data sem relembrar. Muito obrigada a todos.”
Antônia Lúcia Gomes da Silva

“Boa noite, meu nome é Antônia, sou mãe do Jailton e eu só tenho a agradecer a todos vocês porque é muita angústia. Passam anos e mais anos, e o meu filho deixou três filhos e eu que criei os três. Obrigada pelo apoio. A Zilda foi fundamental na nossa vida, essa mulher abraçou a nossa casa, que nós nem nos conhecíamos e começou a lutar conosco, porque eu mesma não tinha forças para nada. O Gustavo (neto) ficou órfão com 1 ano de idade. Nesse mesmo dia, minha mãe teve um AVC (ao saber do falecimento de Jailton) e aí eu fiquei com as crianças e com a mãe acamada pra cuidar. E a Zilda me acolheu, me abraçou, me ajudou. Cada dia que eu chorava uma lágrima, a Zilda estava junto comigo, chorando. Depois todas nós nos encontramos e aqui estamos. Só tenho que agradecer a vocês pelo amor, pelo carinho, pelo apoio e todo ano é a mesma coisa. Obrigada!”
Maria José Lima da Silva

“Boa noite, gente. Sou Maria José Lima da Silva, a mãe do Rodrigo Lima da Silva. Eu tenho que primeiramente agradecer a dona Zilda. Ela foi uma pessoa muito especial na minha vida e me deu o maior apoio. Eu estou contando com o apoio de vocês em ser mais forte e eu vou aguentar mais um ano. Obrigada a todos.”
Rosa Francisca Corrêa

“Boa noite, meu nome é Rosa, sou mãe do Wilker e eu também tenho que agradecer muito a Zilda porque ela é fundamental para esse grupo existir. Agradecer a vocês pelo apoio cada ano. Não tem passado em branco, e por isso não tem caído no esquecimento. E nós ainda contamos com a ajuda de vocês para clamar por justiça. Ainda nos sentimos desamparadas pelo Estado, como se fosse só mais um caso. Tanto é que muitos dos familiares que perderam seus entes queridos já se foram, e isso tem a ver muito com a falta de justiça, e com a saudade – porque não é fácil perder um filho. A Zilda foi a nossa mãe em todos os aspectos. Esse assunto não morreu e esse grupo existe por causa da Zilda. Porque ela deixou de fazer tudo o que fazia para lutar por justiça conosco. E hoje nós nos consideramos uma família. E eu agradeço a cada um de vocês que está aqui hoje.”
Raphael Sanz é jornalista, fotojornalista e pesquisador. Atua como repórter socioambiental para o Sul21 e o Desinformémonos (México). Pesquisa episódios de violência de Estado junto ao LASInTec-Unifesp.

