Os incontáveis painéis de debate nos canais de notícias 24 horas

UM MODELO ECONÔMICO QUE CORROMPE O DEBATE POLÍTICO

Os incontáveis painéis de debate nos canais de notícias 24 horas

por Sophie Eustache
1 de abril de 2021
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Com suas imagens espetaculares, GCs que desfilam pela tela e comentaristas instalados no palco, os canais de notícias 24 horas colonizaram nosso imaginário visual e mental. Suas antenas, que proliferaram nos anos 1990 em nome do pluralismo e do “dever de informar”, negligenciam a investigação e a reportagem e imprimem seu ritmo à vida pública

A informação 24 horas nasce da injeção de uma velha ideia em novos canais. Qual é a ideia? A de que os males do mundo resultam da falta de comunicação entre os seres humanos. E quais são os canais? As redes privadas de comunicação que se multiplicaram no início dos anos 1980, graças às novas tecnologias e à financeirização dos meios de comunicação. Em 1997, Robert “Ted” Turner – que dezessete anos antes criara, nos Estados Unidos, a CNN, primeira rede de televisão exclusivamente dedicada à notícia – explicava: “Desde que a CNN foi criada, a Guerra Fria acabou, os conflitos na América Central foram encerrados, veio a paz na África do Sul e há tentativas para estabelecer a paz no Oriente Médio e na Irlanda do Norte. As pessoas entenderam que a guerra é uma estupidez. Com a CNN, as informações correm o mundo inteiro, e ninguém quer parecer estúpido. Então, há paz, pois isso é inteligente”. Em 1991, o canal colocara a Guerra do Golfo dentro da sala dos telespectadores ocidentais: horas e horas se passavam até que algum acontecimento viesse interromper a fala de generais da reserva que se instalavam na bancada do estúdio, enquanto os correspondentes empoleirados no telhado de um hotel de luxo de Bagdá filmavam o céu. Diante das câmeras, não acontecia nada, porém o importante é que as imagens eram ao vivo. Essa fórmula se impôs como padrão de cobertura midiática dos grandes eventos internacionais.

Na França, esse formato foi visto pela primeira vez na rede La Cinq, canal privado criado por François Mitterrand em 1985 e atribuído ao magnata do audiovisual Silvio Berlusconi, então considerado próximo dos socialistas italianos, e ao empresário Jérôme Seydoux, até ser comprado por Robert Hersant em 1987. Das 5 às 8 da manhã, o canal exibia o programa Le Journal Permanent. O conceito, hoje familiar, consistia em repetir continuamente um noticiário de 15 minutos. Em dezembro de 1989, a La Cinq cobriu a Revolução Romena.[1] “As imagens ao vivo mostraram a explosão de alegria da multidão, reunida na Praça da Ópera, com a notícia da queda de Nicolae Ceausescu. Em seguida, mostraram a pavorosa vala comum onde haviam sido depositados os corpos das vítimas das manifestações do domingo anterior”, relatou com admiração o jornal Le Monde (25 dez. 1989) – mas as valas comuns eram falsas, e essa fake news da vanguarda, disseminada por todo o planeta e logo depois desmentida, já sinalizava o poder e o perigo representados por essa mídia instantânea.

 

Em busca de umas “aspas”

A versão radiofônica desse modelo, a rede France Info, lançada em 1987, teve um sucesso inesperado. Ela foi concebida por Jérôme Bellay, então diretor de notícias da Radio France, que queria criar um “self-service de notícias para quem tem pressa”. Imaginada desde o início como um produto de consumo de massa, a informação 24 horas se dirige sobretudo a consumidores. Assim, a BFM TV orgulha-se de ser “o canal de notícias 24 horas campeão de marketing no mundo”, nas palavras de um de seus diretores editoriais, Laurent Drezner.[2] O jornalista Jean-Jacques Bourdin, apresentador de política do canal, define os cidadãos como “acionistas” da “empresa França”…[3]

Com o lançamento da televisão digital em 2005-2006, a informação 24 horas alcançou um estágio industrial, adquirindo a influência que conhecemos hoje. A França tinha então quatro canais gratuitos desse tipo, três deles pertencentes a operadoras privadas: a LCI, de Martin Bouygues, criada em 1994; a i-Télé, lançada em 1999 e, após sua aquisição em 2014 pelo empresário Vincent Bolloré, rebatizada como CNews; a BFM TV, fundada por Alain Weill em 2005 e controlada desde 2015 por Patrick Drahi, chefe da SFR; e a France 24 (dedicada sobretudo a notícias internacionais). As redes de televisão France 24 e France Info (homônima da rádio), esta criada em 2016, têm caráter público, assim como La Chaîne Parlementaire e Public Sénat, dois canais institucionais. Em escala internacional, a chegada ao cenário da Russia Today (RT), canal russo fundado em 2005 pela agência governamental RIA-Novosti,[4] e do canal catariano Al-Jazeera International, criado em 1996 e lançado em inglês em 2006, mudou o jogo da informação 24 horas global e rachou o oligopólio ocidental formado por CNN, BBC e Euronews. Na França, a informação 24 horas somou em 2019 apenas 4,5% de audiência média: 2,3% para a BFM TV; 1% para a LCI; 0,8% para a CNews; e 0,5% para a France Info.[5] A título de comparação, a TF1 tem 19,5% da audiência, e a France 2, 13,9%. Com exceção da BFM TV, todos esses canais estão deficitários.

Longe de promover qualidade e pluralismo, essa competição na qual cada um tenta ficar com a maior parte da receita de publicidade produziu uma deterioração das condições de produção e um aumento do número dos programas de estúdio.

Distinguir as especificidades editoriais de cada canal é tarefa que exige um exame minucioso, pois o resumo de notícias de cada um parece copiado e colado de todos os outros. Na manhã de 5 de novembro de 2019, data escolhida em razão da disponibilidade dos arquivos, a France Info e a LCI abriram seu jornal matinal tratando da visita do ministro do Interior aos subúrbios [de Paris] após uma agressão de policiais, enquanto a BFM TV e a CNews falaram da decisão tomada pelo governo de criar cotas de imigração, para depois passar ao assunto da visita do ministro. De um canal para outro, a abordagem é mais ou menos a mesma: comentários sobre declarações políticas, reações de políticos eleitos em ligação direta com o estúdio, reportagens, “análises” de “especialistas” no estúdio, “interpretações” feitas pelos editorialistas, debates entre personalidades da direita e do centro, tudo ritmado por “destaques” continuamente exibidos na parte inferior da tela. Nenhum dos quatro canais cedeu o microfone aos moradores do bairro em questão.

A diferença entre os jornais da manhã de cada um dos quatro canais é marginal. Ela aparece no fim do jornal, quando entram as “pautas frias” – como uma “investigação” sobre a qualidade do ar na escola celebrando os méritos da empresa Véolia –, ou nas colunas patrocinadas: Actu Sport, com a Euromaster na CNews, ou L’éco de Pietri, com a Cerfrance na LCI.

Nesse mesmo dia, uma viagem de Emmanuel Macron a Xangai e a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris impediram, in extremis, a total ausência de notícias internacionais no noticiário matinal. Quem queria saber sobre o resto do planeta precisava ter acordado mais cedo: às 5 da manhã, horário do jornal France 24, veiculado pela France Info, que tratou das manifestações no Iraque contra o governo (apenas a BFM TV e a France Info fizeram uma breve alusão a isso no fim do jornal) e dos movimentos sociais no Líbano e no Chile. Com exceção do canal público, que também passou um jornal africano, as notícias internacionais limitavam-se à vida política dos Estados Unidos, que por sua vez se resumia aos tuítes publicados por seu então presidente. Prevendo ser “muito absorvente nesta eleição” (a de novembro de 2020), nas palavras do diretor adjunto de redação Matthieu Mondoloni, a rádio France Info enviou uma dezena de jornalistas para sua cobertura in loco, além dos que já faziam o acompanhamento internacional da Radio France. “Dois critérios se combinam para o bom funcionamento dos canais de notícias 24 horas: uma forte personalização e a ideia de contagem regressiva”, observa a socióloga de mídia Andrea Semprini.

A flagrante homogeneidade das informações é acompanhada por um marketing agressivo, a fim de construir identidades distintas. Ao longo do dia, peças celebrando as qualidades únicas do canal pontuam os programas, e chamadas para os programas nobres surgem no canto da tela. “Entre as 6h e as 8h da noite, quando você chega em casa e quer entender o que aconteceu no dia: junte-se a nós na LCI. A explicação, os fatos, nada além dos fatos, com nossos jornalistas, o debate de ideias – inclusive aquelas que incomodam – com nossos convidados, e, às 7h30, a opinião dos grandes editores do canal vão ajudar você a formar sua opinião”, proclama David Pujadas em uma chamada durante o jornal da manhã. Na verdade, os âncoras e seus programas de debate bastam para forjar a identidade desses canais. Assim, a busca pelo embate que transforma “debates” em ringues é a marca da CNews, enquanto a BFM TV transforma seu estúdio em cenário para registros televisivos os mais variados: painel de especialistas, entrevistas, debate entre jornalistas, políticos ou profissionais defendendo posições opostas sobre um tema, visão do repórter da casa, com a infografia de apoio.[6]

Duas lógicas estruturam a linha editorial dos canais de notícias. Uma é a das grades monopolizadas pelos programas de debate (nos quais o apresentador se esforça para arrancar boas “aspas” dos convidados) e pelos jornais com as últimas notícias (que transformam as aspas em informação). Outra é a da proliferação de programas ao vivo e de “edições especiais” que estouram a grade e prometem aos telespectadores imediaticidade (“Tudo o que acontece ao vivo na BFM TV”) e imersão (“Mergulhe no centro dos acontecimentos”).[7] Essas duas lógicas impõem-se em detrimento do documentário e da investigação, que poderíamos imaginar ter nesses canais dedicados à informação e que dispõem de um tempo infinito, muitas vezes preenchido por amenidades, um meio ideal para a exigência de “análise e interpretação” que a mídia tanto se vangloria de fazer.

A onipresença dos programas de debate está relacionada à adoção de um modelo de negócio de baixo custo. “Não apenas esses programas funcionam, mas, além disso, são baratos”, explica Antoine Genton, ex-apresentador da i-Télé (hoje CNews) e presidente da associação de jornalistas do canal. “Preencher uma hora no ar com um debate entre três ou quatro pessoas pagas a menos de 200 euros cada – quando são pagas – leva o custo editorial de um programa a mil euros, ao passo que uma hora de programas de reportagem custa dez ou quinze vezes mais. Portanto, há também uma dimensão econômica na opção de colocar debates no ar, e eu entendo que um empresário faça isso”.[8] Em horário nobre, o programa Face à l’Info, que diariamente dá a palavra ao polemista de extrema direita Éric Zemmour, teria permitido à CNews quadruplicar a audiência da faixa das 7h às 8h da noite em novembro de 2020, em comparação a 2019 (de 0,8% para 3,3%).[9] Esse crescimento automaticamente alimenta as receitas de publicidade, que em 2019 tiveram um salto de 14%, chegando a 24 milhões de euros,[10] embora o novo proprietário, Bolloré, tenha reduzido pela metade os recursos financeiros do canal.

(Unsplash)

Os programas de debate estão no centro de sua nova estratégia. “Ninguém mais assiste aos canais de notícias para saber o que está acontecendo! As novidades estão em nosso celular. A diferença está na expressão. Se estamos tendo sucesso, é porque vamos ao encontro daquilo que a sociedade está questionando, do que lhe interessa. Nosso estúdio reflete o que se passa nas ruas”, entusiasma-se Serge Nedjar, diretor da CNews e leal a Bolloré.[11] Um reflexo bastante distorcido, por causa de uma limitação tão antiga como o teatro: para convencer o telespectador a continuar vendo um punhado de sujeitos falando sobre se chove ou faz sol, eles precisam se desafiar, deslizar, causar escândalo. Essa encenação passa pela personalização dos programas: Bourdin Direct (BFM TV), Le Live Toussaint (com Bruce Toussaint, na BFM TV), Brunet Direct (com Éric Brunet, na LCI), 24h Pujadas (LCI), L’heure des Pros (nome que soa como o de seu apresentador, Pascal Praud, na CNews)…

 

“Um homem sedutor, um intelectual…”

Capacidade de análise e cultura histórica não estão entre as qualidades exigidas. Media trainer do INA Expert, um centro de treinamento profissional, Emmanuel Vieilly trabalhou, desde 2016, mais de cinquenta jornalistas e apresentadores da France Info, BFM TV, France 24, RMC Sport e Public Sénat. “Um programa é uma história, com personagens. Além disso, quando Cyril Hanouna vende Touche pas à mon poste [exibido pela C8, que pertence a Bolloré], ele vende com a cartela de personagens. Se você colocar ali somente mulheres sensuais e sem cérebro, você não terá polêmica no palco, todo mundo vai concordar. É preciso haver uma mulher sensual sem cérebro, um homem sedutor, um intelectual que já escreveu três livros… Isso inicia a guerra, cria emoção e dá vontade de assistir, para saber quem vai ganhar a luta. É como uma briga de rua, é difícil não olhar”, explica ele imitando a atitude dos protagonistas.

Assim, a virada da CNews para a extrema direita deve-se tanto às limitações orçamentárias que restringem a produção de informação 24 horas quanto aos interesses econômicos e políticos de Bolloré. Em uma década, a briga de palco necrosou todas as grades de programação, de Informés na France Info a Ça donne le ton na LCI, passando por La Belle Équipe da CNews e BFM Story, no qual Natacha Polony (diretora de redação da revista Marianne), Sophia Chikirou (assessora de comunicação) e Thomas Legrand (colunista político da France Inter) cruzam fogo com Alain Duhamel sobre assuntos tão diversos como “A França está isolada a respeito da laicidade?” (17 jan. 2021), “Quem odeia a polícia na França?” (12 out. 2020), “Saúde ou liberdade?” (13 out. 2020) e “Fim da linha para os ‘coletes amarelos’?” (14 set. 2020).

Nesse cenário se imprime a velha ladainha sobre a objetividade jornalística. “No contexto marcado sobretudo pelo surgimento do populismo e pelo desenvolvimento das fake news, tenho clareza de que temos um papel fundamental: informar com rigor, cobrir as notícias em todos os seus aspectos e permitir que elas façam sentido, por meio da análise e da boa reportagem”, anunciou Marc-Olivier Fogiel, recém-nomeado chefe da BFM TV, em um e-mail para funcionários em abril de 2019, enquanto a redação saía um tanto abalada do encontro com os “coletes amarelos”. “Somos uma redação que traz fatos, não comentários. Não comentamos as notícias, nós as entregamos, somos seus porta-vozes. Somos apenas um reflexo da sociedade, mostramos o que acontece nela”, afirma, por sua vez, Mondoloni.

Além de gerar uma audiência barata, os debates mediados e as entrevistas de estúdio permitem que os canais convertam em informação as polêmicas que ali surgem – em vez de investir em reportagem: controlado ou não, um deslize torna-se objeto de comentários e reprises em outras mídias, que provocam outras reações em cascata. Céline Pigalle, diretora de redação da BFM TV, detalha: “Há diferentes formas de valorizar declarações feitas no ar: por meio de títulos, de retransmissões e dos painéis de debate. Por exemplo, podemos partir de uma declaração e rediscuti-la em um programa de debate, ou até tentar desenvolvê-la”. Sob o pretexto de perseguir a “verdade”, as questões frontais de Bourdin buscam, acima de tudo, extrair “aspas” que depois serão vistas na forma de GCs, artigos no site da TV BFM, tuítes e, no melhor dos casos, em outras mídias. Um exemplo de fabricação de polêmica pôde ser observado no dia 21 de novembro, quando Ruth Elkrief recebeu a prefeita de Paris:

Anne Hidalgo, sobre o assassinato de Samuel Paty: “Todos devem ser claros sobre sua relação com a República. […] Temos de empurrar parte da esquerda, os ambientalistas, a sair dessa ideia…”

Ruth Elkrief: “… de sua ambiguidade…”

Hidalgo: “… de sua ambiguidade”.

A conversa deu origem a quatro artigos no site da BFM TV, bem como a remissões na Paris Match, L’Express, Libération, Le Figaro, Le Monde, Le Point, Valeurs Actuelles, CNews… Mais de um mês depois, a France Info ainda falava no assunto (29 dez. 2020).

“Há um fenômeno que todos criticam: é que as falas dos editorialistas nos estúdios estão em descompasso com aquilo que os repórteres observam em campo”, observa Astrid, que trabalhou como assistente e chefe de edição da BFM TV e da i-Télé. O movimento dos “coletes amarelos”, no inverno de 2018-2019, gravou na memória essa distância entre os comentários da bancada no estúdio em primeiro plano e a imagem da agitação popular exibida no canto da tela. Essa midiatização com aparência de manutenção da ordem talvez explique a recepção dura aos videorrepórteres no Arco do Triunfo… “As pessoas têm dificuldades para discernir entre um jornalista e alguém como [o comentarista] Christophe Barbier”, lamenta um videorrepórter da BFM TV.

O vão protesto dos jornalistas da CNews[12] contra Zemmour revelou até que ponto as equipes estão alienadas de seu próprio trabalho, que muitas vezes se resume a destacar comentários de editorialistas e consultores. Uma divisão taylorista de tarefas reforça ainda mais essa expropriação. As reportagens são montadas em Paris por deskers (jornalistas de gabinete) com base em imagens captadas por terceiros; as imagens captadas pelos videorrepórteres editadas por assistentes de edição ilustram regularmente os programas de conversa no estúdio ou de ligação direta entre o estúdio e outros interlocutores. Essa fragmentação dilui a responsabilidade e favorece um jornalismo de poltrona, desconectado do campo. “Eu trabalhava nos canais de notícias e não acreditava na violência policial”, conta Astrid. “Só tínhamos o ponto de vista das forças da ordem, pois, evidentemente, além dos repórteres e videorrepórteres, ninguém vai a campo. Quando há uma suposta ocorrência de violência policial em um bairro, o repórter especialista em ‘justiça policial’ vai até lá. Suas fontes são quase todas policiais, mas ele faz seu trabalho de repórter: vai falar com a família, com os advogados etc. Ele é cuidadoso. Já os editores só ouvem o consultor. Eles ouvem Dominique Rizet, que está em todas as listas de WhatsApp da polícia de Île-de-France…”

Originalmente, porém, a BFM TV e a i-Télé focavam mais o ao vivo do que a bancada de estúdio. Era em campo que os novos canais de notícias 24 horas queriam se destacar. A ideia era ser o inverso da LCI, símbolo do jornalismo sentado. Na década de 1990, o canal do grupo Bouygues ampliou suas parcerias: com Les Échos, RTL e Le Monde para o programa político Le Grand Jury; com Le Monde, novamente, cujo diretor de redação na época, Edwy Plenel, então receptivo aos encantos da “imprensa patrocinada”, apresentava todo sábado, ao meio-dia, um programa de promoção literária, o Le Monde des idées. A i-Télé queria refletir a “França exata”, e a BFM TV valorizava o “ao vivo em primeiro lugar”. As tecnologias de teletransmissão reavivaram uma velha ilusão jornalística, a de registrar e transmitir a “realidade” no momento em que ela acontece, como a única forma de captar os “fatos” sem alterá-los.

Essa ideologia, enraizada tanto nas direções editoriais quanto entre os partidários da exclusividade da notícia, negligencia um fato fundamental: o ao vivo mais produz do que relata o acontecimento. Basta que ocorra um incidente fora do normal (pelo menos o normal da televisão) para que o programa dê lugar a edições especiais. Às 4 da tarde do sábado 31 de outubro de 2020, a redação da France Info recebeu um alerta sobre um atentado em Lyon: “No contexto atual, partimos do princípio de que poderia ser um ataque terrorista, então entramos com edição especial”, relata um jornalista da France Info. “Quando constatamos que era um caso de direito comum, decidimos sair: nesse momento, tivemos de parar, pois estávamos dando ao evento uma importância que ele não tinha.”[13] É mais uma vez o estúdio que estrutura a edição especial: para evitar horas de transmissão ao vivo em que nada acontece, os canais deixam a melhor parte para a tagarelice em palco. “Nós tínhamos muitos convidados para as edições especiais, e não podia ser diferente: precisamos preencher o tempo no ar, e os elementos de informação chegam a conta-gotas, ou pelo menos não com rapidez necessária para que possamos renovar as notícias no ritmo que gostaríamos”, conta Benjamin, ex-apresentador da i-Télé. Diante da maldita realidade que se recusa a acontecer no ritmo do ao vivo, a solução é a bancada de especialistas.

Nem todo acontecimento tem apelo para o ao vivo. Os atentados e as perseguições a terroristas são os campeões desse apelo, a ponto de a LCI ter feito da tomada de reféns do voo da Air France no aeroporto de Marselha, em 24 de dezembro de 1994, sua certidão de nascimento – uma “sorte incrível”, nas palavras de Éric Revel, diretor-geral do canal de 2010 a 2015. Mas os acontecimentos ricos em imagem e em suspense, que se prestam à dramaturgia, como o movimento dos “coletes amarelos” ou a eleição presidencial norte-americana, não aparecem todo dia para ocupar todo o tempo de antena. Quando eles não existem, “o ao vivo não tem outra escolha, para preencher seu próprio tempo, a não ser solicitá-los, estimular seu surgimento e até provocá-los, às vezes acabando por criá-los do zero”, escreve a socióloga Andrea Semprini.[14] Essa é a lógica das vertiginosas transmissões, nos canais de notícias, de informações não verificadas, como a morte de Martin Bouygues, em 28 de fevereiro de 2015, a prisão de Xavier Dupont de Ligonnès, em 11 de outubro de 2019, o ataque ao hospital Pitié-Salpêtrière durante a manifestação do 1º de Maio de 2019, ou a exibição de armas de guerra por traficantes no distrito de Mistral, em Grenoble, em 26 de agosto de 2020. Desmentidas logo após serem anunciadas, essas infladas mentiras somam-se à já robusta lista de fake news disseminadas por aqueles que as denunciam.

 

Com os políticos, uma dependência mútua

Seja fabricando eventos “prontos para usar” ou jogando com a concorrência entre canais para impor sua mensagem, comunicadores e políticos se aproveitam dessa lógica. A façanha do paraquedista Félix Baumgartner, que saltou da estratosfera, em 14 de outubro de 2012 (em uma operação orquestrada pela marca Red Bull), as confissões de Jérôme Cahuzac, ministro responsável pelo orçamento no governo de Jean-Marc Ayrault acusado de fraude fiscal: são muitas as “notícias” cuidadosamente confeccionadas pelos serviços de comunicação. Em 2013, Cahuzac e sua assessora, Anne Hommel, impuseram à BFM TV as condições para uma “entrevista de confissão”. Eles decidiram o jornalista encarregado da entrevista (Jean-François Achilli, agora apresentador do programa Les Informés, da France Info), o local e o horário da transmissão: às 18 horas, para favorecer as reprises nos telejornais noturnos. Além disso, “se você achar que o convidado não disse o suficiente durante a entrevista, isso não impede, depois de encerrá-la, de continuar questionando o que foi dito… Na bancada há alguém para dizer: ‘Infelizmente nessa entrevista queríamos algumas respostas que o convidado não deu’”, destaca Céline Pigalle. E entram os comentários.

A relação entre os governantes eleitos e os canais de notícias é de interdependência. “Alguns líderes políticos (representantes eleitos, dirigentes partidários) gostavam muito de nossos programas. As bancadas de debate conferiam-lhes uma visibilidade que não tinham antes. Estávamos lhes dando uma tribuna, e eles logo entenderam isso. O interesse de um canal de notícias é não apenas receber o convidado, mas poder recortar suas falas e veiculá-las ao longo do dia, ou durante boa parte dele”, detalha o ex-apresentador da i-Télé. Fazer da LCI a porta de entrada da TF1 para o segundo escalão da vida pública: a ideia foi apresentada por Christian Dutoit quando o canal foi criado, em 1994. “Terão acesso a nosso canal figuras da política que nunca tiveram acesso à mídia informativa nacional: prefeitos das grandes cidades, presidentes dos conselhos gerais e regionais, alguns parlamentares. Em resumo, todos os nossos parceiros”, dizia na época.[15] E, acessoriamente, eventuais patrocinadores de obras públicas realizadas por Bouygues… A fórmula não exclui programas de qualidade, como a entrevista política de domingo à noite, apresentada por uma jornalista, Amélie Carrouer, que claramente trabalha previamente na pauta.

Apesar das regras decretadas pelo Conselho Superior do Audiovisual (CSA), “o igualitarismo exibido não exclui pequenos arranjos”, admite em seu livro um ex-diretor da BFM TV. “Nos canais de notícias, as arengas de um Philippe Poutou, de uma Eva Joly ou de uma Nathalie Arthaud[16] serão mais oferecidas aos telespectadores notívagos do que as do favorito das urnas”.[17] Em dezembro passado, o líder ambientalista Yannick Jadot, cujo partido tinha tempo de antena a ser contemplado, viu uma entrevista sua na LCI ser reprisada no meio da noite 31 vezes durante quatro noites consecutivas…[18]

Das bancadas de profissionais tagarelas que se esforçam para alimentar a polêmica do dia às transmissões especiais nas quais se exercita a arte de preencher o vazio, as herdeiras da CNN produziram, após trinta anos de desenvolvimento ininterrupto, uma formidável negação do princípio fundador da indústria de mídia: para estarmos mais bem informados, precisamos de mais informação.

 

*Sophie Eustache é jornalista. Autora de Bâtonner. Comment l’argent détruit le journalisme [Censurado. Como o dinheiro destrói o jornalismo], Éditions Amsterdam, Paris, 2020.

 

[1] Christian Delporte, “Quand l’info devient instantanée” [Quando as notícias se tornam instantâneas], La Revue des Medias, 20 out. 2016. Disponível em: https://larevuedesmedias.ina.fr.

[2] Citado por Thierry Devars, La Politique en continu. Vers une “BFMisation” de la communication? [Política 24 horas. Rumo a uma “BFMização” da comunicação?], Les Petits Matins, Paris, 2015.

[3] Jean-Jacques Bourdin, L’Homme libre [O homem livre], Cherche Midi, Paris, 2014.

[4] Ler Maxime Audinet, “La voix de Moscou trouble le concert de l’information internationale” [Voz de Moscou perturba o concerto das notícias internacionais], Le Monde Diplomatique, abr. 2017.

[5] Números: Médiamétrie.

[6] Cf. Maxime Friot, “BFM TV, mode d’emploi” [BFM TV, modo de usar], Action Critique Médias, 30 jun. 2020. Disponível em: www.acrimed.org.

[7] Thierry Devars, “Élections présidentielles et information en continu: les mutations télévisées du récit de campagne” [Eleições presidenciais e notícia 24 horas: as mudanças televisionadas da narrativa de campanha], Télévision, n.8, Paris, 2017.

[8] Mathieu Deslandes, “‘Le journalisme, c’est pas du spectacle’: rencontre avec un repenti des chaînes info” [“Jornalismo não é espetáculo”: conversa com um arrependido dos canais de notícias], La Revue des Médias, 14 out. 2020.

[9] Benjamin Meffre, “Audiences: comment CNews enchaîne les records en ce début de saison” [Audiências: como a CNews acumula recordes nesse início da temporada], Pure Médias, 4 nov. 2020. Disponível em: www.ozap.com.

[10] Jamal Henni, “CNews: l’arrivée d’Éric Zemmour n’a pas fait fuir les annonceurs… pour l’instant” [CNews: a chegada de Éric Zemmour não espantou os anunciantes… até o momento], Capital.fr, 31 ago. 2020.

[11] François Rousseaux, “Serge Nedjar, patron de CNews: ‘On ne s’interdit aucun thème ni intervenant’” [Serge Nedjar, chefe da CNews: “Aqui não há assunto nem convidado proibido”], Le Parisien, 27 jun. 2020.

[12] “Nous, journalistes de Cnews, ne sommes pas Éric Zemmour. Nous sommes une rédaction” [Nós, jornalistas da CNews, não somos Éric Zemmour. Nós somos uma equipe de redação], comunicado à imprensa da Associação de Redatores da CNews, 1º out. 2020.

[13] O assassinato de um padre ortodoxo naquele dia em Lyon foi motivado por um caso de adultério.

[14] Andrea Semprini, CNN et la mondialisation de l’imaginaire [A CNN e a globalização do imaginário], CNRS Éditions, Paris, 2000.

[15] Citado por Pierre Péan e Christophe Nick, TFI, un pouvoir [TF1, um poder], Fayard, Paris, 1997.

[16] Respectivamente, candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA) nas eleições presidenciais de 2012 e 2017, magistrada ambientalista e porta-voz do partido Lutte Ouvrière.

[17] Guillaume Dubois, Priorité au direct [Ao vivo em primeiro lugar], Plon, Paris, 2015.

[18] Pauline Bock, “LCI remplit ses quotas de gauche la nuit” [LCI preenche suas cotas de esquerda à noite], Arrêt sur Images, 10 dez. 2020. Disponível em: www.arretsurimages.net.



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