Os registros da xilogravura social de São Paulo - Le Monde Diplomatique

ARTE POLÍTICA

Os registros da xilogravura social de São Paulo

por equipe Le Monde Diplomatique Brasil
4 de abril de 2015
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Próximo de completar uma década, o coletivo artístico Mapa Xilográfico se prepara para lançar o projeto “10 Anos em Deriva” com debates e intervenções sobre a desigualdade urbanística na maior cidade da América do Sulequipe Le Monde Diplomatique Brasil

A partir de uma obra que mapeava em xilogravuras troncos de árvores cortadas pelo poder público, nasceu o olhar crítico do coletivo artístico Mapa Xilográfico. Na contramão dos interesses de mercado e das facilidades da cooptação política, o coletivo  tem colecionado quase dez anos de memórias, debates e ações sobre a desigual geografia social da cidade de São Paulo.

Na interação com a população mais afetada pela especulação imobiliária e pela privatização do espaço público, Milene Valentir, Tábata Costa e Diga Rios criam documentários, textos, intervenções urbanas e ações cotidianas.

O Mapa Xilográfico prepara a edição e publicação de materiais inéditos a partir deste intenso período de produção artística autônoma. Para tanto, abriu um financiamento para o apoio de quatro obras que estarão disponíveis na internet: o documentário “(À) Deriva Metrópole São Paulo”; e os registros das intervenções “Gatunos SA”; Vila Itororó e o Barco – Bloco Fluvial do Peixe Seco.

http://colaboramapaxilo1.blogspot.com.br/p/apoie.html
O Le Monde Diplomatique Brasil conversou com Milene, Tábata e Diga para falar sobre sua formação e seus novos projetos.

 

Como nasceu o coletivo?
Em 2006, Milene Valentir e Kleber Silva começaram um trabalho de xilogravura nos espaços públicos da cidade: imprimiam a superfície dos troncos cortados entendendo os mesmos como matrizes públicas de xilogravura. As obras impressas ganhavam o nome da rua onde se encontravam. Tal trabalho buscava quebrar a ideia de propriedade da obra de arte, uma vez que os troncos estavam públicos e mapeados, e a autoria da obra, pois a gravação dos troncos (desenhos cavados em baixo relevo) era feita pelo trabalhador que cortou a árvore com a serra elétrica. Os impressores somente ressignificavam o “mobiliário urbano”, como é chamado, e o colocavam no patamar de arte ao criarem a obra impressa. Ao multiplicarem o trabalho em diversos locais começaram a criar um mapeamento das matrizes públicas, o que deu o nome ao projeto: Mapa Xilográfico.

Com o tempo foi-se percebendo que tal atitude interventiva propunha o percorrer, a caminhada, o deslocamento. A proposta do mapeamento era, antes de mais nada, um incentivo pelo olhar aguçado ao espaço público. A impressão dos troncos quase sempre causava estranhamento dos transeuntes, que geralmente se aproximavam para conversar ou até mesmo ajudar. Achavam que era um trabalho de biólogos ou então fiscais da prefeitura. Nas conversas durante a ação sempre falavam de sua memória sobre a árvore, sobre como era a rua ou sua infância naquele lugar. Aos poucos foi ficando claro que aquele corpo cortado era parte da memória de um bairro ou comunidade em processo de desmemorialização. Diante das transformações do espaço urbano por algumas décadas, em nome do “progresso” e do “desenvolvimento” os moradores das grandes cidades têm sofrido intensos processos de apagamentos de memória, de enfraquecimento dos laços comunitários e de expulsão das camadas mais pobres da população para áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos.

Então, o Mapa Xilográfico nasceu da percepção da necessidade de atuar no campo, da ativação da memória, das relações de troca e coletividade na produção artística, no uso coletivo do espaço público e na reescritura da história a partir do olhar de quem vive a cidade e é alvo das intenções de apagamento e silenciamento atreladas a vetores de interesses mercadológicos de produção da cidade.

De uma ação pontual passamos então a atuar por um período longo de tempo em cada lugar, convidando seus moradores a fazerem parte de um “coletivo fluido” que se instaurou naquele momento a fim de atuar política e poeticamente acerca das questões daquele lugar, criar documentários, textos, intervenções urbanas, ações cotidianas e derivas, produzindo uma coletividade a fim de pensar a cidade a partir de sua comunidade. Ao fim do trabalho todo, o registro da produção elaborada retornava ao bairro em forma de documentário em DVD ou revista impressa.

Ao mesmo tempo em que uma ação artística pontual passava a ser vista como a possibilidade de trazer o poético e o político para o cotidiano de um bairro, as ações do coletivo acabavam ampliando ainda mais a proposta de quebra da relação artista-público e visão de autoria da obra de arte, pois as produções passavam a ser feitas em co-criação de forma a ser mais horizontal, feita a muitas mãos.

 

Como vocês escolhem os temas?

Como coletivo de intervenção urbana, concebemos a nossa prática como uma aproximação poética e de ressignificação do espaço urbano, o que significa estar aberto aos encontros e temáticas que nossa percepção de cidade captar. Sem temáticas prévias, buscamos uma relação sensível e critica em nosso cotidiano e, nesse sentido, não somos nós que escolhemos os temas, e sim as demandas da cidade, ou os temas atuais de nossa sociabilidade que “nos escolhem”. Com essa percepção cotidianamente exercitada tentamos responder poeticamente às inquietações provocadas por um espaço urbano hegemonicamente violento, produtivista, competitivo, desumanizante, segregado, objeto de interesses privatistas ou estatizantes que esvaziam a sua potência como espaço público. Nesse sentido, nossa prática de intervenção urbana é como um regurgitar, devolvendo com potência de vida e relação poética com o espaço urbano as estratégias de dominação contemporâneas.

 

Quais os impactos e transformações que perceberam ao longo destes anos resultantes da especulação imobiliária?

A negação do direito à cidade é o grande impacto da especulação imobiliária, uma vez que mediante o seu poder econômico e político tem promovido a expulsão de populações “indesejadas” (com baixo poder de consumo, como moradores de favelas, cortiços, ocupações informais e a população em situação de rua) de regiões que desejam valorizar, em claros movimentos de gentrificação; tem imposto uma nova sociabilidade à cidade, com um desmedido processo de verticalização atrelado à ética da vida blindada em condomínios fechados e suas varandas gourmets aos privilegiados com poder de consumo; tem apagado memórias e sequestrado espaços de referências históricas integrando-os aos seus lançamentos imobiliários mediante processos de museificação, ou seja, a imposição de sua narrativa sobre a cidade; tem fomentado a privatização de espaços potencialmente públicos com acordos compensatórios e parcerias com a prefeitura para a administração de parques e praças. Em suma, a especulação imobiliária atenta contra a concepção de coisa pública, influenciando e interferindo diretamente no conceito de espaço urbano contemporâneo, defendendo uma cidade privatizada onde a sua prática seja balizada pela capacidade de consumo de seus habitantes e não por estatutos que garantam o exercício de direitos como em qualquer espaço concebido como coisa pública.

 

Neste período como vocês avaliam a diferença da administração pública sobre o tema?

Após os anos 70, com a expansão dos conceitos neoliberais nas concepções da administração pública, assistimos ao esvaziamento da dimensão pública como pilar de qualquer gestão, em qualquer esfera de poder. No âmbito municipal, por exemplo, percebe-se a mudança do gerenciamento do que é público para o empresariamento urbano, como aponta David Harvey, ou seja, a cidade administrada como uma empresa, firmando parcerias público-privada que transformam a criação e aplicação de planos diretores em verdadeiras acomodações aos interesses da especulação imobiliária, até porque caracterizam-se como importantes doadores de campanhas eleitorais para o executivo e legislativo. Nesse sentido, é possível encontrar algumas diferenças superficiais nas gestões dos últimos anos na cidade de São Paulo, entretanto, as concepções de gestão estruturais não se modificam: São Paulo como uma cidade global, entreposto do fluxos de capitais, com vocação para o setor de serviços e que se vende no “mercado internacional de cidades” com seus diferenciais no turismo de negócio. Trata-se de uma concepção de gestão neoliberal, que naturaliza a existência de guetos, da precarização do direito à cidade e da ética de consumo do urbano como paradigma das metrópoles internacionais. Como diz uma pichação no centro da cidade: “o urbanista de São Paulo é o Capital”, o que não é novidade na urbanização sob a égide do capitalismo, mas que se intensifica nos últimos anos de gestões neoliberais.

 

As produções do Mapa estão relacionados com a vida das trabalhadoras e trabalhadores da Grande São Paulo, como vocês buscam a interação e participação do público?

Fazemos em cada local ou bairro onde trabalhamos uma espécie de “residência artística”, passamos a percorrer quase diariamente seus caminhos e seu cotidiano. Aos pouco vamos conhecendo alguns moradores e vamos acessando suas redes de contatos. Tais pessoas são convidadas a fazerem parte de uma produção coletiva, que inclui desde  caminhadas junto aos moradores do bairro, passando pela construção de um documentário a partir de suas memórias e interpretações e chegando até na criação coletiva de intervenções urbanas. As pessoas que topam acabam sendo parceiros de um trabalho para seu próprio bairro e atuam conosco dentro de seu tempo e possibilidade, não há dia certo ou hora marcada, há da nossa parte, uma disponibilidade para abarcar o próprio cotidiano das pessoas em cada local.

 

Quais são as dificuldades de manter um coletivo político/artístico de vocês?

A dificuldade de caminhar na contramão dos interesses de mercado, de opor-se às formas de cooptação política, de contrapor outras narrativas de cidade às poderosas máquinas midiáticas, de manter um processo criativo, crítico e estético autônomo, sem financiamento privado ou partidário, enfim, as dificuldades de quem afirma uma posição crítica e independente no cotidiano de uma metrópole como São Paulo. Nesse sentido a atenção deve ser redobrada para encontrar as brechas que viabilizem as ações do coletivo, como editais públicos e formas de financiamento autônomas como tentamos nesse momento. É entender que existem convites que não devem ser aceitos, pois representam riscos de cooptação e esvaziamento da potência criativa do coletivo. Praticamente isso significa jornadas duplas de trabalho, em atividades econômicas de garantia de sobrevivência desvinculada das iniciativas do coletivo e, no tempo restante, dedicar energia às ações do Mapa Xilográfico. Isso significa, dentre outras coisas, que não vendemos nossas produções, mas distribuímos gratuitamente as publicações, documentários, fotografias e etc. Construímos ao lado das pessoas pela cidade e devolvemos em relação de troca e horizontalidade nossas experimentações. Dessa maneira afastamos interesses de mercado de nossas produções, o que nos interessa.

 

Se vocês pudessem mudar uma coisa na cidade, o que mudariam?

Sabemos que uma resposta pontual não resolveria, pois a cidade é um complexo de relações contraditórias onde o espaço e seus conceitos estão em constante disputa. Mas modificar o vetor de produção das transformações urbanas regido pelo utilitarismo que atende ao mercado financeiro seria interessante. As mudanças e construções do espaço urbano deveriam ser realizadas pelo poder popular, que apontaria para as necessidades dos usos coletivos e coletivizantes do espaço público; e não passar por uma pseudo-consulta que busque apenas legitimar decisões que, de fato não passaram pelo crivo da população. Além disso, uma mudança interessante, pois estrutural, seria impedir os privilégios das propriedades privadas que não cumprem uma função social, diminuindo a margem de manobra das práticas especulativas, como manter prédios inteiros fechados e desabitados aguardando a valorização territorial. Não permitir a propriedade privada meramente especulativa significaria fortalecer a dimensão pública da cidade, em um contexto de ataque dos espaços de interesse público.



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