Os apaches de Istambul - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

Os apaches de Istambul

por Timour Muhidine
3 de fevereiro de 2014
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O movimento em torno do Parque Gezi, em Istambul, na primavera turca do ano passado, fez emergir as múltiplas facetas de uma sociedade empolgada com a contestação. Uma delas são os “apaches”, jovens da periferia que povoam as histórias de uma nova geração de escritoresTimour Muhidine

Pela primeira vez em 43 anos, na manhã de 1o de maio de 2013, a Ponte de Gálata, que une as margens do Chifre de Ouro e desemboca na Praça Taksim, em Istambul, estava levantada, com suas duas metades de asfalto erguidas como um muro negro. Num raio de muitos quilômetros, todos os acessos estavam fechados, e a circulação dos navios que fazem a ligação entre a Europa e a Ásia ficou suspensa até as 16 horas. Nesse Dia dos Trabalhadores, os manifestantes que conseguiram chegar à praça, apesar de todas essas dificuldades, foram recebidos com gás lacrimogêneo e tanques. Algumas semanas depois, foi a vez de os opositores do projeto governamental ligado ao Parque Gezi, na Praça Taksim, enfrentarem a polícia antimotim, logo seguidos por um grande número de cidadãos, em uma base mais ampla. Ao longo de sua história, a Praça Taksim, local de reunião política da maior importância, sempre revelou o quadro das contradições e aspirações do país.

É isso que traduz seu estilo semimodernista e sua topografia, criados em 1939 pelo urbanista francês Henri Prost e aprovados por Mustapha Kemal, que refundou a Turquia moderna. Um laço simbólico liga esse lugar à República, nascida em 1923, após o desmantelamento do Império Otomano que se seguiu à Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Sèvres (1920). É esse laço que os projetos do governo de Recep Tayyip Erdogan – desaparecimento do parque, reconstrução “autêntica” de um quartel otomano, edificação de uma mesquita, supressão do Centro Cultural Atatürk – intentam romper. Taksim, entroncamento rodoviário e recentemente ferroviário (metrô e funicular), abre-se para Beyoglu e os bairros mais liberais de Istambul, que acolhem inúmeros restaurantes, teatros, cinemas, bares e clubes noturnos. Os jovens compõem a maior parte da multidão que circula por ali, e entre eles também estão os “apaches”, adolescentes das periferias que usam roupas extravagantes e penteados insólitos, cuja presença mal é tolerada.

Autor do primeiro livro dedicado a eles, Apaçi Gençlik,1 o sociólogo Ömer Miraç Yaman apresenta com grande fineza essa geração de excluídos, de rapazes (as moças são pouco representadas no grupo) vindos da periferia, os quais se inscrevem na linhagem das tribos das grandes cidades. A pesquisa, realizada entre 2008 e 2012 nas áreas do noroeste da megalópole (Esenler e Bagcilar), traça um retrato pouco exaltador da vida nessa franja urbana que até agora chamávamos de “subúrbios” (varos), ou mais comumente de “bairros” (semt), e que pouco a pouco se torna “periferia” (banliyo).

As entrevistas com donos de bares, motoristas de ônibus e professores do ensino profissional dão uma ideia da rigidez da ordem social, hostil à margem de liberdade que concedem a si mesmos esses jovens, cuja atitude choca. Revela-se aí um forte desejo de controle moral, próximo àquele manifestado pelo primeiro-ministro, que tem como uma de suas obsessões, martelada em seus discursos recentes, manter a juventude no quadro muçulmano. Em novembro de 2013, por exemplo, ele criticou as residências universitárias mistas: “Não autorizamos e não autorizaremos que moças e rapazes fiquem juntos nas residências do Estado”.

Os apaches, com sua prática coletiva de dança tecktonik (o halay), seus cabelos laqueados, seus agasalhos e camisetas coloridas, ameaçariam a própria identidade turca, a “identidade nacional” ligada à língua e ao islã sunita que reivindicam os conservadores de todos os matizes. Acostumados aos confrontos com a polícia, mas ainda pouco politizados, eles ficaram afastados das manifestações na Praça Taksim, assim como muitos jovens de grupos pró-curdos, que são cuidadosos em relação ao contato com o Estado ou a qualquer coisa que possa comprometer o processo de paz em curso com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).2 Ainda assim, num dos grafites da praça podia-se ler: “Hipster ve Apaçi Omuz Omuza” (Hipsters e apaches lado a lado).3

Embora, de maneira bastante significativa, a revista Toplumbilim (Sociologia)4 tenha dedicado uma edição ao fenômeno das periferias, a maioria dos colaboradores vale-se de fontes francesas, utilizando a comparação entre Paris e Istambul como base para uma leitura da cidade essencialmente urbanística. A pesquisa de campo continua insuficiente, e é mais entre os escritores que se podem recolher informações a respeito das margens. Depois da onda de textos sobre as favelas que caracterizavam as metrópoles turcas há trinta anos e do surgimento na literatura dos subúrbios ricos dos istambulitas de Buket Uzuner,5 em uma nova geração de romancistas a cidade como território mudou de estatuto: agora estendida até os limites do horizonte e das linhas de vans, ela não é mais vista apenas como um centro e uma periferia, mas como um conjunto de diversos mundos urbanos, havendo certas partes que podem ser qualificadas como periferias.6

Contudo, no coração desse universo, os heróis de Hakan Günday e de Murat Uyurkulak (ambos nascidos em 1972) – violentos, revoltados e muitas vezes delinquentes – são praticamente incapazes de se mobilizar para protestar contra a destruição de um parque, como aconteceu no centro de Istambul, entre 28 de maio e 16 de junho de 2013, quando a luta na rua e a repressão fizeram seis mortos, mais de 8 mil feridos e 255 processados. No conto Nid d’oiseau [Ninho de pássaro],7 a Taksim de Uyurkulak é a dos transexuais e de sua imaginação poética: “A Praça Taksim, em Istambul, é a vida. É a orca alegre, aflita, da Turquia. A água jorra de sua boca, o sangue de suas costas, o arak de suas nádegas”.

Por meio de um processo que lembra – guardadas todas as proporções – a frustração acumulada pela juventude francesa dos anos 1960, é a figura do pai que parece radicalmente contestada. Nas eleições legislativas de junho de 2011, cerca de 50% dos eleitores votaram a favor da agremiação de Erdogan, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento). Em julho de 2013, 51% dos turcos entrevistados por um instituto de pesquisa consideravam que a polícia “fez o que era preciso” durante os acontecimentos em Gezi. Mas, para metade do eleitorado, a ordem encarnada pelo primeiro-ministro não é incontestável. Diz muito a esse respeito o afluxo de publicações sobre o anarquismo e suas ramificações recentes, ou sobre as técnicas de ocupação e agitação próprias dos anos 1990 e 2000. A presença nas mesas das livrarias, há pelo menos um ano, das obras de Max Stirner e Mikhail Bakunin ou de livros que analisam os movimentos libertários e a Comuna de Paris não pode sugerir outra coisa que não um desejo violento de mudança.

O número de março de 2013 da revista Sabitfikir(Ideia fixa)8 traz a imagem de um jovem rebelde todo vestido de preto que, abaixo do rosto escondido por um lenço, prepara-se para atirar um livro em chamas. Uma prévia das manifestações que logo começariam? No interior, um dossiê de dez páginas inventaria as principais obras que em poucos meses estariam disponíveis ao público (às vezes diretamente on-line), entre uma produção espantosamente rica: A terceira revolução, de Murray Bookchin; Por uma antropologia anarquista, de David Graeber; e o primeiro estudo completo sobre “o anarquismo na Turquia” (2013), de Baris Seydan. Surge uma questão: qual é o lugar do indivíduo em uma sociedade revirada pelas mudanças sociopolíticas da última década e pela promessa de melhores condições de vida que só atingem concretamente uma fração da população?

Os tweets, o grafite e a música foram os meios de expressão privilegiados nesses dias de revolta. As canções e as piadas dos chapullers– Erdogan chamou os manifestantes de çapulcu, que significa “bandidos” ou “vândalos”; o termo foi retomado e anglicizado pelos interessados – ficaram muito tempo na memória, bem como a (quase) rumba da Chapulita, de Müge Zeren. Embora não sejam os principais atores desse movimento – que reuniu sobretudo estudantes, trabalhadores, funcionários, sindicalistas e desempregados –, os intelectuais e escritores tomaram amplamente a palavra: jovens, como o escritor e jornalista Ece Temelkuran e a romancista Sema Kaygusuz,9 mas também homens de letras que geralmente não falam sobre os tempos atuais, como Yigit Bener, autor de La révolte de lasauterelle.10 Este, em um soberbo texto para o diário Radikal, destaca o surgimento de uma “língua nova. Uma língua que encarna sua própria cultura: língua do humor, do amor, da resistência, da partilha, do sofrimento, língua da inteligência, da coragem e da insubmissão”.

Como outros autores colocados no cruzamento de vários mundos, o belgo-turco Kenan Görgün – bastante representativo de uma nova abordagem da literatura, alimentada pelo suspense e a fantasia – oferece sua visão quente, trepidante, cheia de perguntas, na qual a ideologia não tem mais nenhum espaço: Rebellion Park, une saison à Istanbul[Parque Rebelião, uma temporada em Istambul].11 Uma rebelião que, na verdade, foi montada como uma festa improvisada pelos grupos mais minoritários e excêntricos, como que para refutar a concepção da nação como um bloco sunita, conservador e resistente a qualquer progresso que não seja técnico e consumista. Assim, a revelação da Praça Taksim foi sem dúvida a emergência dos “muçulmanos anticapitalistas”, que divulgaram seu manifesto em uma publicação mensal de cultura de extrema esquerda, defendem um ecumenismo militante e repetem que o capitalismo é o inimigo de Deus.

Em 2006, emGratte-ciel, Tahsin Yücel12 divertia-se, a pretexto de ficção política, ao zombar da urbanização desenfreada de Istambul. Com histórias de edifícios erguidos até o céu, casas ameaçadas pelos promotores, velhos amigos de esquerda que decidem resistir contra um sistema injusto, o leitor divertia-se também. Mas a obra era premonitória: o primeiro-ministro, chamado Mevlut Dogan (que não está muito longe de Erdogan), era um devoto ditatorial da privatização, unido a um arquiteto que só sonhava em cortar árvores. Logo, boa parte daqueles que haviam sido rejeitados pela cidade retornam, manifestando-se nas ruas subitamente desertas. Nessa utopia negativa, insatisfação e ganância modelam a sociedade turca de 2073, na qual a loucura imobiliária e a insistência em passar por cima dos resistentes andam juntas – como na realidade de 2013…

 

Timour Muhidine é professor do Institut National des Langues et Civilisations Orientales (Inalco), Paris.



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