OPNIÃO

Os homens negros e as eleições brasileiras de 2026

Por que a esquerda não só norte americana, mas também brasileira tem perdido adesão de um eleitorado historicamente confiável? 

Nos EUA, o partido democrata tem perdido cada vez mais nos últimos anos o apoio dos homens, particularmente homens não brancos, como negros e latinos. Esta perda de popularidade fez com que Kamala Harris candidata pelos Democratas à presidência dos Estados Unidos tenha lançado em outubro de 2024 um plano econômico voltado especificamente para o fortalecimento financeiro de homens negros. O plano envolveu uma série de propostas como concessões de empréstimos à juros baixos, maior acesso à serviços bancários, incentivos ao empreendedorismo e outros. O intuito foi trazê-los de volta eleitoralmente, talvez um pouco tarde demais.  

No entanto, foi um esforço importante, sinalizando que não só é possível politicamente criar ações afirmativas para este eleitorado, como é necessário, visto que é um grupo com uma história marcada por enormes processos discriminatórios e que tem um peso eleitoral importante, sobretudo se pensarmos no Brasil, com uma densidade demográfica que gira em torno de 58 milhões de indivíduos (MIR, 2023), dos quais parte considerável vota. O que acaba fazendo uma imensa diferença em disputas muito acirradas como é o panorama da política nacional. 

Assim, a pergunta é: Por que a esquerda não só norte americana, mas também brasileira tem perdido adesão de um eleitorado historicamente confiável? Há diversas explicações para isso. Geralmente as respostas giram em torno do backlash, ou seja, uma espécie de retaliação pelo avanço de direitos das mulheres e outras minorias. Embora, seja uma explicação plausível me parece insuficiente, porque lida com a dinâmica das identidades como um jogo de soma zero. Se uns ganham os outros tem de necessariamente perder. Além, é claro, de vilanizar estes homens. 

Questões relacionadas aos valores e perspectivas de futuro me parecem mais interessantes. Nos últimos anos a esquerda tem tratado valores e símbolos tradicionalmente tidos como masculinos com profundo desprezo e aversão. A virilidade e a honra são alguns deles que se tornaram sinônimos de violência e opressão. A masculinidade tem sido definida essencialmente como tóxica e a desconstrução vista como a solução última para a mazela social que se tornaram os homens.  

Com isso, a esquerda tem sido incapaz de oferecer reconhecimento, oportunidades e propósito para os esforços empreendidos por estes homens na busca pelo seu sustento, de suas famílias e comunidades. Apenas ridicularização, arrogância, presunção de culpa e penitências. Eclodindo nos já famosos “Desculpe por ser Homem” e “esquerdomacho”. Ademais, não há um horizonte de esperança econômica palpável, sobretudo para aqueles das classes trabalhadoras e populares. O que a esquerda tem a oferecer do ponto de vista moral e material para encanadores, mecânicos, eletricistas, motoboys, ajudantes de pedreiros, mestre de obras, borracheiros, “camelôs”, trabalhadores rurais, etc? Quando se trata de homens racialmente subalternizados, como os homens pretos e pardos, o racismo e o sexismo produziram um imaginário profundamente depreciativo, associando-os ao medo, à violência, a indolência e a degeneração moral, potencializando a visão difamatória sobre a masculinidade. 

Crédito: Mari Nogueira/Agência Senado/Flickr

Circunstâncias que tem empurrado o eleitorado e os eleitos destes segmentos para outros espectros ideológicos. O fato é que ninguém fica muito tempo em um lugar que não se sente bem-vindo. Segundo pesquisa da Folha de São Paulo sobre as eleições de 2024, no Brasil 83% dos prefeitos negros são de centro ou direita, “Ao todo, 49% são centristas, 34% são direitistas, e 17% são esquerdistas”. A direita apesar de ter uma histórica inclinação negacionista quanto a força explicativa do racismo para as desigualdades sociorraciais, tem feito um trabalho mais eficaz para angariar o apoio deste eleitorado, pois no campo dos valores não criminaliza a masculinidade e quanto ao futuro aponta o empreendedorismo, a ideia do “Self made man” como uma possibilidade de alcançar prosperidade e prestígio.  

Este discurso de tônica liberal e individualista, a despeito de todas as críticas, tem uma boa aderência pelo público masculino que antipatiza com a ideia de dependência estatal, percebe o governo como um indutor de oportunidades e enxerga na ascensão pelo trabalho uma maneira respeitável de afirmação de sua hombridade, conquista de status e respeitabilidade social. Ademais, a religiosidade e a família têm cumprido um papel importante no que concerne a construção de laços afetivos e comunitários, com destaque para o neopentecostalismo, que até bem pouco tempo era desprezado pelos progressistas. E não raro são as únicas instituições que estes homens podem contar.  

Por outro lado, a extrema direita tem operado, muitas das vezes, com uma masculinidade truculenta e retrógrada, onde seus traços deletérios de intolerância para com o outro, não são fruto de um senso crítico contundente. Os equívocos destas correntes político-ideológicas se retroalimentam formando um ciclo vicioso nefasto para as relações de gênero. De um ponto de vista prático, é preciso que as ideologias políticas encontrem um meio termo na lida com os homens, humanizando-os, sem maniqueísmos, em especial com os negros, pois são aqueles que apesar do seu capital eleitoral tem sido subestimados. E mais, é preciso que o movimento social negro faça este debate de forma série, generosa e endógena, ou seja, a partir das histórias de cooperação, divergências e superação entre homens e mulheres negros fomentando novos repertórios de interpretação das masculinidades negras e projetos políticos que abarquem textual e concretamente estes homens.     

Em síntese, os homens negros não são vistos como uma categoria política específica e relevante no debate eleitoral. Nossas demandas e questões não se materializam em plataformas políticas e programas governamentais. Para que isso ocorra, precisamos nos enxergar como sujeitos políticos através de nossa raça e gênero. Não apenas como negros, mas como homens pretos, pardos, mulatos, mestiços, afroameríndios, etc. Nossa importância eleitoral é subestimada por nós mesmos antes de ser pelos outros. Precisamos construir teorias, conceitos, práticas, enfim, produzir uma práxis sobre nossa experiência histórica no Brasil. É a partir deste empreendimento que iremos pavimentar nosso surgimento na arena pública, acadêmica e política de forma digna. No final das contas, o que a maioria dos homens comuns quer, é um trabalho digno, condições econômicas decentes, lazer de qualidade, amizades sinceras e duradouras, segurança para si e sua família e expectativas positivas para o futuro. 

 

Henrique Restier é professor de Sociologia (CEFET-RJ), Doutor em Sociologia (IESP-UERJ) e organizador do Livro Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades (HUCITEC).  

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