Os Estados Unidos e a China lutam uma guerra fria?

“Houston, we have a problem”

Os Estados Unidos e a China lutam uma guerra fria?

por Lucas Wosgrau Padilha
26 de agosto de 2020
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A guerra fria dependeu da crença generalizada – e bastante plausível – de que União Soviética e Estados Unidos eram campeões globais de arranjos institucionais e interesses existencialmente contraditórios

Houston, Texas, 1979. Deng Xiaoping, o habilidoso líder da China pós Mao, inaugura a primeira representação consular da República Popular nos Estados Unidos. Após vestir um chapéu de vaqueiro e ganhar esporas do prefeito de Houston, Deng – que jamais foi presidente – marcava, ao lado do presidente Carter, a normalização das relações bilaterais entre os dois países.

O consulado de Houston é um marco de dois movimentos sincrônicos: o final da guerra fria e um novo início das relações diplomáticas e econômicas entre China e Estados Unidos, apesar das diferenças institucionais que, à época, eram maiores que hoje. O pragmatismo do republicano Nixon sucedido pelo idealismo humanitário do democrata Carter encontraram eco na visão estratégica dos comunistas Zhou Enlai e Deng, que lançou as bases do que viria a se tornar, no início do século XXI, a maior relação comercial do mundo.

Houston, Texas, 2020. O consulado chinês é fechado.  O ato unilateral liderado pelo presidente Trump e levado à cabo pelo secretário-de-estado Mike Pompeo é símbolo ou consequência do começo do fim da relação sino-americana construída durante os últimos longo de 40 anos? O mundo testemunha – atônito por conta de uma crise econômica e sanitária – uma nova guerra-fria?  É o que propõem, principalmente, Pompeo e William Barr – o poderoso advogado geral do governo Bush pai que retorna ao cargo sob Trump.

Em julho, na Califórnia, Pompeo discursou sobre o “futuro do mundo livre” e a “china comunista” na  biblioteca presidencial de Nixon.  Foi a conclusão de um ataque orquestrado: Robert O´Brien, assessor sênior de segurança nacional, Chris Wray, diretor geral do FBI, e Barr já haviam percorrido o país denunciando a falência da estratégia bipartidária inaugurada por Nixon e Kissinger a quem acusaram ter criado, inadvertidamente, um Frankenstein.

Sem mencionar a história ou as nuances do relacionamento, Pompeo anunciou que os EUA haviam criado para si – com a leniência de Hollywood, das empresas de tecnologia e Wall Street – um desafio maior que o da guerra fria: o Partido Comunista Chinês, diferente dos soviéticos, haveria criado conexões com as elites do mundo livre e se entrincheirou dentro dos Estados Unidos. O papel essencial – espiritual, inclusive – dos EUA seria assegurar – ao lado de seus aliados “amantes da liberdade” – a liberdade ao redor do mundo. Inclusive dentro da China. “O mundo não pode estar seguro até a que a China mude”, concluiu Pompeu citando Nixon fora de contexto.

Mas Pompeo não foi o primeiro, e não será o último, a tentar mobilizar o arsenal simbólico da guerra fria para fazer oposição a China.

É útil e correto, do ponto de vista conceitual, analisar outro contexto de competição e transição, por mais incerto e tenso que seja, como guerra-fria? Além da pertinência do conceito à análise, há lideranças capazes de vocalizar a ideia? O dinamismo e as fases da guerra-fria não podem ser esquecidas, se o objetivo for inferir a partir daquele momento uma categoria analítica para entendermos o atual.

Não é fácil reconhecer o começo da guerra-fria – a primeira e única – tanto quanto se tornou fácil afirmar que a queda do muro de Berlim foi seu fim. Há 74 anos, o veterano de duas guerras mundiais Winston Churchill reconhecia a emergência de uma zona de influência política e econômica a partir de Moscou: o bloco organizado em bases diferentes da ordem americana e fora de seu alcance militar determinaria não só o futuro da Europa – sobre a qual teria baixado uma “cortina de ferro” – mas do mundo.

Mas Pompeo não é Churchill. Nos EUA, ou mesmo na China, faltam líderes com visão e apelo internacionais capazes de analisar ou profetizar o futuro da geopolítica mundial. Ou pelo menos de explicar porque se trata de uma guerra-fria. No resto do mundo, inclusive na Europa, não há chefes de governo, ou diplomatas de alto escalão, que cogitem declará-la.

Antes de um conceito, a guerra-fria é uma história. Não pode ser resumida ao enredo de como os Estados Unidos e a OTAN triunfaram sobre a União Soviética e o Pacto de Varsóvia. A moral daquela história não é uma sobre valores universais e modelos políticos predestinados à vitória definitiva.

Além das batalhas militares, disputas diplomáticas e embargos econômicos – das quais os EUA nem sempre saíram vitoriosos – a guerra fria só pode ser compreendida se fatos e atos acontecidos longe de Washington forem analisados, como a morte de Mao e a (improvável) ascensão de Deng. Antes da ascensão de regimes militares anticomunistas na América Latina, a guerra fria foi inaugurada na Coréia em 1949 e encontrou no Vietnam o ápice do sacrifício humano das partes envolvidas. A única guerra que foi evitada durante o pós-guerra foi a nuclear.  Os conflitos do período também comprovaram o poder da diplomacia profissional – que levou aos acordos de Helsinque (1975), por exemplo – e o potencial das alianças improváveis como a sino-americana.

Inicialmente, naquela guerra, uma China enfraquecida e fragmentada – por conta de uma dura guerra civil que sucedeu a derrota do Japão – entrincheirou-se em lado oposto ao dos Estados Unidos. O país, mesmo sob Mao, raramente foi considerado pelos Estados Unidos um aliado automático dos soviéticos ou representante do socialismo que, dentre outras ideias, chacoalhava as ruas de Paris em 1968. A China era, sobretudo, uma oportunidade na batalha geopolítica contra o bloco socialista.

Em 1971, quando Kissinger secretamente visitou a China, a República Popular e o Partido Comunista não ofereciam perigo sequer a Taiwan, àquela época considerada sede do governo chinês. A morte dos dois líderes revolucionários dos dois maiores países sob jugo comunista colaborou para que republicanos e democratas, principalmente após 1977, percebessem que os interesses estratégicos chineses poderiam convergir com os americanos. Uma agenda de aproximação diplomática e cooperação multissetorial (inclusive militar), não isolamento ou compromissos de mudança de regime político, lançaria as bases da relação sino-americana até o governo Trump. Em 2019, Kissinger

A ascensão da China é, provavelmente, o maior fenômeno geopolítica depois do final da guerra-fria, mas isto não torna as disputas entre China e EUA – da guerra comercial às disputas tecnológicas – uma questão global em que a resposta só pode ser a formação de blocos e isolamento. Não só os EUA, mas quase todos os países – desenvolvidos ou não – perceberam os impactos da maior participação chinesa nos assuntos globais, desde o comércio ao meio ambiente. Este período de maior responsabilidade e ação global chinesa criou, entre 2008 e 2020, influências muito diferentes das soviéticas. Desde a Austrália ao Brasil, o agronegócio e a mineração perceberam ganhos inimagináveis a partir da demanda – e investimento – chinês nestas cadeias produtivas. O complexo feixe de relações econômicas e tecnológicas – mais que militares – da China com o resto do mundo não poderia ser mais diferente da falta de conexões do bloco soviético com o “mundo livre”. No comércio, pelo menos, a China faz parte deste mundo.

A guerra fria dependeu da crença generalizada – e bastante  plausível – de que União Soviética e Estados Unidos eram campeões globais de arranjos institucionais e interesses existencialmente contraditórios: Moscou e Washington ostensivamente disputavam – por meio do uso de proxies, inclusive – o futuro de um mundo incerto marcado por transições sociais (demográficas, por exemplo), tecnológicas (como a corrida espacial e nuclear) ao ritmo de independências coloniais e do nascimento de organizações internacionais. A guerra fria, mais do que um choque de potências, foi uma realidade global – para além do atlântico norte – e local – influenciando importantes movimentos políticos desde o Brasil ao Irã.

Ao contrário das guerras – conflitos militares que ameaçam existencialmente o território e povo envolvidos – a guerra fria não começou com um tiro ou declaração de guerra, uma escaramuça fronteiriça ou uma invasão. A guerra fria começou com palavras capazes de explicar o momento. Expressões como “cortina de ferro”, “corrida nuclear” e “corrida espacial” foram tão importantes (senão mais) para afirmar a guerra que os conflitos e mudanças de regime acontecidos de Santiago ao paralelo 38 que dividiu a Coréia. Os recursos retóricos adiantam, reforçam e conservam a situação de anormalidade (guerra) e distanciamento fatal (fria) entre dois países (ou blocos). Sua difusão na cultura – ou psicologia coletiva – é tão, ou mais importante, que nas instituições oficiais do poder – dos parlamentos aos quartéis-generais.

Por seu escopo e escala, a guerra-fria se tornou sinônimo de paranoia (e risco, portanto), desconfiança e desengajamento entre os dois maiores poderes geopolíticos do pós-guerra. Durante a guerra fria, no entanto, o mundo – cada vez mais povoado por estados-nação, organizações regionais e identidades não-alinhadas – percebeu avanços na governança global da saúde à segurança. A falta de coordenação no desenvolvimento, produção e distribuição da vacina contra a Covid-19 é um exemplo de como governos podem se prejudicar pela falta de adequadas instituições para a governança global e, principalmente, confiança recíproca, diplomacia. Os benefícios dela – substituídos por pequenas doses marginais de popularidade ganhadas no Twitter – são imprescindíveis. Os desafios globais, como o aquecimento global, cibersegurança, terrorismo, tráfico humano, águas internacionais e saúde não podem ser debatidos e solucionados em mesas nas quais faltem os EUA e/ou a China, muito menos no Twitter.

O consulado em Houston tornou-se um legado de um período em que China e Estados Unidos – ainda mais distantes em relação às suas aspirações, modelos econômicos e liderança política – acreditavam que a diplomacia era indispensável ao avanço dos objetivos estratégicos de ambos os países. A abertura do consulado teve peso maior que seu fechamento porque indicou caminhos claros para o relacionamento: normalização das relações diplomáticas – o que persiste até hoje -, a busca por agendas comuns e a promessa de integração econômica criando benefícios inimagináveis não só para ambos os países, mas para o resto do mundo.

A primeira – e única – guerra fria precisou das palavras de Churchill e o consenso que elas criaram para ser declarada. A história de 2020 não será escrita até que líderes políticos, acadêmicos e jornalísticos deem a ela sentido – não necessariamente de guerra fria – uma realidade histórica, datada, da qual dificilmente pode ser inferida um conceito útil.

Se o mundo for ser dividido, quem estabelecerá o traçado? Brasília e Varsóvia – capitais de países comercialmente muito mais próximos da China que dos EUA – estariam do mesmo lado da cortina? Qual lado, se ambos os países são liderados por presidentes explicitamente anticomunistas? Se cadeias de produção de equipamentos médicos, farmacêuticos – e, claro, microprocessadores – forem interrompidas, quem irá arcar com seus custos e como se garantirá, em um ambiente de paranoia, a eficiência alocativa?

A guerra fria de Pompeo – e tantos outros- oferece menos que um conceito, muitas perguntas e nenhuma resposta.

Tornou-se comum que, em benefício da economia jornalística, o uso dos termos “2.0” ou “nova” para marcar a diferença desta para aquela guerra fria. Abstrair a história para explicar o presente é um erro que decorre da preguiça, mais que da maldade. Os qualificantes (2.0,  nova ou tech) não explicam, nem resumem, as atuais tensões militares (no mar do Sul da China, principalmente), tecnológicas (em torno das questões do 5g, por exemplo) e econômicas marcadas pela crescente influência chinesa desde Jakarta – e Camberra – até Buenos Aires.

O desafio intelectual e político é tão grande que Houston em 2020 não pode ser um símbolo tão útil quando foi em 1979. A abertura do consulado indicou caminhos. O seu fechamento criou ainda mais dúvidas e problemas fundamentais para ambas as partes e todos os outros países do mundo. Os EUA e a China podem rumar para uma situação de extrema tensão levando a situações parecidas com aquelas da guerra fria, mas isto não torna o mundo de hoje semelhante ao das décadas de 1960 e 1970.

Estratégias de engajamento e cooperação são superiores ao esfriamento total: a diplomacia profissional, ao lado da capacidade política dos líderes envolvidos, abre canais e garante a confiança necessários para negociações e criação de valor.  Esta é a história da abertura do consulado em Houston. Essas são as lições de Nixon, Carter, Zhou e Deng. Embargos e intervenções – reforçados por um “sonho liberal“ de um mundo universal à imagem e semelhança dos EUA – são fonte de instabilidade global, não meios de propagação de uma ordem política superior capaz de garantir indefinidamente paz e progresso.

Lucas Padilha é advogado, bacharel em Direito pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, pós graduado em Direito Econômico, na mesma escola, e mestrando em Direito e Sociedade na Universidade de Pequim, onde é pesquisador-bolsista da Academia Yenching de estudos chineses.

 

 

 



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