Operação Condor: montando o quebra-cabeças

A coordenação dos aparatos repressivos de oito ditaduras da América Latina

Operação Condor: montando o quebra-cabeças

Chile | América Latina
por Odette Magnet
12 de abril de 2022
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Missão Plano Condor:  exterminar aqueles que fossem considerados inimigos, subversivos perigosos para a pátria

Por oito anos ela se dedicou a destrinchar e denunciar como as ditaduras sul-americanas coordenaram suas políticas repressivas para sequestrar, torturar e assassinar os opositores e opositoras políticos(as) e exilados(as), sem escrúpulos nem piedade. Perseverante e valente, a italiana Francesca Lessa – doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics, pesquisadora e docente de Estudos Latino-americanos e Desenvolvimento na Universidade de Oxford, Inglaterra – é a autora de uma das investigações mais completas a respeito da Operação Condor.

Com o passar dos anos, sua contribuição revelou-se crucial para as audiências realizadas para julgar os responsáveis por esses delitos, especialmente na Itália e no sistema interamericano. Além disso, é autora do livro The Condor Trials (“Os Julgamentos Condor”), a ser publicado nos Estados Unidos em maio próximo.

O fecho de ouro desse trabalho ambicioso é um vídeo intitulado “La Operación Cóndor al Descubierto” [“A Operação Condor revelada”](disponível no YouTube, em inglês e espanhol), lançado às vésperas do 46o aniversário do Golpe de Estado na Argentina, desferido em 24 de março de 1976.

Não foi fácil juntar as peças daquilo que Lessa chama de “quebra-cabeça”. Todas as investigações sobre a Condor, acrescenta ela, de 2000 até a presente data, “forneceram várias peças do quebra-cabeça que estavam faltando. Mas ainda há muito a ser feito e é fundamental que as gerações futuras continuem investigando e aprofundando esses temas”.

Pacto de silêncio

A Operação Condor foi uma operação meticulosa, com apoio da CIA, pensada em todos os seus detalhes. Oito ditaduras – Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Brasil, Peru e Equador – participaram dessa rede que cobria quatro quintos da América do Sul e exerceu o terrorismo de Estado mais brutal do século XX. Seu legado: dezenas de milhares de pessoas assassinadas e desaparecidas durante as décadas de 1970 e 1980. A cumplicidade entre os governos militares foi absoluta e eficaz. As polícias secretas compartilharam informações e trasladaram seus detidos de um país a outro. O pacto de silêncio entre os autores nunca foi quebrado e nenhum deles mostrou indício algum de arrependimento.

Fundada em 1975 em Santiago do Chile, com a presença do general Augusto Pinochet e do chefe da polícia secreta chilena (Dina), Manuel Contreras, a Operação Condor tinha como missão exterminar aqueles considerados inimigos, subversivos perigosos para a pátria. Argentina, Uruguai e Chile foram os membros mais ativos. Seu braço operacional tinha sede em Buenos Aires.

Cerca de 69%dos delitos foram cometidos na Argentina. Houve um elevado número de mortos e desaparecidos (45,5%), mas também uma porcentagem similar de sequestrados, torturados, e posteriormente liberados (47%). O país deteve a presidência da organização em 1976 e 1977, os dois anos mais sangrentos da operação. Entre março de 1976 e dezembro de 1978, no período mais cruento, foram registradas 487 vítimas. Em Buenos Aires, funcionou a sede central do escritório de coordenação e operações da Condor. Ao final da ditadura militar, o país ostentava o macabro saldo de 30 mil detidos desaparecidos.

Sem importar a geografia, de diversos pontos da cordilheira dos Andes, muitos dos “desaparecidos” foram atirados durante a noite na imensidão do oceano, com suas barrigas carregadas de pedras para que não flutuassem na superfície.

Aguerrida e tenaz

A América do Sul converteu-se numa zona de terror e impunidade sem fronteiras. Lessa adverte que a Operação Condor “não constitui um momento isolado da coordenação repressiva”, mas se enquadra num período mais extenso de perseguição sem fronteiras aos opositores políticos na América do Sul, que abrange toda a década de 1970.

Aguerrida e tenaz, Lessa sistematizou uma imensa quantidade de material que, até então, havia ficado disperso. Além disso, vasculhou documentos de arquivos latino-americanos e dos Estados Unidos e, não menos importante, realizou mais de cem entrevistas com atores locais para incluir suas vozes. Em duas oportunidades (2008 e 2014), tentou reunir-se com vítimas no Uruguai, mas elas se recusaram.

Duas bases de dados contêm toda a informação – até então dispersa – coletada pela doutora Lessa. Uma dessas bases compila os 45 julgamentos realizados em vários países, principalmente no Cone Sul, mas também na Itália e nos Estados Unidos. A outra contém os nomes das 805 vítimas sequestradas entre agosto de 1969 e fevereiro de 1981. A investigação revela que os primeiros casos de sequestro, tortura, detenção e traslado clandestino de cidadãos brasileiros refugiados no Uruguai tiveram lugar já em 1969, enquanto os últimos são referentes a militantes chilenos do MIR, detidos na zona fronteiriça entre Argentina e Chile em 1981. A Operação Condor fez no mínimo 805 vítimas, levando em conta apenas esse período. Cerca de 30% delas, isto é, umas 249 pessoas, foram perseguidas entre março e dezembro de 1976, a maioria em Buenos Aires e arredores.

Argentina e Uruguai foram os países que mais utilizaram as estruturas de coordenação repressiva. Como prova, Lessa menciona um telex do FBI de 28 de setembro de 1976, conhecido como “Chilbom”, no qual a embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires informa que uma fonte confidencial vinculada ao Serviço de Inteligência do exército argentino havia confirmado a existência da Operação Condor como instrumento de cooperação entre os serviços de inteligência da América do Sul. Por meio dela, eram realizadas operações conjuntas “contra alvos terroristas nos países membros da Condor”.

Os(as) uruguaios(as) foram o grupo mais perseguido. Entre 1976 e 1978, as vítimas de nacionalidade uruguaia totalizaram 58%. Cerca de 24%das vítimas eram de nacionalidade argentina e 14%do Chile.

O caso Julien Grisonas

Minha irmã María Cecilia e seu marido, o médico Guillermo Tamburini, foram sequestrados de seu apartamento na calle Córdoba, 3.386, em Buenos Aires, na madrugada de 16 de julho de 1976. Ela, socióloga, tinha 27 anos, ele, 32. Seus corpos nunca foram encontrados.

María Cecilia tinha uma curiosidade insaciável. Imagino que as primeiras palavras que aprendeu foram “Por quê?” Provavelmente também foram suas últimas. Apesar das décadas transcorridas, a dor ainda me pesa na alma.

Em 27 de maio de 2016, no final do julgamento da Operação Condor em Buenos Aires, Humberto José Román Lobaiza e Felipe Jorge Alespeiti – ambos do exército argentino – foram os únicos dois imputados pelo sequestro e desaparecimento de minha irmã. O primeiro foi condenado a 18 anos de prisão e o segundo a 12. Alespeiti foi julgado no ano de 2009 por 107 sequestros e desaparecimentos. Morreu em julho de 2019, mudo e senil. Ambos já cumpriam prisão domiciliar por outros crimes contra a humanidade.

O julgamento na Argentina, centrado em 109 vítimas da Operação Condor de seis países, foi concluído com 15 sentenças de prisão, incluída a do ex-presidente da junta militar Reynaldo Bignone, que então tinha 87 anos. Outros sete acusados morreram durante os três anos pelos quais se estendeu o julgamento.

No último mês de dezembro, uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou a Argentina por violações dos direitos humanos da família de Julien Grisonas, no âmbito da Operação Condor, e ordenou que o Estado investigasse os fatos.

O desaparecimento forçado dos uruguaios Roger Julien e Victoria Grisonas ocorreu em 26 de setembro de 1976, em Buenos Aires. Ambos eram militantes do Partido da Vitória do Povo (PVP). Foram violentamente detidos em casa com seus dois filhos – Anatole, de quatro anos, e Victoria, de um ano e meio. Julien foi morto no local e os filhos e a mãe foram transferidos ao centro clandestino Automotores Orletti. As crianças foram levadas de avião ao Uruguai, e depois trasladadas para o Chile, onde foram abandonadas numa praça de Valparaíso. Posteriormente, foram adotadas pelo casal Larrabeiti Yañez.

A CIDH intimou o Estado argentino a montar no prazo de um ano um grupo de trabalho junto com Uruguai, Chile, Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru para a investigação das violações aos direitos humanos cometidas entre 1976 e 1983 nesses países. Como medida de reparação, dispôs-se que o Estado pague as despesas com tratamentos psicológicos ou psiquiátricos que forem necessários para atender aos padecimentos sofridos por Victoria e Anatole. Além disso, deverá indenizá-los por danos materiais e imateriais decorrentes desses mesmos fatos.

Anatole Julien destacou que “o que me satisfaz especialmente é o que se refere à construção de uma memória permanente e ao alinhamento que os países-membros deverão ter na proteção judicial desses bens jurídicos fundamentais”.

Odette Magnet  é jornalista.

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