Os efeitos da crise do Egito - Le Monde Diplomatique

MUNDO ÁRABE

Os efeitos da crise do Egito

por Sarah Bem Néfissa
1 de fevereiro de 2011
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Nos diversos regimes mundo afora, até mesmo naqueles árabes, a política não se reduz mais às instituições. O Egito comprova uma situação na qual o endurecimento autoritário coexiste com uma transformação fundamental das relações entre o Estado e a sociedadeSarah Bem Néfissa

Era o Egito que “deveria” dar origem à democratização do mundo árabe, a última região do globo a conhecer uma evolução política significativa desde a queda do Muro de Berlim. O advento, em 2005, do movimento Kefaya – centrado na reivindicação democrática e na recusa da sucessão hereditária do presidente Hosni Moubarak –, seguido, em 2009, pela entrada no jogo político do antigo secretário-geral da Agência Internacional para a Energia Atômica (AIEA), Mohammed El-Baradai, eram considerados sinais de mudança. Mas nada disso aconteceu.

Por que o regime caiu em Tunis e não no Cairo? Para compreender é preciso analisar a relação entre os protestos sociais e as estruturas políticas. A diferença entre os dois países decorre da natureza particularmente opressora e policial do regime tunisiano de Zine el-Abidin Ben Ali. Por sua vez, o Egito apresenta uma versão mais sutil e inteligente da autocracia: no país é possível falar livremente – na imprensa, TV e blogs –, e até mesmo, tomar algumas iniciativas políticas.

Dessa fotografia do Egito, a Tunísia seria o “negativo”: aparentemente desprovida de raízes, a revolta social no país teria se transformado em transtorno político numa velocidade espantosa, apesar – ou por causa – da repressão sangrenta que havia tentado sufocá-la.

Contudo, as duas situações também apresentam uma estranha similitude. Nenhuma força política pode verdadeiramente reivindicar a paternidade da revolução tunisiana. A situação não é diferente no Egito, onde a oposição está amplamente sobrepujada pelos protestos sociais. Por lá, os movimentos reivindicativos aliam-se  com diferentes atores midiáticos, os quais reproduzem a estratégia do poder: deixar fazer, deixar manifestar as queixas e aceitar recuar quando necessário. Mas parcialmente.

Assim, a classe política egípcia, inclusive a Irmandade Muçulmana1, foi surpreendida pelo aumento das contestações, não apenas no meio operário como também nos bairros informais (espécies de favelas). A população mais pobre é sensível ao discurso sobre “democracia”, “direitos humanos”, “cidadania” e “reformas políticas”que invadiu o espaço público a partir de 2005. A retórica internacional dominante não deixa de ter algum impacto: ela dá origem a ajustes e a reapropriações por parte dos mais diversos atores da sociedade, até nas camadas populares.

De um lado, assistiu-se ao crescimento de ações violentas: barricadas em estradas para denunciar as mortes devido à falta de manutenção das rodovias e calçadas; ameaças de suicídio público e que hoje vêm se multiplicando na esteira do gesto de Bouazizi2. De outro lado, tranquilizado pelo seu caráter “não político”, o regime não respondia mais às demandas quando não emanavam de setores estratégicos.

Contudo, os poderes públicos reagiram com rapidez após os eventos na Tunísia, tomando medidas tais como o adiamento da adoção do texto de lei relativo à reforma do funcionalismo público. Por sua vez, as autoridades religiosas lembraram que o suicídio é  um ato de apostasia3– o que contrasta com a opinião mais matizada do popular pregador Youssef Al-Karadhaoui no canal de TV por satélite Al-Jazeera a respeito de Bouazizi.

Uma característica do movimento social egípcio é o crescimento das reivindicações que usam referenciais identitários ou comunitários. Por exemplo, beduínos do Sinai que volta e meia se revoltam contra o tratamento repressor de que são alvo, devido à proximidade com Israel; ou ainda, populações núbias que se queixam das suas condições de vida e reclamam os ressarcimentos que haviam sido prometidos por ocasião do seu deslocamento forçado quando da construção da Alta Barragem nos anos 1960. Porém, são as contestações dos coptas – em decorrência do atentado contra a igreja de Alexandria na manhã de 1º de janeiro de 2011 – que focalizam a atenção por conta das suas novas modalidades.

Analistas egípcios avaliam que o movimento social e político tunisiano caracteriza-se por ser “moderno”, mais maduro e mais político, pois parte dos seus integrantes é oriunda de camadas educadas: a famosa classe média que fala a linguagem refinada dos direitos humanos, da liberdade, da democracia4. No Egito, a expressão do protesto é diferente. A linguagem da moral e da religião caracteriza os movimentos sociais mais pobres. Nos meios instruídos, a linguagem do protesto fala em justiça e insiste na natureza categorial e social das suas causas. Além disso, como não ver no protesto da juventude copta em reação ao atentado de Alexandria uma saída do confinamento “comunitário” para difundir a “questão copta” no interior do espaço público nacional? Como não ver a linguagem da cidadania por trás da palavra de ordem “queremos nossos direitos”, lançada perante os representantes do Estado5?

Estamos assistindo no Egito ao advento de um movimento que exige a renegociação das modalidades da unidade nacional. O “comunitarismo” regional tunisiano apresenta uma exigência similar. Mas os protestos tunisianos e egípcios também se dirigem à opinião internacional, por intermédio da mídia6. Neste caso, trata-se de uma mutação importante: estamos diante de sociedades “globalizadas” que compreenderam que não estão mais prisioneiras dos Leviatãs árabes e que o exterior não é necessariamente ameaçador.

No momento em que vemos a “hibridação” dos regimes políticos pelo mundo afora – uma teoria segundo a qual o quadro da globalização está questionando as capacidades dos Estados e tende a fazer desaparecer as distinções entre os regimes autoritários e os regimes democráticos7 –, os protestos nos dois países mostram a hibridação paralela das formas da ação coletiva e dos modos de expressão do político. Até mesmo nos países árabes a política não se reduz mais às instituições. O Egito comprova que o endurecimento autoritário coexiste com uma transformação fundamental das relações entre o Estado e a sociedade8. Já a Tunísia mostrou que a distância entre protestos sociais e protestos políticos não é tão importante.

Sarah Bem Néfissa é pesquisadora no Institut de Recherche pour le développement (IRD).



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