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EDITORIAL

Os sentimentos comandam

3 de julho de 2018
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A servidão voluntária pode ser compreendida como um ato de submissão, um reconhecimento da superioridade do outro, a quem se deve obediência. A servidão voluntária é uma construção simbólica que destitui todo cidadão e cidadã de sua humanidade, de seus direitos, de sua autonomia.

 

Explorando medo e descontentamento, as elites criam uma agenda cujo centro da discussão é a violência, a corrupção e o crime. Essa agenda tem um duplo sentido. Ela cria uma percepção de que estamos todos ameaçados, é intimidatória, dissemina o medo. E tem uma função estratégica, de definir os temas do debate público. Não se fala de enfrentar a desigualdade, reduzir os juros bancários, cobrar impostos dos ricos. Se fala da luta da policia contra os bandidos.

O mundo é desenhado como uma luta entre mocinhos e bandidos, com grande apoio da indústria cultural que cultua os super-heróis e a luta entre o bem e o mal. É um processo de infantilização da sociedade que simplifica os dilemas da vida, oculta as questões sociais e desloca os temas de discussão para o que não importa. Um dos efeitos dessa estratégia é demonizar os imigrantes, criminalizar os pobres, intimidar e reprimir os movimentos sociais, agredir religiões distintas, como a umbanda e o candomblé, e, ultimamente, atacar o Partido dos Trabalhadores e Lula. Quem detém o poder da comunicação constrói a narrativa e identifica quem são os mocinhos e os bandidos.

A população se sente acuada, e os pobres em particular são continuamente ameaçados pelo braço violento do Estado, pelas polícias, que se utilizam prodigamente de sua licença para matar. É sob o domínio do terror que se bloqueia a agenda das maiorias, a expressão de suas necessidades, sua manifestação coletiva enquanto cidadãos e cidadãs. Já dizia Étienne de La Boétie, em 1548, que essa situação só perdura enquanto a população se curvar e se submeter à servidão voluntária.1

A servidão voluntária pode ser compreendida como um ato de submissão, um reconhecimento da superioridade do outro, a quem se deve obediência. A servidão voluntária é uma construção simbólica que destitui todo cidadão e cidadã de sua humanidade, de seus direitos, de sua autonomia.

A disputa por um novo lugar na sociedade, por uma vida digna, pelo respeito e pela justiça é um ato coletivo de ruptura com a servidão voluntária. É uma ruptura com os valores dominantes que se dá no embate, no conflito, assumindo riscos e enfrentando os poderes instituídos. É a afirmação de uma nova identidade, fundada em novos valores, em uma nova concepção de viver em sociedade. A coragem de romper é celebrada em todas as épocas da história – um sentimento que se sobrepõe ao do medo que leva à servidão. É assim que se dão as grandes transformações, quando as maiorias recusam o lugar que lhes é atribuído pelas elites e tornam-se protagonistas de sua história.

A “guerra da água”, uma mobilização cidadã ocorrida em 2000, em Cochabamba, na Bolívia, contra a gestão privatizada da água em sua cidade, é um dos melhores exemplos da construção de novos valores. A população, indignada e mobilizada, expulsou a empresa multinacional que passara a gerir o sistema público de fornecimento de água e retomou a água como um bem público.

Com essa vitória, a coragem aumentou em todo o continente, e a população percebeu que pode romper com a servidão voluntária, que pode vencer em seus pleitos. E foi o que aconteceu em numerosos países do continente na primeira década do século XXI. Os movimentos sociais cresceram e eleições levaram aos governos representantes dos interesses populares, governos que passaram a defender uma nova agenda: o enfrentamento das desigualdades e da pobreza, a soberania, a participação e o respeito aos direitos humanos. “A esperança venceu o medo”, dizia o PT quando Lula se elegeu em 2002.

A partir dessas vitórias e como uma forma de enfrentá-las, as elites promoveram uma inversão da agenda – na qual o medo e a submissão são centrais – para a reconstrução da servidão voluntária. A estratégia se deu por meio da utilização da mídia e da atuação militante de um crescente número de organizações financiadas por grandes empresas nacionais e internacionais que abraçaram o ideário neoliberal e a defesa dos interesses destas em detrimento do interesse das maiorias. Em termos gramscianos, é a disputa pela hegemonia na sociedade, pelos corações e mentes de cidadãos e cidadãs. É a disputa para formar novas maiorias.

Ainda não conseguiram formar, de fato, uma maioria, mas há uma parcela significativa de nossa população que aderiu a essa visão de uma sociedade conflagrada, violenta, sem respeito à ordem, dominada por milícias e traficantes, em que o crime e a corrupção imperam. E que precisa ser governada por mão forte. Abdicam de sua soberania como cidadãos em nome de uma suposta paz a ser conquistada pelas armas. Aceitam a execução sumária de jovens pobres e pretos nas periferias das grandes cidades. Aceitam abrir mão de direitos em nome da segurança. E demonizam seus opositores. Acusam, por exemplo, aqueles que defendem os direitos humanos de defenderem os criminosos.

Neste cenário, não há esperança, não há futuro. Há apenas a administração violenta do presente, que se prolonga indefinidamente. Para criarmos uma nova esperança, um país onde se respeitem os direitos humanos e a riqueza gerada seja mais distribuída, temos de ter a coragem de confrontar essa narrativa conservadora e contrapor a ela um novo projeto de sociedade, na qual a solidariedade e a cooperação sejam suas marcas de identidade.

 

*Silvio Caccia Bava é editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil



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