Os mares estratégicos do Vietnã - Le Monde Diplomatique

ÁSIA

Os mares estratégicos do Vietnã

por Xavier Monthéard
7 de outubro de 2010
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O Mar da China Meridional é uma das principais rotas de navegação do globo, por onde passam 85 % dos recursos energéticos levados para a China, o Japão e a Coréia do Sul. Não à toa a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, declarou que a liberdade de navegação na região é “interesse nacional dos EUA”Xavier Monthéard

“Eles brincaram em japonês com duas clientes! Compraram vários suvenires e foram para as montanhas.” Tran fala com empolgação sobre a “invasão” dos marinheiros americanos na loja de esculturas da família. A jovem, estudante de história, não ignora a ironia da situação: os rapazes do Tio Sam recebidos como amigos no país do tio Ho Chi Minh! E em Da Nang, bem onde desembarcaram os primeiros soldados da guerra do Vietnã, em 1965. Tran prefere olhar para o futuro: “O Vietnã vai precisar dos Estados Unidos…”

No dia 10 de agosto, o destróier USS John S. McCain1 já estava ancorado por quatro dias no porto de Da Nang. Ao largo, o esperavam sua esquadra e o USS George Washington, normalmente baseado no Japão. Figura principal da 7a Frota americana, que navega pelo Oceano Pacífico Oeste e o Oceano Índico, esse colosso de cem mil toneladas é um dos 11 porta-aviões gigantes da marinha dos EUA. No dia 8 de agosto, ele havia recolhido no mar uma delegação de altas patentes vietnamitas. Prevista há muito tempo, a escala americana celebrava 15° aniversário da normalização das relações diplomáticas entre os dois antigos inimigos.

No contexto das tensões no Mar do Japão, no Mar Amarelo e no Mar da China2, a visita suscitou comentários fervorosos, especialmente por ter provocado o descontentamento da China, amplificado pela mídia. O reforço da cooperação militar entre os Estados Unidos e o Vietnã é constante. Como frisou o jornal Ta Kung Pao, de Hong Kong, “a partir do momento em que um primeiro navio de guerra dirigiu-se para a cidade de Ho Chi Minh [antes Saigon] em 2003, a cooperação só se aprofundou, especialmente por meio dos treinamentos e dos encontros de oficiais de alta patente. Em 2009, o porta-aviões USS John C. Stennis, o navio almirante da 7a Frota, USS Blue Ridge, e o destróier Lasses foram para o Vietnã3”. A revista online The Diplomat, de Tóquio, lembrou que “Bill Clinton e George W. Bush foram ambos para o Vietnã durante seus mandatos. Da mesma forma, o presidente vietnamita Nguyen Minh Triet e os primeiros ministros Phan Van Khai e Nguyen Tan Dung visitaram os Estados Unidos4”.

Como uma boa cooperação militar não poderia se passar apenas por uma camaradagem viril e por justificativas humanitárias, os estadunidenses acrescentaram um cunho civil aos exercícios de reparação de urgência e de luta contra os incêndios: projetos escolares, médicos e ortodônticos, churrascos e partidas de vôlei5. Antes, claro, de se dispersarem pelas espetaculares montanhas de Mármore, cinco picos rochosos com uma rede de túneis, antiga base de retaguarda dos vietcongues. Ou de passearem pelas extensas praias de Nam O Beach , onde aportaram as primeiras tropas de combate americanas.

Tran não sabe, ou não diz, se os bordéis, disfarçados de casas de massagem a US$ 2,00 a hora, trabalharam mais nesses dias de agosto. A nostalgia reaparece 6!

Trunfos, cartas falsas e coringa

Da Nang faz partes das cidades de categoria 1, o mais alto dos seis degraus administrativos no Vietnã. Com cerca de um milhão de habitantes, localizada entre a megalópole no Norte, Hanói, e a megalópole do Sul, Ho Chi Minh, ela cidade poderia ser um ponto de equilíbrio entre as outras duas, notoriamente concorrentes. No entanto, ela é prejudicada pela pobreza da infraestrutura nacional: estradas medíocres e trens irritantemente lentos não facilitam a comunicação. Para chegar a Hanói ou Ho Chi Minh, são necessárias mais de 40 horas de trem, em bancos de madeira precários ou camas miseráveis. Nada melhor do que em 1939, quando se podia “ir de Hanói para Saigon (1.739 km) por uma ferrovia única, em menos de 39 horas”7. A Assembleia Nacional rejeitou, em 19 de junho, os planos japoneses para um trem de grande velocidade (do tipo Shinkansen) entre Hanói e Ho Chi Minh, cujo custo estimado era de US$ 56 bilhões.

Os turistas ocidentais não se apressam, apesar da existência de um aeroporto internacional8. Uma questão de tempo, talvez? No Nordeste e no Sul, não se pode escapar das infinitas praias de areias, praticamente desertas durante essa falsa estação das chuvas, em que não chove e o termômetro ultrapassa os 35 °C. Bosques de pinheiros, palmeiras, uma água esplêndida, hotéis em profusão compõem uma receita que normalmente agrada, e na qual apostam os investidores Viet Kieu, esses vietnamitas de além mar que reataram seus laços financeiros com a pátria-mãe9.

Culturalmente, a cidade tem seu brilho. “Da Nang” seria um vocábulo da língua cham que significa “grande rio”. O Reino Champa dominou durante vários séculos o centro do Vietnã, sendo expulso e absorvido pela etnia Kinh (ou Viet), vinda do Norte. Era um desses reinos hinduístas que, como o dos Khmers, fizeram a grandeza da península da Indochina antes de serem expulsos por recém chegados. Seus descendentes estão atualmente entre as minorias étnicas. Da Nang possui a mais bela coleção mundial de esculturas chams, cerca de 400 obras originais em arenito, expostas no museu dedicado a eles. Mas a cultura cham, ainda remanescente nas províncias de Ninh Thuanh e Binh Thuan (no Sul do Vietnã) ou no Camboja, desapareceu nessa região.

Mas a maior riqueza de Da Nang ainda é sua localização geográfica excepcional. Encostada aos contrafortes da cordilheira anamita, ela se abre para uma baía em forma de ferradura e para a península de Son Tra. A costa Oeste dessa península forma um excelente ancoradouro. Apinhadas de gruas, contêineres e caminhões, as docas transferem as mercadorias tanto pela estrada quanto pelo rio Han, que atravessa a cidade. Mais ao Norte está o principal porto de águas profundas, Tien Sa.

O mar e  seus perigos

Íngrime, a península oferece uma vista magnífica. Ela está repleta de instalações militares. Em seu ponto culminante (cerca de 700 metros), há radares por todos os lados: efetivamente, de Son Tra, domina-se o Mar da China meridional, chamado no Vietnã de “Mar do Leste” (Bien dong). A imaginação se compraz em passear pelo arquipélago Hoang Sa, localizado a cerca de 200 milhas marinhas.

Internacionalmente conhecido pelo nome de “Paracel”, o arquipélago é controlado militarmente pela China, que por sua vez o chama de “Xisha”. A vitória dos chineses sobre a marinha sul-vietnamita ocorreu em 1974, mas desde o ano seguinte, quando da reunificação do país, os dirigentes de Hanói se recusam a reconhecê-la. Todo cidadão vietnamita aprende na escolaque o arquipélago constitui parte integrante da nação. E qual o motivo dessa paixão por recifes e ilhotas desertas10? A zona é repleta de peixes e, provavelmente, rica em hidrocarbonetos, além de se integrar em uma dinâmica conflitante mais ampla, a do Mar da China Meridional em sua totalidade.

Entre os estreitos de Málaca e de Taiwan está a vastidão de uma das principais rotas de navegação do globo. Sua importância estratégica foi bem resumida pelo secretário-geral da Associação das Nações da Ásia do Sudeste (Anase), o tailandês Surin Pitsuwan, ao indicar que mais de 85% dos recursos energéticos levados por navio para a China, o Japão e a Coréia do Sul passam pelo Mar da China Meridional11. Controlar essas rotas e evitar que outros as controlem: essa dupla exigência tem seu melhor exemplo no arquipélago Spralty, mais ao Sul. Ali, nada menos do que seis Estados reivindicam, com graus e vigor diversos, uma soberania territorial: Brunei, China, Malásia, Filipinas, Taiwan e Vietnã. Desde que a secretária de Estado americana Hillary Clinton declarou, em julho de 2010, em Hanói, que a liberdade de navegação no Mar da China Meridional era do “interesse nacional dos Estados Unidos”, o conflito latente entre os países vizinhos pode explodir. O porto de águas profundas de Da Nang, assim como o litoral vietnamita, voltariam a se tornar locais de grande importância estratégica.

Xavier Monthéard é jornalista.



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