Os rumos da comunicação - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA/JEAN-NOEL JEANNENEY

Os rumos da comunicação

por Maíra Kubík Mano
13 de outubro de 2010
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Mídia livre, democratização da comunicação, cultura, internet e jornais impressos foram alguns dos temas analisados pelo ex-ministro francês de Comunicação e historiador, Jean-Noel Jeanneney, em entrevista ao Le Monde Diplomatique BrasilMaíra Kubík Mano

O ex-ministro veio ao Brasil para debater os impactos da internet na cultura, no ciclo de debates Conversas do Nosso Tempo, que ocorreu nas escolas da Aliança Francesa no país.

Le Monde Diplomatique Brasil – Como a internet contribui para a democratização da comunicação?

Jean-Noel Jeanneney – A internet é, ao mesmo tempo, maravilhosa e inquietante. É um instrumento profundamente ambivalente, que pode trazer o melhor e o pior: é uma fonte formidável de informações, mas também abriga sites anti-semitas, racistas e todo tipo de boatos. Eu faço parte de uma geração de historiadores cujos professores consideravam a televisão um horror, verdadeira rival do ensino. Agora, eles entenderam que têm o dever de formar as crianças para a compreensão da imagem, tendo um espírito crítico. Da mesma maneira, acredito que a internet, usada de forma positiva, chama à reflexão. O sistema educacional de um país é capaz de formar os alunos para uma utilização séria da internet, deixando-a livre e aberta.

Claro, há também a desordem. Acho que a Wikipédia é um caso simbólico e instrutivo. A Wikipédia é muito simpática, todo mundo contribui de maneira benevolente. Contudo, eu não acredito que ela irá gerar o melhor conhecimento possível. Acho que ela é útil, mas também perigosa. Por quê? Porque há coisas falsas. Sim, elas podem ser corrigidas logo em seguida, mas isso não resolve. A questão mais importante é a ideia – um pouco ingênua – de que os erros serão consertados pela verdade, só que muitos deles permanecerão por lá. A questão mais grave da Wikipédia é colocar, no mesmo plano, coisas que são importantes e outras que não são. É preciso fazer uma interpretação, uma hierarquização.

Diplomatique – Na França, a liberdade da mídia é um princípio fundador da Va República. Existem meios privados, mas também públicos e estatais. No Brasil, a situação é diferente: os meios públicos e estatais são minoria. A internet aqui supriria alguma lacuna ou cumpriria um papel de contra-poder da mídia?

Jeanneney – Na França, de fato, nós temos mais equilíbrio da informação. Atualmente, por exemplo, a imprensa diária não é sarkozista [em referência ao presidente francês Nicolas Sarkozy], com a exceção de uma parte à direita. Do ponto de vista do rádio e da TV, temos que pensar, por um lado, nas redes privadas, que vivem de publicidade; e por outro, naquelas públicas, que têm outra fonte de financiamento e se propõem a levar ao ar coisas que as outras não fazem.

Esse equilíbrio pode ser encontrado também na internet: nela há certo dinamismo, certa energia, e a busca por lucro é um elemento presente, mas não suficiente. Há também outro tipo de rede, que traz outras informações e propostas. O encontro dessas duas visões funciona bem, equilibrando o sistema. Uma coisa que distingue a internet dos grandes canais de rádio e TV é que os colocamos a partir do centro, enquanto a internet é uma rede, interligada por inúmeros nós. Isso muda tudo. Como ela é reticular, ninguém pode se meter nessa instituição, nem o poder público. Mas, não podemos confiar no mercado para organizá-la. É preciso que, ao lado das forças naturais do capitalismo, intervenha também o poder público, o Estado.

Outro grande problema da internet é o da validação. Como nós temos milhares de coisas disponíveis, é preciso que haja pessoas propondo – não impondo – um fio de Ariadne no interior dessa desordem, dessa profusão. Nós temos essa necessidade.

E como é possível para o Estado propor esse fio de Ariadne, lembrando que quando falamos disso, falamos também do dinheiro? O dinheiro é muito ambíguo para a imprensa. Ao mesmo tempo em que dá liberdade, também pode tirá-la. E na internet? Bem, primeiro não é verdade que ela seja gratuita. Nós pagamos sempre para usá-la, como consumidores, ainda que muitos jovens não se dêem conta. Segundo, é preciso refletir sobre como ter, concomitantemente, o melhor retorno possível em termos cívicos, éticos e simplesmente de precisão e verdade.

Há cinco ou seis anos, quando era presidente da Bibliothèque Nationale de France, me lancei em um combate para construir uma biblioteca numérica europeia, a Europeana (http://www.europeana.eu/). Tratei disso no livro, Em defesa de uma reação: quando o Google desafia a Europa (Ed. Contra Capa). Esse caso é interessante por si só e também como metáfora. O Google tinha anunciado que faria um esforço gigantesco de numerização de obras, algo em torno de milhões delas. E eu disse: “por razões morais, nós não podemos deixar nas mãos do Google esse monopólio”. Isso seria muito arrogante: eles iriam numerar os livros sem ter o direito de fazê-lo. Era uma pilhagem!

Eles propunham certo tipo de hierarquia, um ranqueamento de páginas ditado pelo lucro. Eram necessários outros critérios, outras organizações para escolher os livros que seriam numerados. Dois milhões não são nem 10% dos 150 milhões de títulos publicados desde Gutenberg. Então, decidimos fazer uma biblioteca. Sugeri o nome Europeana porque soava meio grego, meio latino. E ela agora existe e está avançando, um estímulo para dezenas de países.  O nosso caso tornou-se simbólico para mostrar o combate de ideias entre o setor privado e o público. Para mim, a formação de cidadãos imbuídos de vontade para compreender os eventos com os quais somos bombardeados é a única forma de classificar as coisas.

O Google divulga o “Código Da Vinci” e se nós perguntarmos hoje quem é, na Europa, o homem mais representativo do continente nos últimos séculos, vão responder: “Leonardo da Vinci”. E não porque eles têm uma cultura anterior. Se a lógica do lucro seguir funcionando, teremos sempre apenas o que já fez sucesso. É fundamental haver uma cultura vívida, que traga à tona o que ainda não conhecemos como os pintores impressionistas ou o pobre Stendhal.

Diplomatique – É possível pensar numa regulamentação da internet feita pelo poder econômico, Estado e cidadãos?

Jeanneney – Isso não é apenas desejável como também possível. Há duas maneiras de o Estado intervir: como controlador e como regulador. Quando falo de uma presença do Estado, muita gente diz “ah, seria bom regulamentar, mas nós não podemos”. Disseram o mesmo do rádio e da TV. Claro, nenhuma regulamentação é perfeita. Mas isso não é motivo para deixar de fazê-la.

Acho o problema da regulamentação é a pluralidade dos atores e também a diversidade de nações. Em nível internacional – e hoje precisamos pensar assim porque a nação acabou –, me lembro de um fato histórico: a grande discussão, na metade do século XIX, sobre o direito do autor. Na esquerda, havia os socialistas que diziam que: “Não há direito de autor. Tudo tem que ser gratuito. O povo deverá ter acesso ao belo, às obras-primas, e o autor terá o orgulho de ser valorizado”; outros diziam que o direito de autor era como um imóvel, que se admirava e se transmitia eternamente aos descendentes. Nós chegamos então a um sistema intermediário, em que era interessante haver alguma consideração sobre o renome e os preços serem acessíveis.

Diplomatique – Qual é o futuro da mídia impressa?

Jeanneney – Cada vez que temos uma nova mídia, anunciamos que a antiga morreu. Como a televisão em relação ao rádio. Mas acho que no caso da imprensa, de fato, há uma parte que vai esvaecer. Entre 1890 e 1900, nos grandes boulevards, em Paris, se trocava a edição nas bancas de hora em hora quando havia um grande acontecimento. Na rádio, a novidade incrível foi o flash, as notícias rápidas. E agora, na internet, há muita informação simultânea.  Creio que vão sobreviver os jornais especializados por categoria – de esporte, automóveis etc. Seus leitores vão ler na internet e no papel, como já ocorre com os livros.

A grande questão, evidentemente, é sobre os grandes jornais generalistas, que eu não sei se vão sobreviver. O Le Monde Diplomatique, acho, está no meio termo entre generalizar e ser um jornal de nicho, porque o público que o segue é bem peculiar. De qualquer forma, os grandes jornais terão que fazer mudanças. Talvez eles optem por ter um número menor, mas mais fiel de leitores. O Estado pode então ter um papel fundamental nisso, com isenção de impostos, que é uma doação indireta. E nesse caso, é importante que a nação dê o dinheiro, não o governo, para preservar a independência dos veículos.

Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).



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