DESAFIOS E IMPACTOS NA CONSTRUÇÃO DE SISTEMAS ALIMENTARES MAIS SUSTENTÁVEIS

Os mercados alimentares digitais podem contribuir para a mitigação das mudanças climáticas?

A expansão das tecnologias digitais tem transformado profundamente as formas de produção, circulação e consumo de alimentos em todo o mundo

Crédito: Foto gerada pelo Gemini 19/01/2026

Mercados alimentares digitais são os novos canais de comercialização construídos socialmente pelos atores sociais envolvidos nas transações, especialmente os agricultores familiares e os consumidores dos alimentos. Os mercados alimentares digitais funcionam como uma interface sociotécnica onde algum tipo de Tecnologia da Informação e Comunicação (TICs) e processos de digitalização fazem a mediação social das compras e vendas e entre os atores sociais envolvidos. Na prática, são sites, aplicativos, redes sociais, plataformas, entre outros dispositivos sociotécnicos que têm sido usados para comercializar alimentos de agricultores familiares para consumidores e outras organizações sociais como, por exemplo, cooperativas[1].

Em um projeto de pesquisa intitulado Mercados alimentares digitais no Brasil: dinâmicas, inovações e desafios da comercialização na agricultura familiar, que foi desenvolvido durante 3 anos (2023 a 2025) por membros de dois grupos de pesquisa (Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e Grupo de Pesquisas e Estudos em Desenvolvimento, Alimentação, Mercados e Políticas Públicas (GePPADeM), financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), chegou-se a algumas conclusões iniciais interessantes sobre o tema e  alguns delas são úteis para se pensar ou repensar as questões dos sistemas e mercados alimentares frente as mudanças do clima.

A pesquisa, de caráter qualitativo e quantitativo, acompanhou diferentes experiências de mercados alimentares digitais em distintas regiões do Brasil, na Colômbia e na Itália, envolvendo agricultores familiares, cooperativas, associações, plataformas digitais e consumidores. Foram analisadas as dinâmicas de funcionamento, os arranjos organizacionais e tecnológicos, as práticas logísticas e os impactos sociais, econômicos e ambientais desses mercados emergentes.

Uma primeira questão que emergiu das pesquisas é que os mercados alimentares digitais funcionam, na maioria das experiências analisadas, como cadeias curtas de abastecimento, atuando como ponte sociotécnica entre os agricultores e os consumidores. Mercados assim construídos, mais próximos social e territorialmente, possuem processos de emissões de gases de efeito estufa (GEEs) da etapa de logística (food miles) menores do que mercados mais longínquos, em torno de 15 vezes menores emissões do que uma cadeia longa de abastecimento, por exemplo. Assim, os mercados de proximidade social e os territoriais, em que operam os novos canais digitais, ajudam a mitigar os efeitos das mudanças do clima, devido as menores emissões de GEEs[2].

Um segundo achado importante do projeto de pesquisa é que os mercados alimentares digitais surgem principalmente durante a pandemia da Covid-19 e possuem uma dinâmica de comercialização em que as vendas digitais hibridizam-se com as físicas já preexistentes. Assim, os mercados anteriormente construídos fisicamente (uma feira presencial, por exemplo), funcionam concomitantemente com as vendas digitais, como de uma plataforma voltada a este fim e gerenciada por uma cooperativa que associa agricultores familiares ou congrega consumidores (cooperativa de consumo). Este aspecto torna as experiências mais sustentáveis, por integrarem os dois tipos de comercialização.

Crédito: PxHere

Na prática, essas experiências assumem formatos variados. Há desde plataformas digitais geridas coletivamente por cooperativas e associações de agricultores e consumidores até iniciativas individuais de agricultores familiares que utilizam redes sociais e aplicativos de mensagens para organizar encomendas, pagamentos e entregas. Em muitos casos, os sistemas são simples, mas eficazes, baseados na confiança, na proximidade territorial e na relação direta entre quem produz e quem consome.

Outro aspecto relevante que surge na pesquisa e que demonstra que os mercados alimentares digitais estão preocupados com o clima é o de que a grande maioria dos alimentos comercializados nestes espaços digitais são orgânicos, agroecológicos, artesanais, agroindustrializados, da agricultura integrada, entre outros tipos de produtos que são mais sustentáveis dos industrializados que circulam, por exemplo, no varejo alimentar comum do dia a dia no Brasil (supermercados). Este aspecto evidencia que os mercados alimentares digitais da agricultura familiar podem fazer diferenças em termos de dieta e saúde dos brasileiros, mas também em termos de futuro climático e planetário.

Além da dimensão ambiental, esses mercados digitais se relacionam diretamente com a segurança e a soberania alimentar. Ao fortalecer circuitos curtos de comercialização e valorizar a produção local da agricultura familiar, contribuem para a construção de sistemas alimentares mais resilientes diante de crises, como eventos climáticos extremos, oscilações de preços e rupturas nas cadeias globais de abastecimento.

Alguns casos de mercados alimentares digitais pesquisados: Armazém do Campo do MST (Recife/PE), Delivery Ecológico (Alagoas) e Sembrando Confianza (Colômbia).

Um quarto elemento que emerge das investigações realizadas é que os mercados alimentares digitais são muito heterogêneos e diversificados em termos de dinâmicas, regiões, experiências, formatos, inovações e atividades produtivas e tecnológicas. Contudo, parece que dois formatos principais predominam: a) Um primeiro mais colaborativo, utilizando-se de plataformas geridas por organizações sociais como cooperativas e associações de agricultores e de consumidores; e b) Um segundo, individualizado e dos próprios agricultores familiares, que se utilizam de plataformas de fácil manuseio e acesso gratuito para comercializarem seus produtos (redes sociais e aplicativos de mensagens). Principalmente o primeiro tipo, parece interessante, pelos aspectos da ação coletiva, para se pensar processos que se preocupam com ações de mitigação e adaptação climáticas, por poderem alcançar mais atores sociais e locais.

Essa heterogeneidade também se expressa de forma desigual nos territórios brasileiros. Regiões com melhor infraestrutura digital, maior organização social e presença de cooperativas consolidadas tendem a apresentar experiências mais estruturadas de mercados alimentares digitais. Em contrapartida, áreas marcadas por precariedade de conectividade, maiores distâncias geográficas e menor apoio institucional enfrentam mais obstáculos para a consolidação dessas iniciativas.

Em outra frente, o projeto de pesquisa concluiu que os atores sociais mais vulneráveis no campo continuam excluídos dos mercados alimentares digitais. Tanto agricultores familiares mais vulneráveis quanto consumidores pobres e de bairros mais carentes não conseguem acessar estes alimentos mais saudáveis e sustentáveis. Os motivos são o não acesso à internet e aos processos de digitalização em curso, a falta de alfabetização digital e a carência de infraestrutura digital (por exemplo, de equipamentos para conexão). Assim, estes mercados do ponto de vista do consumo, possuem um perfil de acesso mais elitizado, de classe média-alta, com maiores níveis educacionais e de rendas, que são típicos da maioria dos estudos sobre cadeias curtas alimentares e redes alternativas. Isso é preocupante, já que estes atores sociais mais vulneráveis já estão mais susceptíveis aos efeitos das mudanças climáticas como estudos internacionais mostram e também não conseguem se alimentarem melhor pelos novos canais digitais.

Isso ocorre, também, porque o Estado e as políticas públicas estão ausentes na área da digitalização e também junto a estes atores mais vulneráveis socialmente. Este é outro grande achado do projeto de pesquisa. Por exemplo, dados do Censo Agropecuário de 2017 (IBGE, 2019) evidenciam que 70% dos estabelecimentos agropecuários estão sem conectividade a internet, sendo que este número sobe para em torno de 80% quando se analisam apenas os agricultores familiares mais pobres. Autores como Gazolla e Aquino (2024) têm afirmado que existe uma grande dívida digital no campo brasileiro e que processos mais inclusivos de digitalização são importantes para que se possa falar em desenvolvimento sustentável. Além disso, através da digitalização, poderia haver melhorias em, por exemplo, monitoramentos e avisos de eventos climáticos (que estão cada dia mais frequentes), ações de conservação ambiental e até de denúncias de crimes ambientais (queimadas, desmatamentos, etc.) utilizando-se estas novas tecnologias.

A ausência de políticas públicas estruturantes limita o potencial transformador dos mercados alimentares digitais. Sem investimentos em conectividade rural, alfabetização digital, apoio técnico e fomento à inovação social, essas iniciativas tendem a permanecer restritas a nichos sociais mais favorecidos, reproduzindo desigualdades históricas e reduzindo seus efeitos positivos sobre o clima e o desenvolvimento sustentável.

Alguns outros casos de mercados alimentares digitais investigados no Rio Grande do Sul (RS): Trii Ecológico (Porto Alegre), Alimento de Origem (Frederico Westphalen) e Buena Onda (Jaguari).

Uma sétima descoberta do projeto de pesquisa é que além dos potenciais e problemas apontados acima em relação aos mercados alimentares digitais, existem inovações importantes sendo construídas. As principais dão conta de que nestes mercados há maior número de mulheres em suas dinâmicas de construção social; são usadas diferentes tecnologias digitais e formatos para construir os mercados; os processos de governança tendem a operar com arranjos institucionais multifatores; os alimentos e produtos comercializados são mais saudáveis e sustentáveis como já referido;  a logística de transporte geralmente é colaborativa e os custos são divididos entre os atores e; por fim, há experiências interessantes de digitalização no campo e dos mercados quando há parcerias de atores públicos e privados nos locais e territórios (ecossistemas locais/regionais de inovação x empresas de internet x governos locais).

Por fim, as investigações conduzidas durante estes 3 anos apontam que há vários desafios na construção social da digitalização no campo e de mercados alimentares que funcionem segundo esta dinâmica. Enumera-se alguns deles identificados durante as pesquisas: falta de infraestrutura digital e tecnológica; como manter os mercados digitais ao longo do tempo (pós-pandemia); como incluir agricultores familiares e consumidores mais vulneráveis; os altos custos de construção, atualização e operacionalização de algumas plataformas; como manter a fidelização de consumidores ao longo do tempo; os papéis do Estado e das políticas públicas nos processos de digitalização e como proteger melhor dados individuais e sensíveis dos usuários nas plataformas digitais (Gazolla, Aquino, Gaievski, 2023).

Assim, embora os mercados alimentares digitais apresentem contribuições relevantes para a mitigação das mudanças climáticas, seus impactos positivos dependem diretamente das condições sociais, territoriais e institucionais em que se desenvolvem. A digitalização, por si só, não garante desenvolvimento sustentável; ela precisa estar articulada a políticas públicas, inclusão social e fortalecimento da agricultura familiar.

Concluindo, notam-se contribuições dos mercados alimentares digitais em relação ao tema das mudanças climáticas, como, por exemplo, funcionarem emitindo menores taxas de emissões de GEEs no transporte dos produtos, comercializarem alimentos mais saudáveis e sustentáveis, o uso das novas tecnologias em várias frentes ambientais como apontado ao longo do texto. Contudo, é importante aprofundar a agenda de pesquisa em que se relaciona os mercados alimentares (físicos e digitais) com as mudanças climáticas e os processos e objetivos do desenvolvimento sustentável, pois ainda há vários aspectos, nuances e interrelações que não estão claros na literatura científica brasileira e internacional.

 

Marcio Gazolla é Professor Titular na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Pesquisador permanente do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR). Pesquisador do Grupos de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e do Grupo de Pesquisas e Estudos em Desenvolvimento, Alimentação, Mercados e Políticas Públicas (GePPADeM). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. E-mail: [email protected]

 

Jhose Iale C. da C. Vieira é Professora Adjunta do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEDOC) da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) na área de sociologia. Pesquisadora dos Grupos de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) e do Grupo de Pesquisa em Educação do Campo, das Águas e das Florestas: Cultura, Escolarização e Multisseriação (EDUCAMPO). E-mail: [email protected]

 

Referências

CONTERATO, M. A.; GAZOLLA, M.; SANTOS, J O. Gases de efeito estufa em cadeias alimentares curtas, médias e longas: uma análise comparativa do food miles de uma cesta de alimentos para o Brasil a partir dos dados do PROHORT/Ceasas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto Clima e Sociedade, 120p., 2024.

GAZOLLA, M.; AQUINO, J. R.; GAIEVSKI, E. H. S. Mercados alimentares digitais da agricultura familiar no Brasil: dinâmicas durante e pós pandemia da COVID-19. Mundo Agrario. Vol. 24, N. 57, 2023.

GAZOLLA, M.; AQUINO, J. R. A divida digital no campo brasileiro: uma análise nacional e regional a partir dos dados do Censo Agropecuário de 2017. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional. V. 20, N°1, Jan-Abr/2024.

GAZOLLA, M.; TONIN, J.; IALE, J. C.  O Que São Mercados Alimentares Digitais? Definições Em Um Contexto De Desenvolvimento Sustentável E Inclusivo. Redes. V. 29, 2024.

IBGE. Censo agropecuário 2017. Sistema de Recuperação Automática de Dados (SIDRA). Acesso em: 24 jul. 2024. Disponível em: < https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/censo-agropecuario/censo-agropecuario-2017/resultados-definitivos >. 2019.

[1] GAZOLLA, M.; TONIN, J.; IALE, J. C.  O Que São Mercados Alimentares Digitais? Definições Em Um Contexto De Desenvolvimento Sustentável E Inclusivo. Redes. V. 29, 2024.

[2] CONTERATO, M. A.; GAZOLLA, M.; SANTOS, J O. Gases de efeito estufa em cadeias alimentares curtas, médias e longas: uma análise comparativa do food miles de uma cesta de alimentos para o Brasil a partir dos dados do PROHORT/Ceasas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto Clima e Sociedade, 120p., 2024.

 

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