Os diversos significados do “eu te amo”: uma conversa com Igor Miguel Pereira sobre seu novo livro
No romance Uma Breve História do Eu Te Amo, o autor explora os diferentes significados desta frase por meio de uma história de amor fugaz durante o carnaval do Rio de Janeiro
Não é segredo que no carnaval muitas paixões surgem de maneira fugaz, sob influência do glitter e animação desta festa colorida. E da mesma forma que surgem, a maioria se dissipa. Porém, no caso de Pedro, personagem principal de Uma Breve História do Eu Te Amo, livro de Igor Miguel Pereira, algo curioso acontece neste contexto: após algumas horas compartilhadas e sexo casual, Iara diz “eu te amo”, fotografa a reação dele, muda se assunto como se nada tivesse acontecido e some na manhã seguinte, deixando para trás uma bolsa com a encadernação de uma tese de doutorado com o nome que dá título ao livro.

A obra ficcional mistura um relato de paixão, crônicas, entrevistas e teoria amorosa, abordando as incontáveis possibilidades de significado da tão repetida frase “eu te amo”, podendo carregar uma variedade de intenções e emoções que podem transcender completamente o conceito de amor.
Igor Miguel Pereira é autor, roteirista e documentarista. Nasceu em Angra dos Reis (RJ), cresceu no interior fluminense e vive no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, desde 2011. É formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UnB, com especializações em Cinema Documentário (FGV) e Artes da Escrita (Universidade Nova de Lisboa).
Sua carreira literária iniciou em 2007, quando publicou Txakazuê, uma paródia de romance policial com humor nonsense, pela editora Letras Brasileiras. Em 2011, publicou Vão (Editora Torre) e em 2015, um livro de receitas e crônicas de família, em parceria com a avó: Uma História de Amor e Quibe, por autopublicação. Em 2018, publicou o livro de contos Espuma, pela editora Chiado, e em 2024, publicou o Uma Breve História do Eu te Amo, pela Patuá.

Confira abaixo a entrevista com o autor
Seu livro traz uma história de romance mais como pano de fundo para focar nos sentidos da frase “eu te amo”. Por que você fez essa escolha?
É curioso, porque há incontáveis livros que trazem histórias de amor, mas não me recordo de outro que tenha a frase em si, como o tema, então, escolhi tratar disso no livro. Ele faz uma espécie de semiótica mambembe do eu te amo. O eu te amo quase nunca quer dizer exatamente “eu te amo”, na maioria das vezes há outros significados implícitos naquele uso. Pode ser um pedido de desculpas, uma promessa de felicidade, uma forma de estabelecer um controle, um apelo por socorro, a manifestação de um desejo. É algo tão corriqueiro, que passa despercebido. Mas quis especular (sem fechar a questão, porque é uma ficção, não um ensaio), porque isso acontece. É por que o amor é uma palavra com tradução imperfeita? É por que a frase foi sacralizada e fetichizada, de alguma forma, é algo que as pessoas desejam muito? As diferentes experiências que as pessoas tiveram com o eu te amo podem iluminar algo sobre esse assunto?
Quando e como você começou a se interessar por esse assunto?
O valor dado a um eu te amo é algo que sempre chamou a minha atenção. É uma espécie de frase feitiço, algo que as pessoas dizem na expectativa de alterar a realidade, como uma prece. Lembro a primeira vez que eu ouvi a frase, em um contexto romântico, o efeito foi imediato, parecia que eu entrava em um mundo novo, que eu merecia estar ali. Depois, aquela relação passou, vieram outros eu te amo. Foi quando me interessei pelas diferenças de sentido dadas a frase, tanto no mesmo período em um relacionamento, quanto entre pessoas diferentes. Sempre me interessei pelo tema da relação entre experiência pessoal e criação artística, o quanto era fetichizado em entrevistas e mesas literárias. Juntei essas duas motivações e a ideia foi tomando forma.
Além desse tema central, há outros aspectos explorados na obra? Outros temas complementares?
Como tema secundário, quis tratar dos relacionamentos amorosos contemporâneos, das diferentes formas em que equilibramos sexo, afeto e comprometimento, suas teorias e expectativas. Falo também da relação entre experiência pessoal e criação artística. O livro não é uma autoficção, no sentido estrito do termo, porque não se baseia em uma experiência real, mas a personagem de Iara é obcecada com a autoficção e o seu uso como forma de alimentar sua criação. Nesse sentido, creio que ela representa uma inversão consciente do papel tradicional da musa. E Pedro é seu objeto. Por fim, o livro trata também da relação do leitor com o texto, através da transfiguração quase literal entre o texto e o corpo de Iara, a partir da experiência de Pedro.
Os cenários cariocas também são algo muito importante para a construção da narrativa, certo? Você poderia comentar um pouco sobre a escolha dessa atmosfera?
Os personagens eram bem próximos de mim. Então, quis escrever sobre os lugares que eu frequento ou frequentei. O Catete tem algumas peculiaridades interessantes. É oficialmente um bairro da Zona Sul, mas é a última fronteira da Zona Sul, já que a Glória passou a ser centro. Está muito longe da imagem que a maioria das pessoas costuma ter da Zona Sul, do luxo de Leblon, Ipanema, ou menos do caos gigantesco de Copacabana. É um caos em pequenas proporções, quase um bairro do interior, encravado na metrópole: de ruas estreitas, ambulantes, pontos do jogo do bicho, pequenos comércios, pessoas que se reconhecem no cotidiano. Também sentia falta de um retrato mais aprofundado do universo dos blocos de carnaval, algo que teve um papel central na cultura da cidade, nos últimos 15 anos, mas que aparece pouco na ficção contemporânea. A roda de samba foi o primeiro lugar que eu me senti acolhido, quando mudei para o Rio, onde percebi que essa mudança para a cidade foi a escolha correta. Quis retratar no texto, um pouco dessa experiência do ponto de vista do frequentador, e aí mais relacionado ao tema central, da identificação com os sambas que falam de amor. Disso de olhar para os rostos das pessoas, ao redor, que cantam, como se aquela história fosse apenas sua.
Conte um pouco sobre o processo de escrita do livro.
O processo de escrita ocorreu da seguinte forma. Tinha feito um conto com esse enredo: uma artista que diz eu te amo, fotografava o rosto das pessoas e vai embora (publicado no meu livro Espuma, em 2018). Em 2019, buscava um tema para um novo livro, pretendia escrever um romance, pensei em qual enredo ficava mais tempo martelando na minha cabeça e achei que esse tinha maior potencial. Não me recordava de ter visto esse tema ter sido tratado dessa forma. Então, a primeira coisa que eu fiz foi entrevistar as pessoas, sobre a sua conexão com a frase “eu te amo”. Fiz um post no Facebook, perguntando quem gostaria de participar. Entrevistei 10 pessoas (parte dessas entrevistas foi ficcionalizada e entrou no livro). Depois comecei a ler sobre diferentes abordagens sobre o amor: Platão, bel hooks, o Fragmentos do discurso amoroso, do Barthes, histórias e mitologias variadas: Tristão e Isolda, Laila e Majnun, o registro mais antigo de poema de amor, encontrado em uma tumba egípcia. E comecei a desenvolver a história.
E como foi esse processo? Houve percalços?
Foi um processo bem turbulento, porque aconteceu muita coisa nesse caminho, morei em Portugal, teve a pandemia, voltei para o Brasil. O livro tinha um enfoque grande na vida de rua e estava todo mundo dentro de casa. E era sempre difícil equilibrar o que da realidade deveria entrar nesse livro. Por exemplo: em uma relação entre duas pessoas, com o perfil dos meus personagens, no Brasil, daquele período, eles obviamente falariam de política. Era o que ocorria, as preferências políticas eram assunto desde os primeiros encontros. Mas eu queria que a desgraça do Bolsonaro, entrasse no livro? Afinal, todo mundo fazia isso e era difícil não ficar datado ou óbvio. Então eu demorei um tempo para situar a época da história. Até que vencemos a eleição em 2022 e pude me libertar dessa questão e deixar a história como vagamente contemporânea. (Há referências sutis, como a bolsa com o Ele Não amarelado pelo tempo).
A história é contada do ponto de vista do Pedro, mas você chegou a cogitar colocar o ponto de vista de Iara também ou desenvolver a narrativa de outra forma?
Sim, na verdade essa foi uma questão que dificultou o processo de escrita. Eu tinha que decidir se eu faria a história dos dois pontos de vista: da Iara e do Pedro, ou só o do Pedro. Acabou prevalecendo a segunda opção, pois não consegui tornar a curva de personagem dela, da escrita da tese, interessante o suficiente. E essa ausência dela virava um motor para a história, que seria enfraquecido com a alternância de pontos de vista. Mas joguei fora capítulos inteiros. Outro problema foi o peso que a pesquisa teria no livro, como manter a fluidez, inserir as informações sem atrapalhar o fluxo da história. Demorei até conseguir calibrar isso tudo.
Em suma, quanto tempo durou esse processo todo? Houve leitura crítica?
Entre o esboço do primeiro capítulo 2019 e o ponto final 2024, se passaram cinco anos. Em nenhum momento tive dedicação exclusiva ao livro, sempre precisei conciliar com outros trabalhos. No meio do processo de escrita (2021), houve uma leitura crítica, da escritora Paulliny Gualberto, minha amiga da época da faculdade. Ela me ajudou me apontando vários defeitos e lacunas daquele esboço.
As entrevistas com diferentes pessoas influenciaram diretamente os personagens ou o enredo? Algum relato te surpreendeu e mudou o rumo da narrativa?
As entrevistas ajudaram a cristalizar a percepção da versatilidade do “eu te amo”. Encontrei gente que usa a frase como veneno, remédio, promessa. Mais do que uma situação ou relato específico, o que chamou a minha atenção nesse processo foi a diversidade de usos para a frase.
Você citou que o livro trata da relação do leitor com o texto. O que você espera que o leitor sinta ao ler esse romance?
Espero que sinta a sensação do texto que vira corpo, o impulso da criação, a beleza de uma relação, mesmo quando ela não permanece no tempo. Se eu conseguir fazer a pessoa meditar brevemente sobre a variedade das expectativas e experiências humanas com a frase “eu te amo”, já estarei feliz.
Quais foram as principais referências que você utilizou para construir o livro e seus personagens?
Do Haruki Murakami, tomei emprestado a figura masculina meio passiva, que marca o protagonista típico dos livros dele. Esse retrato de um homem comum, hedonista, sem ser obsessivo, que tem desejos, mas é meio descansado para correr atrás deles. (Um tipo de personagem que é um primo distante, do nosso Macunaíma, outra referência). Também aprecio a forma como ele transpõe questões filosóficas para exemplos simples e diálogos corriqueiros. Da Zadie Smith, gosto da forma que ela retrata as figuras da vida acadêmica e mescla referências eruditas e da cultura pop no texto, para construir o universo dos seus personagens. De Jorge Amado, a forma como a escrita do sexo, centrada no corpo é liberta das neuroses europeias. Para a ideia da relação entre texto e corpo, me baseei no conceito de “fruição do texto”, do Barthes. Para construir a personalidade acadêmica de Iara e sua intenção de mesclar performance artística e experiência pessoal, pensei no trabalho da Grada Kilomba e o Cuide de Você, de Sophie Calle. Como referência teórica dos estudos do amor, o Por que amamos, do professor Renato Noguera. As canções de Chico Buarque sobre o Rio e de Caetano sobre o corpo.
O que o livro representa para você? Como a construção dele te transformou ou interferiu na sua vida?
Do ponto de vista literário, acredito que seja o meu trabalho mais bem acabado e o que mais tem potencial para se comunicar com outras pessoas, tratar temas e levantar questões que despertam interesse em muita gente. É difícil avaliar o quanto a escrita do livro me transformou, porque muita coisa na minha vida se transformou nesse período. Em 2019, era um divorciado precoce, que às vezes nadava, às vezes se afogava no fluxo sem fim dos amores líquidos. Hoje, estou casado, feliz (não que eu fosse infeliz solteiro, mas agora desfruto de outro tipo de felicidade), pai. O fato de ter pesquisado e refletido por tanto tempo sobre a linguagem dos relacionamentos interferiu nessa mudança ou ela ocorreria de um jeito ou de outro? É impossível responder. Meu palpite é que o processo de escrita do livro me transformou em um escritor mais maduro e um ser humano mais capaz de absorver os aprendizados dos relacionamentos anteriores e desfrutar dos aspectos menos idealizados do amor.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

