Os dois Sul - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS

Os dois Sul

por Benoît Bréville
2 de outubro de 2012
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Longe de ser realmente disputada em todo o país, as eleições de 6 de novembro se decidirão em um punhado de estados. Os demais, com domínio já consolidado por um dos campos, são negligenciados pelos candidatos. É o que se vê na Carolina do Norte e na GeórgiaBenoît Bréville

(Bandeira dos EUA decora placa de casa à venda em Capitol Hill, perto de Washignton)

Toda manhã, às 6 horas, Russell Stanton senta-se ao volante de sua picape e vagueia pelas fazendas ao redor, na esperança de encontrar trabalho para o dia. Colher pêssego, amendoim, milho, tudo que lhe oferecerem. No calor úmido dessa noite de agosto, esse homem de uns 40 anos sai regularmente de seu quarto com ar-condicionado para fumar um cigarro no estacionamento do motel. Ele vive em Darien, Geórgia, há três anos: “É mais barato do que alugar um apartamento. Tem energia elétrica, TV a cabo e até uma pessoa que vem arrumar a cama todos os dias”, e ri voltando-se para a irmã Jenna, a empregada do estabelecimento. Instalada com o marido e os filhos em dois quartos conjugados, ela só trabalha uma ou duas horas por dia. “O motel não tem muitos clientes, a maioria são moradores permanentes. As pessoas que apenas passam preferem parar na beira da estrada.” Os candidatos à Casa Branca também não se preocupam em parar na Geórgia: eles preferem ir à Carolina do Norte ou à Flórida.

Localizado a poucos quilômetros da rodovia Interstate 95, que corre ao longo da costa atlântica da Flórida ao Canadá, esse sossegado vilarejo do sul dos Estados Unidos nada tem de destino turístico: uma ampla avenida, uma multidão de ruas perpendiculares, postos de gasolina, mercearias desprovidas de frutas e legumes e, sobretudo, inúmeras casas à venda. Das 1.090 habitações do município, 292 estão vagas. Já afetados pela crise na indústria têxtil, seus 2 mil habitantes também sofreram o impacto do subprime. No condado de McIntosh, a taxa de desemprego é superior a 10% e a renda média anual caiu de US$ 25.739 para US$ 21.771 entre 2007 e 2009, antes de se recuperar ligeiramente.

Os irmãos Stanton desembarcaram no Fort King George Motel depois do confisco de sua casa. “Eu vivia de biscates e minha mãe teve de parar de trabalhar. Os pagamentos da hipoteca estavam muito altos, por isso fomos obrigados a sair. Fui para o Texas e lá fiquei por um ano para tentar a sorte, então voltei para cá”, conta o irmão mais velho. Jenna e o namorado tentaram alugar um apartamento, mas não conseguiram pagar o aluguel. Desse período, a jovem guarda um sabor amargo: “Por quatro anos, Obama não fez nada por nós. Eu, que sou pobre, voto a favor dos republicanos, porque os democratas não se preocupam com os brancos pobres como eu”.

Ao final do atual mandato presidencial, a polarização racial da vida política é ainda muito presente, em especial no sul. “Voltamos à situação que prevalecia quarenta anos atrás, quando só negros podiam representar os eleitores negros, e brancos, os eleitores brancos”, estima Eric Mansfield, eleito republicano no Senado da Carolina do Sul. Enquanto a Louisiana, o Alabama e o Mississípi já aplicam essa regra ao pé da letra – seus representantes eleitos no Congresso são ou democratas negros ou republicanos brancos –, o último representante democrata branco da Geórgia pode perder seu assento nas eleições legislativas de novembro. “Não é bom para nenhuma das partes”, lamenta o senador republicano da Carolina do Sul, Lindsey Graham. “Os republicanos precisam entender que podemos seduzir nossos eleitores com os candidatos egressos das minorias […]. E os democratas precisam entender que o Partido Democrata não pode perder 75% do voto branco.”1

Para a direita, essa divisão resulta das posições frouxas de seus adversários em questões como aborto ou casamento gay. “Alguns anos atrás, muitos brancos ainda votavam pelo Partido Democrata. Mas o partido se voltou tanto para a esquerda que eles acabaram se unindo ao campo conservador”, explica Kevin Bennett, engenheiro aposentado e ativista republicano do Alabama. Partidários de Obama culpam as redivisões dos distritos eleitorais realizadas pelos governadores republicanos desde 2010: “Eles agruparam os negros em um número restrito de distritos a fim de melhor dispersá-los em outros”, indica Billy Mitchell, democrata eleito – negro – para a Câmara dos Representantes da Geórgia. Na Carolina do Norte, por exemplo, metade dos 2,2 milhões de afro-americanos está concentrada em um quinto dos distritos eleitorais. No Texas, a proporção de brancos na população total passou de 52% para 45% entre 2000 e 2010; mas, graças a uma redistribuição inteligente, eles são a maioria em 70% dos distritos do Congresso.

Em Darien, onde os negros são um pouco menos numerosos do que os brancos (44,2% contra 52,9%), a batalha se anuncia apertada. Stanton, contudo, pretende desafiar as estatísticas: “Vou votar em Obama. Como não tenho filhos, não tenho direito ao Medicaid [o programa de assistência aos pobres]. Se ele ganhar, poderei talvez ter um seguro-saúde…”. Vindo de um homem que diz “adorar” o jornalista de ultradireita Rush Limbaugh, “porque faz as perguntas certas”, a declaração pode surpreender. De qualquer forma, ele provoca um sorriso na irmã: “Você já tinha dito isso na última vez [em 2008], mas mesmo assim ainda não tem seguro!”. Apesar das convicções exibidas por eles, os Stanton não estão certos se vão votar em 6 de novembro: ainda não estão registrados nas listas eleitorais; também não sabem a data da eleição, nem mesmo o nome do candidato republicano… E não é lendo o Tribune & Georgianque poderiam ficar sabendo. No dia seguinte à designação oficial de Mitt Romney, o jornal local não dedicou nenhuma linha ao evento; preferiu falar de uma mulher de 59 anos, presa bêbada em uma rua em Woodbine, e do homem de cerca de 30 anos surpreendido pela polícia com uma garrafa de cerveja aberta na mão numa rua de Saint-Mary’s.

Nessa pequena cidade, assim como em outros lugares da Geórgia, a campanha presidencial é particularmente discreta – sem propagandas políticas na televisão nem encontros porta a porta de ativistas ou comícios de candidatos. Enquanto os cartazes eleitorais dos aspirantes a xerife invadem os vilarejos de alguns condados, o rosto de Obama e o de Romney estão ausentes do espaço público. Outros estados norte-americanos também são ignorados pelos pretendentes à Casa Branca. Desde junho de 2012, Romney e seu companheiro de chapa, Paul Ryan, não foram nem uma única vez a Maryland, Connecticut, Nebraska, Kansas, Maine, Vermont…; Obama e Joseph Biden têm irritado o Arizona, Novo México, Oklahoma, Mississípi, Alabama, Montana, Idaho… “O presidente só vem à Geórgia para captar recursos”, nos confia, um pouco envergonhado, o democrata Mitchell. “É inútil fazer campanha aqui: é quase certo que vai perder. Então se pede aos militantes que viajem pela Carolina do Norte, pela Flórida, para organizar comícios.” É a mesma história do lado da Carolina do Sul, onde Melissa Watson, professora negra, do Partido Democrata, explica: “O presidente tem recursos limitados. Um bilhão de dólares é muito dinheiro, mas é uma soma finita. E sabemos que as chances de ganhar na Carolina do Sul são muito escassas. Ele optou por concentrar sua campanha onde a concorrência é feroz. Existem apenas dez ou onze estados realmente disputados”.

Estes são Ohio, visitado 21 vezes pela dupla democrata (22 pelo par republicano), Iowa (respectivamente 17 e 13), Flórida, Carolina do Norte, Nevada… É lá que a quase totalidade dos 605.996 pontos eleitorais adquiridos pelos candidatos (ou por grupos que os apoiam) entre 10 de abril e 4 de setembro de 2012 foram distribuídos, para grande alegria dos proprietários de canais de TV: em um ano, o preço de trinta segundos de publicidade aumentou 44% em Charlotte e 34% em Las Vegas.2

Ao promover o bipartidarismo, o modo de votação norte-americano (sufrágio indireto em um turno) produziu um sistema eleitoral com duas velocidades em que uma voz não tem um mesmo valor conforme ela se expresse num safe state– os Estados conquistados com certeza por um dos dois partidos – ou num swing state, aqueles que oscilam de um lado para o outro em cada eleição e concentram a atenção dos candidatos. O sul dos Estados Unidos por muito tempo pertenceu à primeira categoria. Reduto democrata por quase um século,3 mudou para o lado republicano no início dos anos 1970: antes de Obama, apenas Jimmy Carter e Bill Clinton – democratas, mas originários do sul – tinham conseguido se impor em estados outrora pertencentes aos Confederados.

Por que, desde 2008, os democratas decidiram fazer campanha na Carolina do Norte e não na Carolina do Sul, se esses dois estados pareciam estar ligados por um mesmo destino eleitoral? A resposta se vê nas ruas. Criados há dez ou vinte anos, os novos subúrbios da Carolina do Norte contrastam com as paisagens rurais da Carolina do Sul, que continua a viver, bastante mal, de suas indústrias tradicionais (têxtil, automotiva, química…) e da agricultura (tabaco, criação de aves…). No “bairro” de Old Stone Crossing, a leste de Charlotte, na Carolina do Norte, nem as ruas propositadamente sinuosas nem as “pedras antigas” das casas conseguem mascarar o brilho moderno dos lugares. Surgido no meio de campos abandonados, rodovias e zonas comerciais, enxertado no centro por um labirinto de vias rápidas, caminhos arborizados e ruas desertas, esse loteamento é pouco iluminado à noite; não abriga nenhuma loja, nenhum lugar público. “A Carolina do Norte é um campo de milho recoberto por subúrbios”, explica um morador local.

Durante a convenção democrata, que ocorreu precisamente em Charlotte, no início de setembro, o ex-governador Jim Hunt mostrou-se mais positivo quando falou sobre a evolução do seu estado: “Vocês já viram os arranha-céus e tudo o que Charlotte tem para oferecer”, anunciou à multidão. “Talvez vocês tenham ouvido falar sobre nosso Research Triangle Park,4 talvez seus filhos tenham postulado uma vaga em uma de nossas faculdades. Estamos orgulhosos por tudo o que temos feito na Carolina do Norte. Cinquenta anos atrás, era um estado pobre, rural, segregado. Mas tivemos um governador chamado Terry Sanford [1961-1965]. Ele trabalhou com líderes empresariais, políticos e professores para construir nossas faculdades maravilhosas, nossos 58 ‘community colleges’5 e nossas escolas públicas. O resultado é a economia em expansão e altamente qualificada que vocês podem admirar hoje.”

A Carolina do Norte tem, efetivamente, três das trinta melhores universidades norte-americanas e a sede de catorze das quinhentas maiores empresas do país. Por força desse dinamismo, ela viu sua população dobrar desde os anos 1990. Foi essa reviravolta demográfica que levou Obama a tentar disputar esse estado com os republicanos: mobilizados por um exército de voluntários, os recém-chegados – muitos estudantes, jovens, trabalhadores qualificados, minorias – votaram maciçamente nele; o democrata avançou então um mínimo sobre seu adversário em 2008, John McCain, apoiado pelos brancos pouco graduados e pelos moradores das áreas rurais.

A Geórgia – como o Alabama, a Carolina do Sul, o Mississípi e o Arkansas – se parece mais com Gaston do que com Mecklenburg: os democratas têm, portanto, poucas chances de se impor ali. “Fora Atlanta, esse é um estado pobre, rural, religioso”, analisa Mitchell para explicar as repetidas derrotas de seu partido. “As pessoas são muito conservadoras: estamos no coração do ‘Bible Belt’ [Cinturão da Bíblia]”. A denominação tem sentido: sozinha, a Geórgia e seus 10 milhões de habitantes totalizam 12.292 igrejas (e 3,3 milhões de membros ativos), sejam elas metodistas, batistas, presbiterianas, pentecostais, episcopais… Darien, sozinho, perfaz uma dezena. A maioria dessas igrejas está lutando contra o “pecado” – o aborto, a contracepção, a homossexualidade, o jogo –, mas também desempenha papel importante na vida social, distribuindo comida aos pobres, cuidando de idosos etc. Tudo a preços baixos, por meio do trabalho de voluntários e com dinheiro doado pelos fiéis.

No sul, o fervor religioso junta-se por vezes à hostilidade contra o Estado. E se confunde com a política: há uma ideia de que as estruturas de caridade são mais aptas para resolver os problemas sociais do que o poder público. “Para resolver os problemas sociais, o setor privado é mais eficiente: você tem muitas pessoas que tentam soluções múltiplas e é a melhor que vence. Por definição, o Estado não pode agir assim: ele desenha uma solução única que é imposta a todos. […] Você nunca teve tantos pobres nos Estados Unidos quanto desde o início da ‘guerra contra a pobreza’ do presidente Johnson.6 Logo se vê que essa é uma solução que não funciona. Não podemos continuar a aumentar as despesas públicas! […] Como conservador, acho que a Igreja deve desempenhar um papel preponderante na ajuda social. Ela permite estar mais perto da pessoa necessitada, para entender suas necessidades, criar uma interação entre os que ajudam e os que são ajudados: ela torna as pessoas responsáveis”, explicou Matt Arnolds, delegado republicano da Carolina do Norte, na convenção de Tampa.

A cerca de 8 quilômetros de rodovia do bairro de negócios de Tampa, na Flórida, encravada entre um posto de gasolina e um bazar, a First Church of God do bairro de Downtown Tampa, um dos mais pobres da cidade, experimenta a caridade no cotidiano. Toda quarta-feira, o pastor Larry Mobley e Linda Burcham, uma fiel muito ativa, organizam a distribuição de cestas de alimentos. Funciona como uma administração pública: entre as 11 e as 15 horas, cem pessoas retiram uma senha, preenchem um formulário e aguardam em uma sala de espera moderna e com ar-condicionado, às vezes por horas. Quando todos os pacotes são distribuídos, os retardatários saem de mãos vazias.

Liana Kelley é uma das pessoas que está sempre lá. Depois de uma vida inteira cuidando dos filhos, essa imigrante cubana de 63 anos se divorciou do marido, de origem irlandesa, há três anos. Ela se viu sem dinheiro e mudou-se para Downtown Tampa. “A assistência social que eu recebia [US$ 377 por mês] mal dava para pagar meu aluguel, a energia elétrica e a TV a cabo”, diz. “Então, fui para a loja de penhores no bairro, vendi minhas joias e meus objetos de valor. Depois de um tempo, eles se ofereceram para me contratar.” Há dezoito meses, no calor desgastante da Flórida, os braços cobertos por um pano para evitar queimaduras solares, Liana fica na calçada da Busch Boulevard e exibe um cartaz, à vista dos motoristas: “Cash for gold” (Compro ouro). Esse trabalho de letreiro humano lhe rende US$ 7 por hora. “Eles me chamam quando precisam e eu venho. O problema é que às vezes coincide com a distribuição de alimentos. Aí, trabalho por três horas para ganhar US$ 21, mas perdi um cartão que valia o dobro!”

Em 6 de novembro, Liana, embora cubana, vai votar em Obama. Talvez ela tenha ouvido o candidato republicano julgar que ela e os milhões de pessoas em sua condição eram muito dependentes do Estado para não votar nos democratas.

Benoît Bréville é jornalista e integra a redação do Le Monde Diplomatique França.



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