ORIENTE MÉDIO

Os laços econômicos entre Israel e o Irã

Para justificar o comércio, mesmo que indireto, com o Irã, Danny Catarivas, da Associação das Indústrias Israelenses explica que um país dependente do comércio internacional tem de separar o econômico do político e não entrar em um boicote econômicoAlain Gresh

As declarações incendiárias do presidente Mahmoud Ahmadinejad contra Israel ou aquelas dos dirigentes israelenses a ameaça iminente que o Irã representaria à sua existência poderiam nos fazer esquecer que as relações entre os dois países foram muitas vezes ambíguas ao longo da história recente. Sabemos que, durante a ditadura do xá Reza Pahlavi, Irã e Israel mantiveram relações estratégicas fundamentadas na luta contra o mundo árabe; essa aliança incluía também a Etiópia e a Turquia, ou seja, os três países não-árabes da região. Se a revolução de 1979 conduziu à ruptura das relações diplomáticas entre os dois países, isso não significa que os contatos entre eles tenham desaparecido. 

O episódio mais célebre foi o caso Irã-Contras , transação que envolveu a administração de Ronald Reagan, o governo israelense e diversos traficantes de armas (ler Alastair Crooke, “Irã, inimigo número um do Ocidente , Le Monde Diplomatique Brasil, fevereiro de 2009). Na época, durante a guerra Iraque-Irã, Israel considerava que a ameaça representada por Saddam Hussein era a mais grave, portanto era necessário ajudar os iranianos a qualquer preço… Tal política foi, por um curto momento, apoiada pela administração Reagan; mas esta não tardou a virar a casaca e ajudar massivamente o governo de Bagdá, fechando os olhos para a utilização de armas químicas pelo Iraque, principalmente contra os Curdos em Halabja. Na época, “nosso amigo Saddam” tinha boa fama, tanto em Paris como em Washington. Hoje, ao lermos as declarações belicistas dos dirigentes israelenses, pode parecer que tudo isso é história antiga. Mas não tem nada de história antiga.

No site Lobelog.com, Eli Clifton revela que Israel mantém relações comerciais com seu inimigo existencial (“Israel still trades with its ‘existential threat’” [Israel ainda faz comércio com seu “inimigo existencial”], 30 de agosto de 2010). Ele destaca um artigo do jornal Maariv, segundo o qual . o negócio é simples: o mármore retirado de pedreiras iranianas é enviado para a Turquia, para que aí seja tratado e em seguida exportado para Israel. Esse comércio vai de encontro à lei israelense que proíbe relações com os países inimigos, ou seja, a Síria, o Líbano e o Irã. Além disso, também vêm do Irã toneladas de pistache, produto muito consumido em Israel, sempre pela Turquia.

O mais estranho é a justificativa dada ao jornalista do Maariv por Danny Catarivas, chefe da divisão de comércio internacional da Associação das Indústrias Israelenses: “Os estadunidenses podem fazer coisas que outros não podem.” E explica que um pequeno país dependente de seu comércio internacional, como Israel, tem de separar o econômico do político, e não entrar em uma lógica de boicote econômico. “Do mesmo modo como ficamos indignados com as tentativas de boicote contra nós, também somos os últimos a apoiar qualquer tipo de boicote.” Outro aspecto saboroso, por assim dizer, desse assunto é que não apenas essas importações israelenses de mármore aumentaram nos últimos anos, como também as pedreiras são propriedade do governo iraniano, o mesmo que se denuncia querer destruir Israel. 

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).

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